Atrapalhações cubanas | Francisco Louçã

Não sei se gosta de romances policiais e se leu o “Quarteto de Havana”. Vale a pena, esses livros são alguns dos raros mas saborosos casos em que a história foge do pitoresco e escapa ao padrão que define aquele estilo literário. São, simplesmente, grandes romances. Mas, como não podia deixar de ser, há um fio condutor, que no caso é a vida difícil, quem sabe se a decadência, ou devemos chamar-lhe a persistência?, de um personagem que nos conduz pelo dia a dia de Cuba: Mário Conde foi polícia, tornou-se detetive privado, é um desenrascador, vagamente justiceiro, além de ser um gastrónomo militante, sobrevivendo encostado aos milagres da cozinha da mãe de um antigo camarada de aventuras. Navegando pelas ruas de Havana, Conde chega onde os seus antigos colegas não vão, descobre o crime de um membro do Comité Central, investiga traficâncias de diplomatas, roubos de arte, negócios de emigrados, polícias corruptos e que fecham os olhos, contorna burocratas implacáveis. Há nos livros alguma tristeza, bastante nostalgia e um gigantesca afirmação de amor pela sua terra. E perdemo-nos em intrigas sem concessões, chegamos a finais amargos, o escritor não nos facilita a vida, a rotina continua em Havana.

Leonardo Padura, o autor, é mais conhecido por outros escritos ousados, “O Homem que Gostava de Cães” ou “Os Hereges”. Mas foi com Mário Conde que começou e foi assim que foi descoberto pelos seus compatriotas. Porventura por isso, Conde regressou em “A Transparência do Tempo” para novas rodadas. Graças ao “Quarteto”, a Conde e a toda a sua obra, Padura será o escritor mais popular no seu país, onde ninguém ignora que se trata de uma voz crítica. Por isso, quando a direita festeja os protestos populares nas ruas de várias cidades, fantasiando triunfantemente a vingança de Batista, e enquanto nas esquerdas as opiniões se dividem entre defensores do regime, incluindo alguns dos seus conversos mais recentes que, ao tempo do choque entre Krutchov e Castro estavam indefetivelmente do lado soviético, e aqueles que sentem o protesto popular sobre dificuldades reais de gente real, quando tantas palavras são esgrimidas sem candura, ficamos a saber mais sobre Cuba se o ouvirmos.

 Em qualquer caso, ele reclama e impõe o seu direito a dizer o que pensa: como um “cubano que vive em  Cuba e acredita em Cuba”, tenho o direito de “pensar e exprimir a minha opinião sobre o país”, escreve. As manifestações juntaram pessoas muito diferentes, incluindo portadores de  estratégias políticas que podem passar por criar “uma situação de caos e insegurança”, nada disso é novo. No entanto, essas manobras “não retiram um átomo de razão ao grito que se ouve” e, “aos apelos desesperados, as autoridades cubanas não devem responder com os slogans do costume, repetidos ao longo de anos”. Padura nota, aliás, que o governo anunciou logo depois das manifestações medidas para facilitar a entrada de medicamentos e alimentos, exatamente o tema das reivindicações de quem protestava. Foi “um grito que é também o resultado do desespero de uma sociedade que tem passado por uma longa crise económica e um crise específica de saúde, mas também um crise de confiança e uma perda de expetativas” – e é aí que está o sinal mais importante, pois, continua Padura, “os cubanos têm que reconquistar a esperança e ter uma imagem possível do seu futuro”. “Se se perde a esperança, o sentido de qualquer projeto social humanista perde-se. E a esperança não se reconquista à força. Recupera-se e alimenta-se com soluções e diálogos sociais, cuja ausência tem causado, entre outros efeitos devastadores, as ansiedades migratórias de tantos cubanos e agora provoca o grito de desespero”. Essa é a razão pela qual, para o escritor, “soluções de força e escuridão, tal como impor o blackout digital que cortou as comunicações por muitos dias, não podem ser usadas como argumentos convincentes”. Padura não precisa de abundar sobre a sua conhecida rejeição e indignação contra o embargo de seis décadas, que foi reforçado por Trump nos anos recentes, ou contra campanhas mediáticas com informação falsa. Reafirma simplesmente o que disse sempre sobre esse embargo condenado por todos os países menos pelos que insistem no crime, os EUA. Mas não se refugia em alibis: há uma crise política em Cuba e ela não pode ser resolvida com um passado que não tenha futuro.

 Cuba tem hoje uma economia dependente do turismo: se tivesse tido os esperados 4,5 milhões de visitantes em 2020, poderia almejar a um crescimento de 1% e, dado que importa 80% da alimentação, a preservar as suas escassas reservas. Só que o fluxo de turistas caiu para menos de um quarto, e em 2021 é ainda menos. O PIB reduziu-se em 11% e o país está depauperado. Acresce que, se a resposta às primeiras vagas da pandemia foram notáveis, incluindo a criação de vacinas próprias, já em 2021 a falta de produtos farmacêuticos paralisou a sua resposta sanitária. Uma sociedade sofrida teve que enfrentar esta dupla restrição, faltam alimentos e medicamentos. Os protestos populares ganharam assim dimensão e tratá-los como uma conspiração ou como um ato inimigo só pode prejudicar as soluções mobilizadoras. A luta pela hegemonia não se faz pelos caminhos da repressão, que divide (foram presos jovens comunistas e outros populares) e que deslegitima (nenhuma sociedade se resume a uma opinião ou à voz de comando de um partido único, menos ainda quando o senso comum popular identifica problemas tão graves). Leonardo Padura explica-nos melhor Cuba do que todas as atrapalhações ideológicas, os entusiasmos gringos ou as fantasias repressivas.

Francisco Louçã

(no Expresso)

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

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