Está aí a reforma eleitoral | José Ribeiro e Castro in Jornal “i”

Com a petição pública “Legislar o poder de os Cidadãos escolherem e elegerem os seus Deputados”, está finalmente em cima da mesa a reforma eleitoral. Agora, já podemos tomar posição e puxar o tema para o centro dos debates da Assembleia da República.

petição, lançada pela histórica SEDES e pela APDQ, outra associação cívica mais recente, contém um projecto de lei cuja adopção muda para melhor, num instante, o sistema eleitoral português. Além de podermos escolher os partidos ou coligações da nossa preferência, determinando a proporção das representações parlamentares, passaríamos a eleger também os deputados que representam os territórios de maior proximidade e a influenciar o processo de escolha dos demais. Com esta lei, que concretiza plena e rigorosamente a Constituição, deixará de haver deputados mais dependentes dos directórios que do eleitorado. Entraremos numa democracia de qualidade e a abstenção cairá, de imediato, para perto dos 20% ou menos ainda.

Estamos à espera de quê?

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António Barahona | “Acredito que não se morre, muda-se de estado” | Entrevista de Diogo Vaz Pinto in Jornal “i”

Os 80 anos não foram o suficiente para enxotar o seu ânimo mais desavergonhado mas, para Barahona, a beleza não sobrevive sem algum pudor

Foto de Hugo Alves

Beco dos Birbantes, velha cicatriz de quantos golpes, é um desses traços a que só se chega sendo muito íntimo de uma cidade. Já aparecia referido antes do terramoto de 1755, e aí, no que ficou de uma antiga vila operária, vive um grande poeta português. Na rua estreitíssima, sem saída, o sol só passa a língua, brevemente, a sombra pouco aquece e Lisboa sente-se encostada a uma escrupulosa saudade. À volta, há uns anos, as muralhas dissimuladas dos condomínios de luxo. E ele tem rejeitado propostas para abandonar a casa que explica em termos modestos a riqueza de viver na capital como numa aldeia. Vive ali há anos, com os filhos adolescentes e a mulher, bem perto do Jardim do Torel, que se debruça sobre uma vista agreste da selva de betão. Fizemos as fotografias e ele posou com toda a paciência, desinteressado de como pudesse ficar. Um homem que a morte há-de descobrir ainda muito belo, “contraditório, puro, sábio”, alguém que, a um ano dos 80, sente a vida envolta em beleza, ainda que avance sobre o caos e as trevas. Num trabalho que o vem ocupando nos últimos anos e que o terá até ao último fôlego, este colega de Camões, Cesário e Camilo Pessanha tem reescrito toda a obra e acaba de publicar o sexto tomo da sua suma poética – “Aos Pés do Mestre” (ed. Averno). Confessou-nos a tristeza de ficar sozinho cada verão, quando os filhos fazem férias na praia. Um homem que não se cansa de amar não chega a ver a velhice. António Barahona, o benjamim do grupo do Café Gelo, foi pai aos 26 – o mais novo dos nove filhos tem hoje 14 anos. Viajou muito, converteu-se ao islão quando tinha 30, entrou em inúmeras polémicas, perdeu alguns amigos, mas tem feito mais. É desses cujo talento começa na sua capacidade de admiração. Fala dos amigos como “jardins suspensos do meu repouso, árvores com folhas todo o ano”. Tem–se batido contra o acordo ortográfico, medida que o fez adoptar uma ortografia pessoal. Esta é hoje o mais eloquente libelo contra a “burrocracia” que, em nome de uma imbecil uniformização da língua, tem desfigurado a sua beleza. Continuar a ler

Vasco Santos | Editor da Fenda | “O racismo contra os pobres é um dos trunfos do actual regime” (versão integral) | in Jornal “i”

Se passar na Rua Garrett e perguntar aos rapazes que estão ali a pedir moedas… Já o fiz. Uma vez a um que estava perto da Bertrand: “Epá, diga-me lá: porque é que tem aqui três cães?” E ele – que era húngaro – disse-me: “Se não tiver cães não me dão esmola.” É interessante, não é? Portanto, a quem damos a moeda é ao cão. Não damos a moeda ao sem-abrigo, ao mendigo.

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Toda a gente fala mal do meio literário e editorial. Das costureirinhas, do muito que se corta na casaca. Mas, afinal, quantos podem encher a boca e, com autoridade, dizer o pior desse meio, pois deram a vida e tudo o que tinham pelo amor aos livros? Vasco Santos pode. E hoje está praticamente sozinho

Desta vez, não percamos tempo com preâmbulos nem grandes apresentações. Iríamos roubar espaço a Vasco Santos, editor da Fenda que depois de ter estourado uma fortuna para pôr de pé uma verdadeira quinta-coluna, com um catálogo de exigência fenomenal, teve de pôr fim à actividade pouco antes de esta fazer 40 anos. Regressa agora com a VS o também psicanalista que nos recebeu no consultório, convidando-nos a escolher entre o outro cadeirão ou o divã, enquanto preparava chá, que aceitámos.

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Eu, “antidemocrata” me confesso | Nuno Ramos de Almeida in Jornal i

Embora o termo democracia esteja enevoado pelas meninges dos Assizes desta vida, democracia quer dizer “poder do povo”. E este só consegue ter poder quando oitenta por cento dele não está na miséria.

Comecemos com uma pequena história. Era uma vez uma familiar minha que trabalhava numa importante organização internacional. Essa delegação era dirigida por um funcionário da ONU, por mandatos de alguns anos. No início dos anos 80, esse diretor foi substituído. O homem, antes de vir viver para Portugal, mandou um telex a perguntar “se havia comida em Lisboa e produtos nas prateleiras dos supermercados”. Apesar dos esclarecimentos dados de cá, ele que tinha visto, durante anos, horas de notícias sobre a situação de guerra civil em Portugal nas televisões, aterrou no Aeroporto de Lisboa com as bagagens pejadas de latas de comida. Durante os anos da revolução portuguesa, a comunicação social falava que Portugal estava a ferro e fogo, que escasseavam bens de primeira necessidade, que andavam conselheiros cubanos pelas matas a preparar a guerra civil e que o país vivia numa ditadura militar comunista.

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