O poder de mercado exposto no aeroporto de Lisboa, por Ricardo Reis, in Expresso.

Um dos maiores investidores no mundo só aposta em empresas que abusem do seu poder de mercado. Uma delas detém a concessão dos aeroportos em Portugal.

“Financial Times” (“FT”) de 21 de maio trazia uma entrevista fascinante com um senhor chamado Chris Hohn. Com a reforma de Warren Buffett, Hohn é hoje talvez o maior investidor vivo. Tal como Buffett, ele investe quantias enormes nas ações de uma mão-cheia de empresas, detém-nas durante muitos anos (em média nove) e impõe as suas opiniões sobre a gestão da empresa ao CEO e às comissões executivas. A sua firma, criada em 2004, já ganhou mais de €70 mil milhões, o que faz dela a mais bem-sucedida empresa financeira do mundo medida pelos lucros anuais. O artigo do “FT” explica o desempenho extraordinário de Hohn com uma candura que é tão fascinante quanto chocante.

Essa candura explica-se em parte pela forte personalidade de Hohn que aposta tudo naquilo em que acredita. Por exemplo, ele está convencido há muito tempo da emergência climática. Por isso, tem doado fortunas a grupos de ativistas climáticos, incluindo o famoso Extinction Rebellion, que se notabilizou por bloquear estradas e causar o caos no Reino Unido só parando quando houve mudanças draconianas da lei punindo os participantes com prisão. Hoje, no contexto do seu segundo casamento, Hohn está empenhado no movimento espiritual, acreditando que a nossa consciência tem várias reencarnações e tendo gasto nos últimos três anos cerca de €40 milhões a financiar retiros espirituais em Maiorca para que as pessoas possam entrar em ligação com as suas almas.

Mas, voltando ao tópico deste texto: como ganha Hohn tanto dinheiro investindo mais de €77 mil milhões hoje em apenas 15 empresas com uma equipa de menos de dez pessoas? Hohn concentra-se em identificar empresas que tenham “poder de mercado” à escala global. Empresas que conseguem estabelecer um “fosso” entre o seu negócio e o dos concorrentes, e que por isso conseguem fixar o preço dos seus produtos. Hohn diz aos gestores que cavem mais fundo esses fossos e que usem o seu poder de mercado para impor preços mais altos aos clientes. Por exemplo, o artigo descreve como Hohn investiu na Microsoft durante anos porque a empresa, tendo treinado milhares de informáticos espalhados pelas empresas do mundo inteiro na manutenção dos seus produtos, garantiu que estes impõem que as organizações onde trabalham continuem a adotar o Office ou o Teams, mesmo que existam na concorrência produtos que fazem o mesmo, melhor e mais barato. Hohn acabou de vender as suas ações da Microsoft porque acha que as ferramentas de inteligência artificial vão permitir aos utilizadores romper com as equipas de informática das empresas, e acabar com o poder de mercado da Microsoft.

O pecado capital do capitalismo feito pelos capitalistas é fugir à concorrência e impor o monopólio

O que é extraordinário nesta admissão é que, para qualquer aprendiz de economia, Hohn está a dizer abertamente que a sua fortuna se deve a contornar a lei da concorrência. Quando uma empresa vende o mesmo, mas consegue impor um preço maior por causa do seu “fosso”, está a transferir ganhos do consumidor para o bolso do produtor. Nada é criado, nenhuma necessidade é satisfeita. Aliás, o bem-estar de todos cai, porque com o aumento do preço, muitos clientes deixam de poder comprar o produto, embora estivessem dispostos a pagar mais do que ele custou a produzir. As ações de Hohn descritas na entrevista do “FT” são, sem qualquer ambiguidade, prejudiciais para a economia. Ele comete o pecado capital do capitalismo feito pelos capitalistas: fugir à concorrência e impor o monopólio.

Uma reação natural ao ler o artigo é esta: a Autoridade da Concorrência (AdC) em Portugal e as suas equivalentes no Reino Unido e em todo o mundo devem tirar a listagem das empresas em que Hohn investe e iniciar processos. Não precisamos de estudos e investigações a detetar violações da concorrência quando um dos maiores investidores do mundo nos diz que só investe em empresas que violam a concorrência.

Lendo um pouco mais, percebe-se que não é assim tão fácil. Qual é hoje o quarto maior investimento de Hohn? A empresa francesa Vinci. Sim, aquela empresa que detém a ANA em Portugal e tem o contrato de concessão do aeroporto de Lisboa até pelo menos 2037, embora esteja previsto durar até 2062. O contrato de concessão é o tal fosso que Hohn adora. A AdC não pode fazer nada acerca disso, porque o Governo, em 2012, o assinou de livre vontade, criando o poder de mercado da Vinci. A contribuição de Hohn, como investidor, terá sido ordenar aos gestores da ANA que cobrem cada vez mais pelas taxas aeroportuárias.

O aeroporto de Lisboa é impressionante. Com um espaço pequeno, tem uma grande frequência de voos a aterrar e a descolar e tem os terminais sempre cheios de milhares de pessoas que passam por uma pequena zona comercial com um volume de faturação extraordinário. Os números não mentem, e um relatório da AdC em fevereiro mostrava que a Vinci é a empresa mais rentável no seu sector e que o retorno no aeroporto de Lisboa tem sido extraordinário. Em resposta, a Vinci defendeu-se (e bem) afirmando que gere o aeroporto com grande “eficiência operacional” e que assumiu um “risco excecional” quando comprou a ANA. Mas, na semana passada, um artigo de fundo do “FT” sugeriu que há mais do que isso. Afinal, o acionista que tem 5% do capital da Vinci só investe em empresas que abusam do seu poder no mercado.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.