António Barahona | “Acredito que não se morre, muda-se de estado” | Entrevista de Diogo Vaz Pinto in Jornal “i”

Os 80 anos não foram o suficiente para enxotar o seu ânimo mais desavergonhado mas, para Barahona, a beleza não sobrevive sem algum pudor

Foto de Hugo Alves

Beco dos Birbantes, velha cicatriz de quantos golpes, é um desses traços a que só se chega sendo muito íntimo de uma cidade. Já aparecia referido antes do terramoto de 1755, e aí, no que ficou de uma antiga vila operária, vive um grande poeta português. Na rua estreitíssima, sem saída, o sol só passa a língua, brevemente, a sombra pouco aquece e Lisboa sente-se encostada a uma escrupulosa saudade. À volta, há uns anos, as muralhas dissimuladas dos condomínios de luxo. E ele tem rejeitado propostas para abandonar a casa que explica em termos modestos a riqueza de viver na capital como numa aldeia. Vive ali há anos, com os filhos adolescentes e a mulher, bem perto do Jardim do Torel, que se debruça sobre uma vista agreste da selva de betão. Fizemos as fotografias e ele posou com toda a paciência, desinteressado de como pudesse ficar. Um homem que a morte há-de descobrir ainda muito belo, “contraditório, puro, sábio”, alguém que, a um ano dos 80, sente a vida envolta em beleza, ainda que avance sobre o caos e as trevas. Num trabalho que o vem ocupando nos últimos anos e que o terá até ao último fôlego, este colega de Camões, Cesário e Camilo Pessanha tem reescrito toda a obra e acaba de publicar o sexto tomo da sua suma poética – “Aos Pés do Mestre” (ed. Averno). Confessou-nos a tristeza de ficar sozinho cada verão, quando os filhos fazem férias na praia. Um homem que não se cansa de amar não chega a ver a velhice. António Barahona, o benjamim do grupo do Café Gelo, foi pai aos 26 – o mais novo dos nove filhos tem hoje 14 anos. Viajou muito, converteu-se ao islão quando tinha 30, entrou em inúmeras polémicas, perdeu alguns amigos, mas tem feito mais. É desses cujo talento começa na sua capacidade de admiração. Fala dos amigos como “jardins suspensos do meu repouso, árvores com folhas todo o ano”. Tem–se batido contra o acordo ortográfico, medida que o fez adoptar uma ortografia pessoal. Esta é hoje o mais eloquente libelo contra a “burrocracia” que, em nome de uma imbecil uniformização da língua, tem desfigurado a sua beleza.

Antes do começo da entrevista, o poeta quis ler-nos algumas páginas de um bloco de notas, uma espécie de diário. E, do que nos foi lido, recortamos um episódio que serve de balanço para a conversa.

“Ossos e oração: Hoje, Deus impediu-me de praticar uma boa acção. O tema é prosaico, mas com desenvolvimento poético inesperado. De manhã, fui ao talho buscar ossos, que o talhante me prometera. O talho situa-se na Rua do Benformoso, perto de uma mesquita onde costumo comparecer para a oração de Jumu’ah, que se realiza todas as sextas-feiras. E, por comodidade e simpatia, tornei-me cliente daquele estabelecimento. Assim, como cliente habitual tenho direito (entre aspas) aos ossos, de graça. Estes, com muitos pedaços de carne tenra, fervidos, dão uma sopa deliciosa, além do tutano que muito aprecio. Mais ou menos a pouca distância do meu destino, do lado esquerdo da rua, num passeio muito estreito, estava uma mulher lindíssima, encostada à parede. Quando me aproximei, olhou-me nos olhos e perguntou-me: “Quer ir ao quarto?” A sua expressão de magoada inocência, e de solícita tristeza, comoveu-me. Senti as lágrimas prestes a saltar, mas contive-me e respondi com um sorriso: ‘Não querida, não quero.’ E apressei o passo. Entretanto, lembrei-me de que tinha dez euros no bolso, e disse para comigo que, ao regressar do talho, lhos daria e talvez a convidasse a almoçar em minha casa. Mas, quando voltei, ela era só ausência. Procurei-a sem resultado, nas cercanias, então deixei que as lágrimas saltassem, grossas como punhos, como diria Camilo. Exausto de andar de um lado para o outro, com o saco de ossos, sentei-me na soleira de uma porta, a transpirar suor frio, e a tremer. Deus impediu-me de praticar uma boa acção. Talvez inútil, sim. Talvez só útil para alimentar a ilusão vital e egoísta de que sou bom. Meu Deus, se a encontrar de novo, eu quero ir ao quarto e, lá, ficar com ela eternamente nos meus braços, cheio de ternura e castidade.”

