Abnegação | Joaquim António Ramos

quitoOra aí está! Isto é que é abnegação! Isto é que é caridade cristã!
Cinco refugiados líbios encontraram refúgio num Convento do centro de Itália, em Junho do ano passado. As noviças decidiram, num gesto pleno de fraternidade e solidariedade, tomar nas suas mãos – e parece que em outras partes da respectiva anatomia – a satisfação das necessidades dos jovens magrebinos, fugidos da fome e da miséria e das tempestades mediterrânicas. Lavaram-nos, vestiram-nos, alimentaram-nos e, na ausência da madre superior, aplacaram-lhes os ardores do sangue.
A notícia não é clara quanto à Ordem das freiras, mas eu estou em crer que podia ser Carmelitas descalças, daquelas que trajam quase andrajos e andam de pés nus, em sinal de pobreza e despojo. Ora, ver um pé nu é, para um seguidor de Maomé o mesmo que ver um seio ou uma coxa ao natural. Faz o mesmo efeito! Como é que os desgraçados, com os últimos meses vividos entre uma barcaça no Mediterrâneo e um Convento em Itália, sem fêmea disponível, podiam resistir a um bando de pés nus, frescos em flor, a correr pelos claustros do convento, ainda por cima com a Madre Superiora a dormir fora? Só podia dar nisso.

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Carta ao Ministro das Finanças | Joaquim António Ramos

quitoExmo Senhor Ministro das Finanças
Excelência:
Depois de ter percorrido várias Repartições de Finanças, de ter perdido grande parte dos meus ultimos dias em filas com senhas das mais diversas cores, sem conseguir resposta às minhas angústias fiscais,atrevo-me a vir junto de V. Excia para ser esclarecido sobre as novas regras que se anunciam para o IMI. Toda a gente diz que as vistas e a exposição solar vão agravar o IMI, mas ninguém sabe em que medida ou como minimizar o impacto. Por isso recorro a V. Excia. Passo a expôr:
1. Eu vivo numa casa que só tem vistas para um lado, e a paisagem que tenho à frente é o portal da igreja – bem bonito, por sinal…Se me pendurar na janela ainda consigo vislumbrar o pelourinho e a Câmara Municipal. Isto tudo virado a Nascente, logo com alguma exposição solar. De resto, a Sul dou logo de trombas com o muro do Padre, a Norte com uma casa que ardeu e a Poente com o muro dos Barretos, donde só saem pulgas, osgas e ratos, porque a casa está abandonada há uma porrada de anos. Consequentemente, em termos de vistas, dos quatro pontos cardeais, só o Oriente Próximo me aterroriza. Estou assim mais ou menos como a Europa.
2. Falando de vistas, pelo exposto em 1, e como a Igreja está isenta de IMI, pensei que esta isenção poderia alargar-se à minha fachada Nascente. Caso não seja este o entendimento do Fisco, posso fazer uma declaração com assinatura reconhecida e tudo, a jurar que fecho os olhos de cada vez que assomo a uma janela da fachada Nascente – arejo os quartos às apalpadelas – ou mesmo a trancar as janelas com protecções de madeira inamovíveis e a mandar demolir a varanda donde expio procissões e casamentos. Os senhores das Finanças poderão ir lá verificar. E de vistas estamos falados, pois não acredito que o muro do Senhor Prior, mais o dos Barretos e a casa ardida tenham atributos paisagísticos suficientes para me agravar o IMI.

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Tempo da Descoberta | Joaquim António Ramos

tempo da descoberta - quitó

Joaquim António Ramos tem 65 anos e vive em Azambuja, onde nasceu, e a cuja Câmara presidiu durante 12 anos.

Licenciado em Economia, foi professor universitário, responsável, durante mais de duas décadas, pelo sector de Ambiente do Município de Lisboa, consultor de diversas empresas de estudos ambientais e desenvolveu vários projectos, nacionais e internacionais, nessa mesma área.

Foi durante dois mandatos coordenador do Comité de Ambiente das Eurocities, sediado em Bruxelas.

Em 2005 publicou a sua primeira obra literária, “ Contos Semibreves”.