LQ, escrevinhando

Cacilda vai cabisbaixa a pontapear uma ou outra pedrita, a afastar os cabelos e a prendê-los atrás das orelhas, em gestos maquinais, repetidos. O corpo, agora muito delgado, dá-lhe um ar de rapariguinha precocemente envelhecida, mas ainda bonita, da beleza suave que certas mulheres ganham quando se aproximam da descida, sem atavios de tardia sedução, num despojamento de quem já aprendeu o amor e o esquecimento. É o ruído do fio de água a correr da bica da fonte que a faz aproximar-se, estender as mãos, delas fazer concha, nelas levar a água à boca, beber, deixar que escorra e molhe o vestido, os braços. Percebe-se na mulher um momento de prazer que a faz virar o rosto para o sol, fechar os olhos e assim ficar um tempo breve no desvão do silêncio onde não cabem vozes ásperas, gestos brutos, olhares que são prenúncio de tormenta.

LQ, escrevinhando

Retirado do Facebook | Mural de Licínia Quitério

Citando Licínia Quitério – Disco Rígido

Disco RígidoOs loucos não eram gente boa. O sangue deles era sujo. Nada de confianças. A miúda ainda não sabia o que era consanguinidade e incesto. Nem a tia lhe falaria sobre isso. No dia em que o Aldino apareceu morto de muitas facadas e o filho, ou irmão, foi preso, a miúda ficou muito triste. Dona Arminda conformava-a:
– Filha, eles são assim. Matam-se. Têm sangue sujo.
Era Verão e o cheiro a azedia envolveu toda a aldeia. Nem a saleta da Dona Arminda escapou. Foi esse o Verão em que chegou o músico.

Disco Rígido, de Licínia Quitério

Excerto do conto “Azedia”, incluído em “DISCO RÍGIDO”, livro a ser lançado no próximo Sábado, 7, na Casa de Cultura D. João V, em Mafra, pelas 15 horas. A apresentação está a cargo do Professor Doutor Vítor Pena Viçoso

Dia Mundial Contra a Violência Doméstica

313212_247240098669390_140691279324273_676810_572234104_n

Falar das mortes por violência doméstica é dizer da falência do amor, da crueldade alimentada por estereótipos que há muito deviam ter sido abandonados, da raiva e da fraqueza dos homens, da raiva e da fraqueza das mulheres, do negócio da união familiar, dos haveres e da falta deles, do saber e da falta dele, do tão curto espaço dado aos afectos, armadilhados na correria louca pela sobrevivência e pela supremacia. Teatros de afirmação de poder, os lares, manietados pelas crises, explodem em brutalidade, em gestos de animalidade insuspeitada. O lado dito mais fraco sossobra na peleja diária da nossa sociedade eivada de cinismo, de falsidade, de baixos instintos. Uma sociedade ainda beata em que se confundem os criminosos e as vítimas. Doença, só pode ser.

Licínia Quitério (escritora e poetisa, retirado do Facebook)

Sítios, de Licínia Quitério

“Terra e mar são sítios que dizemos.

Outros há sem nome e sem morada – desertos”

Começa assim o livro de Licínia Quitério, um livro de sítios, de todo os sítios, dos que se alcançam pelo trabalho da palavra. Em cada poema existe uma “paisagem absurda” e nessa paisagem se inscrevem palavras; não nomeiam, não descrevem, são palavras obreiras de outras realidades. E a realidade de hoje corresponde aos “dias do cerco”, à “pele atormentada do pântano”, onde a voz do poeta se destaca como construtor da nova metrópole, a que se avizinha, procurando ir sempre “Mais alto, que a terra é pouca e o céu é vasto”.

Os poemas nascem, “Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor, chicote a chicote…”, porque os sítios permanecem para além da memória do nome que lhe demos.

versão integral no PNet