Eu, “antidemocrata” me confesso | Nuno Ramos de Almeida in Jornal i

Embora o termo democracia esteja enevoado pelas meninges dos Assizes desta vida, democracia quer dizer “poder do povo”. E este só consegue ter poder quando oitenta por cento dele não está na miséria.

Comecemos com uma pequena história. Era uma vez uma familiar minha que trabalhava numa importante organização internacional. Essa delegação era dirigida por um funcionário da ONU, por mandatos de alguns anos. No início dos anos 80, esse diretor foi substituído. O homem, antes de vir viver para Portugal, mandou um telex a perguntar “se havia comida em Lisboa e produtos nas prateleiras dos supermercados”. Apesar dos esclarecimentos dados de cá, ele que tinha visto, durante anos, horas de notícias sobre a situação de guerra civil em Portugal nas televisões, aterrou no Aeroporto de Lisboa com as bagagens pejadas de latas de comida. Durante os anos da revolução portuguesa, a comunicação social falava que Portugal estava a ferro e fogo, que escasseavam bens de primeira necessidade, que andavam conselheiros cubanos pelas matas a preparar a guerra civil e que o país vivia numa ditadura militar comunista.

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SETE RAZÕES PARA NÃO VOTAR FERNANDO MEDINA NAS AUTÁRQUICAS EM LISBOA (II): UMA REPOSTA AOS CRÍTICOS | André Freire

Pelo menos nas redes sociais, este artigo, «Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas em Lisboa», gerou uma grande celeuma. Alguns críticos reagiram com elevação e pertinente sentido crítico, outros nem tanto, reagiram mais com profundo sectarismo. Não vou aqui debruçar-me sobre todas as críticas e muito menos responder a todas elas. Esta é, pois, uma resposta às críticas de que me recordo, que reputo mais pertinentes e feitas com maior elevação e menor sectarismo. E tal como nas razões para não votar em Medina, também na resposta aos críticos me fixo no número mágico de sete respostas. Claro que houve também muitos elogios, por exemplo aqui, mas desses não me ocupo aqui.

Um primeiro lote de questões críticas dizia respeito à eventual instrumentalização do artigo e dos argumentos pela direita. É uma crítica pertinente, pois pode acontecer e terá até já acontecido…, mas tal não pode ser razão para calarmos a nossa voz perante o que está mal, do nosso ponto de vista, genuíno e consciente.

Uma segunda linha de críticas tinha a ver com eu parecer desejar que a oposição (de direita) estivesse forte, e quiçá ganhasse. Quem ler o ponto sete verá que não é isso, mas de qualquer modo a valoração (que efetivamente faço) de uma oposição forte e com capacidade de escrutínio, seja ela de direita ou de esquerda, é algo que creio que deve ser feito por todos os democratas, pois uma oposição forte é uma condição sine qua non do bom governo.

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Para lá da Geringonça | André Freire

ANDRÉ FREIRE

Professor Associado com Agregação em Ciência Política. Foi diretor da Licenciatura em Ciência Política do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (2009-2015). É desde 2015 diretor do Doutoramento em Ciência Política do ISCTE-IUL. Investigador Sénior do CIES-IUL. Autor de numerosas publicações em livros e revistas académicas. Perito e consultor convidado de várias instituições nacionais e internacionais.

Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas de Lisboa (I) | André Freire in jornal Público

É preciso que o PS perca a maioria absoluta e tenha de negociar com forças com efetivo e conhecido peso político-eleitoral.

Há um principio básico em democracia, a prestação de contas. O caso do PS/Medina, em Lisboa, aponta em sentido oposto. Ao fim de 10 anos no poder, 2007-2017, estão a fazer todas e mais alguma obra(s) no final do terceiro mandato, como se tivessem chegado anteontem, e tornando a vida dos eleitores num inferno, e uma série de coisas que deveriam ter feito até aqui… prometem-nos agora para o futuro… precisarão de mais 10 anos? Claro que é improvável que percam as eleições em Lisboa, desde logo porque a comunicação social anda praticamente “com ele(s) ao colo”. Depois porque as forças partidárias à direita estão de cabeça perdida, e nem fazem oposição que se veja, nem apresentam alternativas sérias e construtivas. Mas seria desejável que recebessem pelo menos um bom castigo eleitoral que os levasse a perder a sobranceria da maioria absoluta atual, tendo de negociar um acordo político com outro(s) partido(s). Pela minha parte, passo a apresentar sete razões para isso.

1. Um eleitoralismo nunca visto e a vida dos lisboetas num inferno

A cidade de Lisboa está um inferno dadas as mil e uma obras praticamente iniciadas todas no último ano de mandato, ao fim de dez anos. Vejamos: têm sido as inúmeras obras no eixo central (Avenidas da República e Fontes Pereira de Melo, Praça do Saldanha e Picoas); há o programa “pavimentar Lisboa”, que pretende recuperar os pavimentos para peões e automóveis em 150 ruas; tem sido o programa “uma praça em cada bairro” que obrigará a 31 intervenções em múltiplas zonas; etc., etc. Mostrar trabalho feito em anos de eleições é algo positivo em democracia, algum eleitoralismo é até quiçá positivo, sempre existiu e existirá, mas este nível desmesurado de eleitoralismo, que tem tornado a vida dos lisboetas e seus visitantes muitíssimo desagradável, nunca se tinha presenciado, e é claramente pernicioso. Para um partido que está há dez anos no poder fazer tantas obras no décimo ano de mandato, várias questões se colocam. Será mau planeamento? Será má gestão? Estarão a extravasar o mandato político de 2013? Qualquer resposta positiva é um problema, teme-se que sejam todas.

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