Citando Amélia Vieira

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São tão bonitos os Poetas! Há neles uma luz, uma doçura, uma força…. Aquilo tudo é esculpido pelo espírito, mesmo Baudelaire tinha algo no meio daquela zanga aparente…uma pureza qualquer indefinida. Têm a alma lavada do dejecto sulforoso do mundo… têm asas no olhar e olham-nos como crianças disponíveis, assombradas, mas sempre cheios de amor. São frágeis nas suas lianas mais subtis…são desprotegidos e acreditam que um Anjo os conduz eternamente pela mão. Os dedos enrijecem-lhes de frio e de pavor, por vezes, depois levantam-se e dão, acrescentam a vida das coisas do futuro, estão enamorados da visão alta e bela do para além, e o seu lema é não prestarem atenção, porém, darem testemunho de tudo. São criaturas dentro de si, felizes e dignas de serem contempladas. Estão perto das fontes e não sabem porquê. Só sabem que lhes traz responsabilidades e deveres tão rigorosos como se vivessem em terreno alheio. Amam, e não sabem porque prender é uma forma de pronunciar o verbo que lhes sobe em forma de presente eterno.

Picasso – uma reflexão de Amélia Vieira

A ideia de que um Picasso era um garanhão fustigado por um Eros de predador é quase um insulto ao seu génio. Um homem como Picasso não é um D.Juan nem um ser lascivo. É outro coisa, bem mais rara, mais perigosa, mais fascinante. O que não faltam no mundo são falos andantes… Um homem da dimensão de Picasso sabe que a paixão não é fácil, que o sexo não é fácil, que o mundo não é essa esteira epicurista de nus e contra-nus. Picasso é um homem iminentemente trágico, que está nos locais mais perigosos nos momentos mais difíceis, é um perscrutador, um homem radical. Não brinca aos efeitos estéticos.

Talvez que um tempo desmagnetizado de todo como este confunda um Casanova com um Picasso, mas de facto, nada ha de comum. Estou certa que até para se ser vítima há que ter bons carrascos ou então não vale a pena o estatuto de sacrifício.

Picasso era uma força da natureza, um ser vivo melhorado, um vampiro, também. Mas era Picasso, não o vejo a cometer “crimes” contra o seu estatuto de semi-deus….O prazer? Quem sabe dele? Quem pode aferir que o grau de sadismo com que por vezes se revestiu não é voluptuoso?

Quanto aos genitais, qualquer homem os tem. E não são Picassos. São apêndices de algo que não interessa mais.

Amélia Vieira