Acaba de ler, e ri-se, entre o acanhado e o riso bandido de um puto. Como quem se defende e escapa; vai sempre pontuando as suas respostas com risadas curtas ou desenfreadas.

Que idade tinha ela?

Vinte e poucos anos. Desde esse dia, tenho andado a ver se a encontro. Nunca mais a vi.

O volume de poesia que acaba de publicar é o sexto tomo da sua obra reunida…

Da suma poética, sim.

Esta suma fixará a totalidade da sua obra?

Sim. São 20 tomos de poesia, depois há mais quatro de prosa.

E esses também estão já preparados?

Mais ou menos. Já cá não estarei para ver toda esta suma ser publicada. Espero ter tempo de deixar os livros preparados para edição.

A Averno comprometeu-se a publicar todos os tomos?

Sim, o Manuel de Freitas [editor] assumiu esse compromisso.

O António nasceu numa altura em que Pascoaes ainda era vivo. Para alguns poetas e estudiosos, Pascoaes é da mesma grandeza que Fernando Pessoa.

Eu acho-o mais importante.

Cesariny também pensava assim. Mas nos nossos dias, e no que diz respeito à literatura, parece existir um pódio e este só tem lugar para um. À volta de Pessoa, tudo parece ser apenas paisagem. Mário de Sá-Carneiro parece ser mais relevante pela ligação a Pessoa do que pela sua própria obra.

O que eu ia dizer é que Mário de Sá-Carneiro não é paisagem nenhuma.

Como encara esta secundarização que leva a que Pessoa ofusque um poeta como Pascoaes, ao ponto de grande parte da sua obra não estar sequer disponível? Pensa nisso, quando se ocupa da organização da sua obra? Pensa na sua posteridade?

Eh pá, não sei. (risos) Não estou propriamente preocupado com a minha posteridade. Não é a razão que me leva a trabalhar e a fazer a suma. Isto é fundamentalmente uma coisa perante mim próprio. Para sentir que a minha vida não foi em vão. Quanto à posteridade, talvez haja em nós uma espécie de instinto de sobrevivência – isto embora eu acredite que não se morre. Muda-se de estado. Digamos que a escrita é a materialização vocal desse estado em que, depois, se passa a viver, sem ter corpo. Não sei bem como é que será.

Os seus textos diarísticos são de uma candura, de uma clareza e simplicidade, um pouco como o Picasso, que procurou chegar à velhice desenhando como uma criança, capturando num traço contínuo, num só contorno, a subtileza e a força que anima toda uma figura.

Sim, tentei fazer isso. Mas todas as vidas dão um romance se escritas com mestria. A vida mais insignificante pode ser tema de um fabuloso romance.

A do António, já de si, está repleta de peripécias e aventuras.

Mas isso depende de como é escrito. Uma biografia pode estar cheia de acontecimentos fascinantes mas, se o livro é mal escrito, os acontecimentos acabam por não deter fascínio nenhum, porque não há arte a sustentá-los. Depois há vidas aparentemente insignificantes mas que, bem escritas, nos arrebatam.

Aqui estou a tentar transcender a própria noção de arte.

Já contei algumas histórias dessas, como aquela do leão. Relato vários episódios desses nos meus livros.

Relembre-me esse do leão.

Isso passou-se numa madrugada em Matibane, uma aldeia no norte de Moçambique. Estava em casa de um indiano que tinha uma casa perto da praia. Saí à noite, fumei um charro, fiquei com uma pedrada enorme e fui andando pela praia. À medida que ia andando pela praia fui–me despindo até ficar todo nu. Era o crepúsculo, quando saem os leões e, de repente, vejo um leão vir direito a mim. E eu disse: “Estou fodido.” (risos) Mas como estava todo nu, o leão terá pensado que eu também era um animal, e eu, em vez de fugir ou fazer qualquer outra coisa, sabendo que se o fizesse o mais provável é que ele me desfizesse em farrapos, fiquei muito quietinho. O sacana do leão veio, devagar, chegou o focinho à minha perna, cheirou-me, fez um pequeno resmoneio e foi-se embora. Eu fiquei transido. (risos) Mas é isso: eu estava todo nu, parecia um animal.

Não entrou em pânico?

Isso teria sido a minha morte. Eu estava com uma grande pedrada, e isso contribuiu também para me acalmar. (risos)

Isto foi em que ano?

Em 1972 ou 73. Foi ainda na época colonial.

A sua poesia é tanto uma oração como um hino: a oração dirigida a Deus, e o hino às mulheres. Conte-me a história de como conheceu a sua primeira namorada.

