Não correu bem o primeiro encontro formal de Abecasis com os dirigentes do Município de Lisboa | por Joaquim António Ramos

Depois de ter sido empossado pela primeira vez, ao contrário dos presidentes em núpcias, que vão visitar os serviços como quem explora os recantos da noiva, Abecasis passou os primeiros dias a calcorrear Chelas, o “Cambodja”, a Musgueira, o Casal Ventoso, com o séquito municipal todo atrás, a bufar de cansaço e sedentos do recato do gabinete. Incomodados com as misérias humanos que nos corriam à frente dos olhos. Abecasis falava com mulheres de avental, homens sem emprego nem fundo, drogados, velhos sentados ao portal, enfim, a “baixa” de Lisboa, qualquer que fosse a razão da “baixa”: a pobreza, o abandono, a droga, a insalubridade e o desconforto das barracas onde viviam.
No dia seguinte a terminar esse périplo pelas profundezas de Lisboa, convocou os dirigentes para uma reunião conjunta no seu gabinete. Éramos poucos, os dirigentes municipais naquela altura – dez ou onze –, e eu era o mais jovem deles. Tremi perante aquela perspetiva duma primeira reunião com o novo Presidente, no meio de uns senhores impecavelmente vestidos, tecnicamente respeitados e temidos, alguns de cabelos brancos ou carecas.
Recebeu-nos no seu gabinete e mandou-nos sentar numas cadeiras previamente dispostas em duas filas. Quanto a ele, escarranchou-se no braço do sofá dourado que ocupava a parede de lado a lado, a fumar Ritz e a deixar cair a cinza por todo o lado.
“Não vos mandei vir cá para que me falem dos vossos serviços. Para já, não me interessa nada quem é das obras, do lixo ou da cultura. A minha prioridade é acabar com as barracas em Lisboa. Por isso, gostava de ouvir a vossa opinião sobre como fazê-lo. Cada um, como cidadão e dirigente, já deve ter pensado nisso. Vá, venham lá essas ideias”- desafiou, enquanto a beata de Ritz lhe caiu várias vezes para o sofá.


Foi um atropelo de ideias, uma chuva de soluções milagrosas para dar casa a cada família, na ânsia de causar boa impressão a quem ia ser presidente da Câmara nos próximos três anos – nessa altura, os mandatos eram de três anos. Na realidade, ficou dez, porque na ultima reeleição a lei mudara para quatro anos os mandatos das Autarquias.
Abecasis ia ouvindo e, ao fim dumas três ou quatro intervenções dos que tinham vencido a vozearia, as pálpebras começaram-se-lhe a descair, a pouco e pouco. Foi escorregando pelo braço do sofá até ficar adormecido, com a cabeça encostada à almofada de veludo que lhe fazia de costas. Sempre com a beata entre os dedos.
Os presentes ainda continuaram a apresentar ideias quando ele já estava de olhos fechados, mas, ao tombar sobre o sofá, um silêncio gélido cobriu aquela sala gigante, com paredes forradas de damasco e chão de embutidos.
Abecasis abriu os olhos ao fim de uns minutos e voltou a escarranchar-se no braço do sofá. “Vá, continuem, que eu estou a anotar!”. Recomeçou a disputa pelo discurso e Abecasis deixou novamente que as pálpebras lhe cobrissem os olhos. Mas desta vez não se amarfanhou sobre o sofá.
Foi passando o tempo e as ideias esgotaram-se, enquanto Abecasis meditava de olhos fechados. Instalou-se um silêncio expectante sobre o que achava o senhor Presidente das ideias expostas.
De repente (desculpem-me os mais sensíveis, mas tem que ser descrito assim…) ouviu-se um peido. Um peido sonoro que ecoou pelo salão daquele palácio de cuja varanda Miguel de Vasconcelos foi atirado à rua, depois de se ter escondido num armário de madeira. Aquele mesmo armário que ainda ali estava, ao lado dum Abecasis semiadormecido. Um peido no silêncio conventual daquela casa donde foi proclamada a República!
Gelou-se nas veias o sangue dos dirigentes municipais, sem perceberem bem donde tinha vindo o estrondo, olhando de esguelha, desconfiadamente, uns para os outros. “ Não se preocupem”- descontraiu Abecasis, abrindo os olhos –“ O peido foi meu! Desculpem mas foi a resposta que me pareceu mais conforme às ideias que ouvi!”.
Não correu bem o primeiro encontro formal de Abecasis com os dirigentes do Município de Lisboa.

Joaquim António Ramos

Retirado do Facebook | Mural de Joaquim António Ramos

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