AO ENCONTRO DE JESUS HISTÓRICO Maria Helena Ventura

Tinha em mãos o projecto do livro UM HOMEM SÓ, título que poderia ser interpretado como “um homem sozinho”, ou “apenas um homem”.

Chegava a contemplar a segunda dimensão, depois de um longo cepticismo em relação ao que aprendera em criança, mas a figura de Jesus Cristo, como a de qualquer outro profeta, era e é demasiado importante para aqueles que acreditam na sua palavra. Não podia desrespeitá-los.

E depois, à medida que ia lendo e pesquisando documentos, ia recordando que o evangelho de Jesus Cristo não é uma religião, contém em si a significação universal mais completa, que abrange o princípio de todas as religiões.

Lembra que os homens têm a mesma origem e um destino comum, partilham um só planeta, a mesma casa. As suas vidas pessoais e colectivas só têm significado com o compartilhamento dos recursos e adopção do respeito mútuo, porque é inevitável que se cruzem em trocas de experiências e miscigenações.

Antes de todos os princípios, o da fraternidade é essencial. Era esse, essa filosofia de vida, que Jesus pregava. O outro, subentendido, é o do acesso à educação, ou abertura da mente, na altura pela escuta da palavra, para que o esclarecimento afaste os densos véus do obscurantismo.

Decidida a viagem a Israel e Jordânia, ia à procura de um homem exemplar, símbolo humano antes de ser religioso, que seria crucificado em Jerusalém por volta do ano 30, quando em Roma governava Tibério e Pôncio Pilatos era procurador, ou prefeito, na Judeia.

Encontrá-lo-ia mais de dois mil anos depois? Cada etapa desta viagem podia merecer uma crónica, mas postas de lado as construções para turista consumir, talvez tenha sentido o clima daqueles tempos em dois momentos especiais.

O primeiro, depois do almoço em Nazaré, começava na subida à aldeia de Canã, ou Kafr Kanna e tornava-se mais intenso quando avistava a Igreja construída sobre o que dizem o local das bodas, a casa de Natanael.

A expectativa era grande. Nas catacumbas, com trechos de parede daqueles tempos primitivos, um gigantesco pote de pedra, protegido por uma parede de acrílico, aparecia referido como o vaso do milagre, ou da transformação da água em vinho. 

Mas era no pátio anexo ao adro, onde se teria celebrado a parte mais lúdica do casamento (de um irmão de Jesus, conforme lia, o que poderia explicar o interesse de Maria na falta do mais importante elemento da refeição) que via um pedaço do recinto com bilhas enterradas entre pedras de aspecto antigo, a simbolizarem as seis que naquela festa continham água.

O sangue corria mais depressa. Imaginava melhor a longa mesa da refeição, como a do quadro que vira no Louvre representando as bodas, alcançava os gestos anteriores de Maria a queixar-se ao filho que o vinho escasseava, Jesus a tomar a iniciativa e a resolver o problema, depois as danças naquele espaço ao ar livre…

É preciso acreditar, bem sei, e eu continuava céptica respeitando os que acreditam, mas não podia negar que apreendia ali uma atmosfera diferente… Depois era o regresso ao hotel e mais nada nas visitas seguintes aos lugares de peregrinação: Tiberíades, Cafarnaum, Monte Tabor…

O outro momento acontecia na velha Jerusalém, já regressados da volta pela Jordânia e Mar Morto.

No dia em que visitava a Basílica do Santo Sepulcro, com um ambiente pesado, quase lúgubre, caía desamparadamente no caminho interior escuro, de empedrado irregular, que conduzia à Edícula protectora do local sagrado. Era nessa passagem estreita, esburacada, que em 1840, creio, um incêndio precipitava a fuga de peregrinos, muitos deles esmagados sob a corrida apavorada dos outros.

Saía dali sem vontade de visitar o resto. Tinha o joelho direito esfacelado, as calças com um rasgão enorme, o sangue a correr-me pela perna. O guia, que me seguia até ao recinto exterior com alguns companheiros de viagem, tentava diluir a consternação geral numa pitada de humor:

– Ela não podia ir embora sem beijar a Terra Santa….

Dali seguíamos para a Capela da Flagelação. No pátio, dispostos em círculo para ouvir a explicação do guia, um homem de olhar estranho fazia-me gestos para que tapasse os braços. Por cima da t-shirt de alças tinha um colete de linho, sem mangas, que cobria o essencial. A quem podia ofender?

Ficava revoltada com a hipocrisia. Segundos antes entrara no recinto um vendedor de bugigangas que nem sequer era afastado…Não seria mais ofensiva essa invasão? De mau humor despia o colete, colocava-o sobre os ombros de forma a tapar os braços e continuava atenta ao relato do guia.

Começava a entrar de novo no espírito da época, viajando nas palavras que recordavam os factos.

– Ali, foi ali que Jesus foi açoitado violentamente diante de muita gente. Sem um protesto, um gemido. Só quando lhe despiam as vestes sob a túnica, levantava a cabeça para a mãe que chorava baixinho e gritava com  vigor, envergonhado da sua nudez: vai-te daqui, mulher…

Sentia um estremecimento: ali estava uma manifestação da humanidade daquele Jesus histórico que precisava encontrar…

Maria Helena Ventura – MEMÓRIAS – 27/08/2021

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