A Liberdade do Herman | por Carlos Matos Gomes

Escrevi sobre a genialidade de Herman José e referi um extraordinário sketch em que ele desmonta a farsa dos comentadores de televisão e da manipulação que está a ser produzida sobre a guerra da Ucrânia. Esses “nacos informativos” são atentados reais à liberdade dos cidadãos, na medida em que foi instaurada a censura e sobre duas formas, uma, direta, proibindo a informação de uma das partes envolvidas, e outra, mais perversa, através da imposição do pensamento único, do silêncio, da intimidação dos que não seguem a verdade oficial.

O texto provocou, felizmente, vários comentários, alguns deles sobre a curta lista de génios que eu estabeleci para mim, acrescentando outros, casos de Almada Negreiros, Paredes, Siza Vieira, Saramago, Eça. Tenho por todos os nomeados admiração, mas Herman é, para mim, diferente, não só porque ele abriu novos caminhos, deu novas expressões à arte de representar, mas fundamentalmente porque penetrou em camadas da sociedade mais resistentes à mudança, aos de muita baixa literacia, de pouca instrução escolar, aos integristas religiosos, tanto quanto no grupo dos mais privilegiados e convencidos. Ele rompeu a muralha construída ao longo de séculos de obscurantismo religioso, cultural, de violência política, de hierarquias sociais, de ideias feitas sobre a epopeia portuguesa. Ele, sozinho e com a sua equipa, foi o Monty Python da sociedade portuguesa, sendo certo que esta não é dotada do sentido de humor e de autocrítica da inglesa e os ingleses têm uma longa tradição de produção teatral que não se resume a Shakespeare.

Herman conseguiu com o seu génio e com o seu prestígio abrir uma fenda nas muralhas do conservadorismo de antigo regime em que Portugal vivia (e em parte vive) e abrir a sociedade à liberdade de questionar os tabus. Reveja-se o Herman Enciclopédia.

Essa subversão que Herman promoveu é hoje inaceitável pelos poderes instituídos. Essa subversão é e está a ser sufocada pela mediocridade acrítica e até quase pornográfica de programas do tipo Big Brother, de telenovelas de enredo de cordel e de muita bola, de informação formatada pelas agências de comunicação e pelos lóbis dos negócios e das corporações.

Dirão os crentes e adeptos do pensamento único: existe pluralidade de informação, pois em Portugal estão no ar três estações de TV, cada uma com vários canais e todos os portugueses podem escolher. É um sofisma primário. Como dizer que uma centopeia pelo facto de ter cem patas tem uma maior opção de escolha do que uma galinha, que só tem dois. Na realidade o que se verifica é que estamos caídos na velha expressão de democracia de Henry Ford quando lançou o Ford T: os clientes são livres de escolher a cor, desde que seja preto. Os mesmos fornecedores de doutrina, como os antigos caixeiros viajantes, circulam com a mesma mercadoria entre jornais, rádios e televisões.

Um pouco de história. A SIC, a primeira estação privada, começou a emitir em 1992, pertencia e pertence ao grupo Impresa, do milionário Francisco Balsemão, proprietário do Expresso, o semanário mais influente na sociedade portuguesa. O seu primeiro diretor foi Emídio Rangel, um jornalista da liberdade e da responsabilidade. A TVI começou em 1993, propriedade da Igreja Católica através da União das Misericórdias e de outros acionistas a ela ligados.

Os grandes momentos de Herman José na televisão, de pluralidade e crítica politica e social, decorreram até ao ano de 1997, na RTP, com a «Herman Enciclopédia». Pelo meio decorreu uma polémica de tentativa de imposição de censura a propósito de episódio sobre a Última Ceia, que Joaquim Furtado repeliu.

Talvez seja coincidência, mas em 1997 a Media Capital, do milionário Pais do Amaral, torna-se acionista de referência da TVI, que passara da Igreja para um grupo colombiano e mais tarde para a Prisa, o grupo espanhol que entra no capital. A TVI passa a ser uma estação populista — isto é, defensora de um regime de lucros e poderes oligárquicos nacionais e internacionais, sob a capa de uma grande liberalidade de costumes e de cultura de massas. O típico truque de colocar uma pin-up na capa e defender os lucros dos grandes grupos e a hierarquia de classes dos tabloides ingleses. Emídio Rangel saiu da SIC em 2001, em conflito com Balsemão, que queria transformar a estação num instrumento de domínio político com audiências populares através do pograma de intimidades Big Brother, que foi transformado em santo milagreiro da TVI.

Na atualidade, no novo espetro de aparente diversidade da oferta, as televisões venderam e vendem todas o mesmo produto ideológico — de que as longas temporadas de cometário político conservador a cargo de Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes, ou de Paulo Portas e a avassaladora presença do futebol são prova. A política reduzida aos golpes baixos, ao boato e à calhandrice e muita bola!

Desta “ordem unida”, e desta barreira contra a critica e a verdadeira pluralidade, escapava o programa Contra-Informação, um formato derivado dos Spitting Image da ITV britânica e no Guignols de l’info do Canal+ francês, mas que não resistiram à uniformização e ao respeitinho que é muito bonito do cavaquismo e terminou em 2010.

Herman foi deixado à sua sorte, isto é, os poderes empurraram-no subtilmente para as margens, negando os meios para os programas que ele poderia fazer e substituindo-os por “coisas” de baixo custo e baixa qualidade, até quase desaparecer, remetido ao circuito de festas e romarias pela província. A versão neoliberal da democracia não o tolera. Ao Herman José, os patrões das televisões preferem uns animadores esforçados que esbracejam e gritam em cima de palcos improvisados acompanhados por umas moças de carnes exuberantes.

Esta escolha das Tvs e dos seus espetadores não é a bem do povo, não é dar ao povo o que o povo quer ver e ouvir (quis ver e ouvir Herman), mas é sim um revelador da decadência da nossa exigência democrática, da aceitação passiva do apodrecimento cultural em que vivemos resignadamente. Revela que estamos como o burro da frase de velha sabedoria: comemos palha, basta que no-la saibam dar. E «eles» sabem! E sabem que programas como os de Herman lhes dificultavam a tarefa.

Carlos Matos Gomes | 31-10-2022

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