A estratégia da “meia guerra” | Carlos Matos Gomes

As desarrumações permitem descobrir fósseis que explicam o presente. Este é um recorte de “O Jornal”, um excelente semanário que desapareceu com o mercado da manipulação, do Verão de 1979. Reproduz um artigo do Nouvel Observateur, de George Buis, e anuncia a estratégia dos Estados Unidos após a retirada do Vietname. Um excerto:

“Harold Brown, secretário americano da defesa, retornou à sua doutrina de 1969 de que a América deve poder conduzir simultaneamente «uma guerra e meia», ou seja, uma guerra na Europa e outra meia num ponto qualquer do globo.”

O controlo do golfo Pérsico e da produção de petróleo era então vital (como o é hoje) para o domínio dos EUA do fornecimento de energia ao resto do planeta e para impedir a URSS de ter ali alguma influência. A “guerra do Golfo” de 1991 começou a ser prepara nos anos 80, com a constituição de uma força de reação rápida (Quick Alert Force), “capaz de alcançar qualquer ponto do globo antes dos soviéticos”. Esse é o objetivo permanente dos EUA: impor o seu domínio em todo o globo. Não há acasos e a guerra da Ucrânia não é, no essencial, diferente das outras intervenções dos EUA na região do Golfo-Eurásia, a grande reserva de combustíveis fósseis do planeta.

Até no pretexto para a intervenção americana no Iraque (no caso uma intervenção direta, ainda possível dada a fraqueza da URSS, na época) é flagrante a semelhança com o pretexto para a intervenção americana na Ucrânia (neste caso indireta, dadas as alterações na relação de forças e a emergência da China como superpotência). No caso, o pretexto para a intervenção americana foi a invasão do Kwait pelo Iraque. Uma invasão causada pela recusa do Kwait (um protetorado da Inglaterra desde 1922, que graduaram chefes de tribo em príncipes e emires) em deixar o Iraque ter acesso ao mar, uma recusa imposta pelos EUA, contrariando os acordos anteriores e o direito internacional de acesso ao mar por parte dos Estados interiores (o Kwait era a única saída do Iraque para o mar).

Na Ucrânia, o ataque dos EUA à Rússia seguiu os mesmos passos: o governo da Ucrânia foi colocado por métodos tortuosos nas mãos de “amigos” dos EUA, estes “amigos” (Zelenski como chefe de claque) recusam os acordos de Minsk, renegam as promessas com que se haviam apresentado, declaram-se candidatos a membros da NATO e disponíveis para receber armas de ataque à Rússia no seu território. Segue-se a “meia guerra” que os EUA estão a conduzir na Ucrânia. Morrem ucranianos para defender os interesses dos EUA! Para os ucranianos a guerra é total, não há meias guerras porque não há meias mortes. O chefe local — Zelenski — dirige o espetáculo em reality show, incluindo os funerais.

A arqueologia dos arquivos traz estas descobertas e com elas a convicção de que não há nada de novo, a não ser as consequências para a Europa. O mundo mudou, mas os métodos e os objetivos dos EUA não. Nós, os europeus, vamos sofrer este desencontro do tempo passado com a realidade do presente. O Reino Unido é um antecipador de crises mundiais, e não deixa de ser curioso ver Tony Blair — o sorridente rapaz dos recados de Bush — substituído nas tarefas de boy dos EUA por Boris Johnson. Significa que estamos na mesma farsa, que foi o género de facto cultivado por Shakespeare a partir das tragédias da realidade.

Carlos Matos Gomes

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