O Ti Aurélio | Joaquim António Ramos

O Tio Aurélio representa a antítese daquela frase feita de que marinheiro tem uma mulher em cada porto por onde costuma atracar. Muitas vezes até uma família, porque quando se passa muitos dias no mar sem fêmea à vista – nos tempos em que marinheiro não era profissão também de mulher – a urgência da carne na chegada a terra firme, por cujas docas se rebolavam mulheres apetitosas e disponíveis, não se compadecia com precauções nem meias tintas. Brancas, pretas, mulatas, cabritas, de olhos pretos como a noite ou dum azul dinamarquês. Não havia marujo português que não tivesse a fama de ter mulher e filhos em Vigo, Roterdão e Hamburgo, se a rota era para norte, ou no Funchal, no Mindelo e na Cidade do Cabo, se a rotina da navegação aproava para a costa leste de África ou para as Índias.
O Tio Aurélio cozia redes de xávega, sentado nos areais da Nazaré, fosse Inverno ou Verão, camisa de xadrez e barrete preto, calças pela canela apertadas com atilhos, sempre de beata ao canto da boca. Já há anos que não ia ao mar, que isso é tarefa para gente nova e destemida, como ele fora em tempo. Sim, o tio Aurélio já fora uma estampa de homem, forte e desempenado e, nos seus tempos áureos, fizera rebolar por baixo de si, na clandestinidade duma barraca de pano corrido ou no quarto dum hotel tolerante, mulheres suecas, francesas, dinamarquesas, inglesas ou doutras nacionalidades menos vulgares, que visitavam a Nazaré atraídas pela propaganda oficial das agências turísticas. Mas também excitadas por aquela lenda que se espalhara em surdina, da boca para o ouvido, por entre as turistas dessa Europa inteira : “ Ah, les hommes de Nazaré…, “, “Oh, dear, the men from Nazaré!”, suspiravam francesas e inglesas, de olhos saudosos e peito arfante, para as amigas, quando regressavam a casa. As suecas e dinamarquesas não imagino como suspiram, nunca lhes aprendi a fala! Mas imagino que diriam a mesma coisa, que a linguagem da paixão é universal.


E quantas famílias de norueguesas, finlandesas, holandesas, ao visitarem um recém nascido nas maternidades de Oslo, Helsínquia ou Amsterdão, à espera de apertarem no colo um desenxabido louro e de olhos azuis nascido duma amiga que visitara Portugal há uns meses atrás, abriam a boca de espanto quando lhes era apresentado um latagão de quatro quilos, escuro como um marroquino e com um aroma a pó de talco misturado com um cheiro quase imperceptível a peixe seco e tabaco de mascar.
Não, o Ti Aurélio, no tempo em que era o Aurélio das Francesas, ainda sem direito a Ti antes do nome, não precisara de viajar de porto em porto. Ficou-se pela Nazaré e mandou os seus genes correrem a Europa e outras partes do Mundo por ele. Iam arrumadinhos na bagagem mais íntima das estrangeiras saciadas. Depois, ao fim dos meses da ordem, despontava aquela revelação latina nas maternidades nórdicas
O ti Aurélio só tinha saído da Nazaré por três ocasiões : a primeira, para assentar praça em Lamego, a segunda para ser levado de urgência ao hospital de Leiria depois de o barco se ter virado no cemitério das viúvas e a terceira, e ultima, por via duma francesa motorizada que o convenceu a ir com ela passar dois dias à Figueira da Foz. Não precisou de passar a vida a correr Mundo para conhecer o sabor de peles diversas, bocas mimosas, línguas desconhecidas.
Mas o Aurélio, nesse tempo em que ainda não era Ti, fazia questão de mostrar que era um homem letrado e que não se esquecia de quem tinha carregado a sua carga genética. Ficava assente com todas, por palavras esparsas e gestos, que nem que fosse um postal ilustrado das suas terras, lhe escreveriam- ele desenrascava-se a arranjar tradução qualquer que fosse a língua, que a Nazaré já nesse tempo era poliglota.
O Ti Aurélio recebeu, ao longo da vida, dezenas ou mesmo centenas de postais e cartas de qualquer canto do Mundo onde vivesse uma turista nazarena que se tinha encantado por ele.
Quando as recebia, ia direitinho ao Café Oceano, onde o Doutor Laborinho, especialista em línguas estranhas, lhe fazia a tradução imediata, se fossem em espanhol, francês, inglês ou alemão. Se as missivas eram naquelas línguas esquisitas do norte, cheias de tremas nas vogais, que nem o Doutor Laborinho entendia, esperava por alguma excursão da mesma proveniência e pedia ao guia para lhas traduzir.
Foi assim que, ao longo dos seus anos de virilidade generosamente distribuída, ficou a saber que, a juntar aos seus quatro rebentos nazarenos – nascidos quase já com sete saias, elas, ou de cinta preta amarrada, eles- se juntavam vinte e três meio- irmãos europeus, dois americanos e um brasileiro. Organizou uma estatística num livro de registos e tirou médias: dos vinte seis filhos estrangeiros, onze eram raparigas e quinze rapazes. Dos europeus, quinze eram franceses – fazendo jus ao nome artístico de Aurélio das Francesas-, três suecos e dois dinamarqueses; a Alemanha, a Espanha e a Noruega contribuíram com um cada. Havia-os louros e louras de olhos azuis, morenos e morenas de olhos negros e até um mulato, porque uma das francesas era da Guiana.
O Ti Aurélio morreu sem conhecer qualquer dos filhos extra-nazarenos. Mas antes disso teve o cuidado de organizar uma lista de nomes e moradas que confiou ao filho mais velho com o apelo” Um dia, quando eu morrer, pede ao Doutor Laborinho pra escrever para cada um deles, que já são homens e mulheres feitos, a dizer que o pai morreu e que o seu ultimo desejo foi que cada um deles voltasse à Nazaré, onde foi feito!”.
O Doutor Laborinho tomou em mãos esse encargo. E conseguiu num fim de semana reunir os trinta filhos do Ti Aurélio, todos meio-irmãos menos quatro que eram irmãos inteiros – os nazarenos-. Foi um acontecimento na Nazaré, badalado do Sítio à Pederneira e ao Valado, aquele encontro de irmãos de diferentes nacionalidades e tons de pele, alguns sem perceberem a língua dos outros, vários a atirar ao nariz adunco do Ti Aurélio outros aos narizes das respectivas mães, mas que tinham um factor em comum : resultaram dos ardores do Aurélio das Francesas.
Não, ao Ti Aurélio não foi preciso sair da Nazaré para ter um filho em cada País – nascesse ele e vivesse num porto ou em qualquer terra do meio da Europa e arredores. Não são só os marinheiros que têm família em cada porto.

Retirado do Facebook | Mural de Joaquim António Ramos

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