Livro ESPANTALHOS, Ensaios e afins | Silas Corrêa Leite

Os ossos e ócios dos espantalhos do estupendo literato ADEMIR DEMARCHI

Breve Resenha Crítica

-Eu já o conhecia de outras plagas e sítios, das redes sociais e do próprio nome forte nas lidas da literatura contemporânea de um modo geral. Aqui e ali, volta e meia nos acercamos, mas, aqui e ali também não deu liga de presto, até que, finalmente, num desses sadios contatos que  as redes sociais graciosamente propiciam, e, vai lá, agregamento feito, conexão confirmada, e ele generosamente me mandou alguns de seus portentosos livros, que, claro, sentindo-me honrado com a gentileza, e, de cara, garrei a ler, primeiro o livraço ESPANTALHOS, 312 pgs, 2017, Nave Editora de SC. Foi a gota d´água, quero dizer, foi o tsunami literário me encantando, leitor voraz…

-Pé-vermelho de Maringá, Paraná, escritor, crítico e tradutor, bancou a famosa revista Babel de literatura, escreveu Os mortos na sala de jantar, Passeios na floresta, Do sereno que enche o Ganges, Ossos de sereia, O amor é lindo, Pirão de Sereia, poemas, Siri na Lata, crônicas; organizou a antologia 101 poeta do Paraná, entre outros, além desse estupendo ESPANTALHOS, um misto de ócios, ossos, ódios e ópios, por assim dizer,  uma coletânea de belos ensaios, escritos nos últimos 25 anos. E também, como ESPANTALHOS, não vejo a hora de dar um pega no livraço CONTRA POÉTICAS (2020) que o autor também me enviou.

-O livro ESPANTALHOS, dividido em quatro partes, a primeira parte analisando periódicos, inclusive enfocando o chamado americanismo no Brasil, a segunda parte dispõe sobre a experiência na edição de revistas literárias como a importante BABEL, com crônicas tendo o Brasil como pano de fundo, a terceira parte comenta sobre bons livros lidos, e a última parte compõe de bonitos ensaios sobre o cinema, e, por fim também as bizarrices caipiras da cidade de Maringá que o pariu, terra a dentro, ou terra a fora, com seus espantalhos, contentezas, assentos e relatos preciosos dessa infame vida de ódios, ócios, ossos e ímpios. Somos todos espantalhos?

-Já no parágrafo final do chamado INTROITO da obra, o autor assenta: ESPANTALHOS; “… o título do livro inspirado na sua recorrência nas fontes lidas, que mencionam os pobres ou o povo das ruas como espantalhos, tal como espantalha é essa questão insolúvel que obriga os escritores a se enredarem nos dias de hoje(…). “Diante do muro, pichando-o, dedico este livro aos que leem e, para atrair pássaros…”(…). Somos todos pássaros?

-O livraço, por assim dizer, é uma verdadeira aula de história sob um prisma cult, de literatura pura, de pinceladas políticas nos entremeios, sobre revistas de cultura, da afiada visão do escritor sobre issos e aquilos, algo irônico até, mas bem sabedor de atos e fatos, o que torna o leitor com desejo de sabenças e apreendências também meio “espantalhado”; também com a humorosa ou ácida narrativa, aqui e ali enfoque datado, que você pode concordar, acordar ou discordar, mas, lê-se prazerosamente como brava literatura densa, base litero-cutural de primeira, como se estivesse lendo uma importante e gorda apostila de curso de letras, de literatura e afinidades pertinentes, gatilhos, pólvoras em polvorosa, babéis, sodomas e hiroshimas afins. Esse é  livro ESPANTALHOS. Esse é o Ademir Demarchi. De marca e de se admirar. Perdão leitores. Nada escapou à sua sede de formar e informar, sua fome de destemperar, chovendo no piquenique de contundências, com rastilhos de narrar com maestria e competência. Um livro-aula-de-universidade. Somos todos calouros? 

-Como um tonto, que, às vezes mais ou menos tenho disso, comecei a ler a obra do fim para o começo, abrindo numa página inicial, de um gomo final, e já fui predado. Maringá, maringá… (tb sou pé-vermelho, nascido em no bairro operário de Harmonia, Monte Alegre, hoje Telêmaco Borba, criado desde os seis meses de idade em Itararé-SP, radicado em Sampa desde o final dos anos 70…). Como o “exilado” Demarchi que também habita salgadas ondas e águas praianas de Santos, SP, seu esconderijo-laboratório-estúdio-oficina de serpentear criações e labutar sobrevivência na arte como libertação e levitação. Essa é o ápice, a melhor parte do livro, jocosamente chamada de DAS FACES GOZOSAS AO SPUTNIK. Gozei lendo. Criei cargas de profundidades. Textos-aulas. Viajei na batatinha, na maionese, no shoyo… Livro bom tem disso…

-A terceira parte, O CATIVADO LEITOR, tem de tudo, de circo a bar, versos, prosas, traduções, humor, monstros, pecados, dedos de moças, barcos, encruzilhadas, barcos, o embuste chamado mono Moro, Cristo e ovos. E as várias formas de morrer dos escritores. Um achado, quero dizer, um anelo perdido nessa egolandia tupiniquim. Li gostoso. Estudos, indagações, navalhas cortantes, chistes curiosos, na matriz fecunda da cabeça pensante de insurgente  que é o literato Demarchi. Sai de baixo.

-A segunda parte, Publicações Contemporâneas, diz da Era Lula, publicações, leitores, editoras, versos, prosas, críticas, revistas, mercados, relevâncias. Tudo junto e misturado. E de novo luz na sala de cinema.

-Por fim, a primeira parte, que li por último, saboreando tudo, as vitrines do passadismo,   pilhas, pilhagens, flashs, imbecilização e populismo iluminista, Vargas, utopias, distopias, avessos, a classe literária no paraíso socialista, arroz com feijão socialista. Puro deguste. E o gume das narrativas indo fundo, que Demarchi não perdoa, fende e fere. Com essas e outras, baba baby, comi-bebi-li-vesti-surtei e  saí sapecado da leitura envolvente, gostosa, cult e top, por assim dizer.

-Leiam ESPANTALHOS, O Livro. Vocês vão aprender muito, como vão ter visões díspares, vão colecionar implicâncias, mas, ao final e por fim, ilustrados com tamanhas cargas de conhecimentos e qualidade técnico-editorial da obra como um todo.

-Bravo, Ademir Demarchi. Os que vão sobreviver são saúvas. Rogai por nós, também espantalhos desses tempos tenebrosos.

-0-

Silas Corrêa Leite, escritor, professor, jornalista comunitário.

E-mail poesilas@terra.com.br

Site: www.poetasilascorrealeite.com.br

Escritor autor entre outros de TRANSPENUMBRA DO AMARGEDON, Ficção Weird, Desconcertos Editores, SP, 2021.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.