Foi um encontro fulgurante. Tinha 15 anos e naquele tempo – e isso hoje desapareceu – havia casas de putas. Embora houvesse uma lei que não permitia a frequência a menores, evidentemente ninguém ligava a isso. E os miúdos de liceu, com 12, 13 anos começavam a ir às putas. Eu não era diferente dos outros putos e também ia. Depois havia aquela coisa da miudagem gabar-se: fiz isto e fiz aquilo e aqueloutro. Eu não era capaz de fazer nada, mas fazia de conta que sim.

Limitava-se a ir para o quarto com elas e ficava ali…?

Sim. Era uma pessoa que eu não conhecia, aquilo para mim era completamente estranho e eu… pronto… nada. (risos)

Mas falava com elas?

Sim, estava ali. Depois os outros diziam que faziam e aconteciam, e eu fazia de conta. Era uma frustração. Nesse dia em que vi a única partida de futebol da minha vida regressei a Lisboa de Setúbal, à boleia, com esse gajo…

Que idade tinha ele?

Quase 30 anos. Andava a fazer cadeira por cadeira a ver se acabava o sétimo ano. E então ele disse-me: “Vamos às putas!” Entrámos num café que ficava ali quando se vai para a Rua do Benformoso e que se chamava Campainhas. Um daquele cafés com as portas…

De saloon?

Exactamente. E eu reparei numa mulher que estava sentada. Na altura, muito jovem, teria uns 25 anos. Olhos verdes, cabelo preto com uma franja, magrinha, com um vestido de chita de riscas vermelhas… Eh pá, eu fiquei deslumbrado com aquela miúda. Fui sentar-me ao pé dela. Ela pediu-me lume, começámos a conversar… E acho que foi no dia seguinte que eu combinei com ela uma hora e fui ter com ela, porque então não tinha dinheiro.

Quanto dinheiro é que trouxe?

Vinte e cinco escudos. Fomos para uma pensão e aconteceu pela primeira vez ter tido um orgasmo com uma mulher. Gostei dela… Fiquei muito feliz e contei–lhe tudo o que se passava comigo: “Olha, é a primeira vez que tenho um orgasmo. Passa-se isto assim e assim e assim…” E ela ouviu e, no fim, disse-me: “Agora não quero que me dês mais dinheiro. Eu levo-te para o meu quarto.” Eu ia a casa, mas depois faltava às aulas para me meter na cama com ela. E isto durou três anos. Ela depois teve comigo um grande desgosto…

Porquê?

A juventude é cruel. Passei-me…

Fartou-se de que ela fosse prostituta?

Não. Ao fim de três anos, já tinha uma namorada…

E não lhe fazia diferença que ela estivesse com outros homens?

Sofria com isso, é evidente. Roubava coisas em casa… até a máquina de barbear do meu pai roubei para ir vender, para lhe dar o dinheiro. Dava-lhe todo o dinheiro que podia.

Mas, dando-lhe dinheiro, tentava que ela não fosse ter com outros homens?

Sim, ela ficava em casa quando eu lhe dava dinheiro. Mas às vezes não chegava, não conseguia arranjar o suficiente…

E em sua casa ninguém se apercebeu?

Aperceberam-se porque entretanto começaram a chover cartas da escola a dizer que eu não ia à escola. E isto para chegar ao que te quero contar, que é de certa forma uma história comovente… Só soube muito, muito mais tarde. Então o que se passou: a minha mãe deu-se conta do que se passava e foi ter com ela. Explicou-lhe que eu tinha deixado de ir às aulas e tal e tal. E qual não é o meu espanto quando, um dia, chego ao quarto dela e estava lá uma carteira daquelas de escola. E eu perguntei-lhe: “Mas para quem é esta carteira?” E ela: “É para tu estudares.” Tinha sido a minha mãe que lhe tinha dado dinheiro para ela comprar uma carteira onde eu pudesse estudar. A minha mãe, imagina tu… As mulheres, pá. E com certeza tê-la-á ajudado com algum dinheiro.

Como é que descobriu onde ela vivia?

Ó pá, foi espiar-me.

E a partir daí o António ia para lá à tarde e punha-se a estudar?

Sim, ia. Ela pedia-me para que não fosse deitar-me com ela logo de manhã, que fosse às aulas, e eu lá voltei a ir às aulas de manhã.

Isso demonstra da parte da sua mãe uma liberdade de espírito muito invulgar.

Sim. Soube isso muito mais tarde.

Através de quem?

Da minha mãe. Ela contou-me. Os anos passam, passam muitos anos…

Mas achava então que tinha sido essa mulher… Como se chamava?

Laura.

Nunca mais a viu?

É isso que te ia contar. Os anos passam… Nessa altura tinha acabado de conhecer a Eunice [Muñoz], estava muito apaixonado por ela…

Que idade tinha?

Vinte e oito anos. Estava à espera do autocarro em frente do Liceu Camões e vejo-a. Mais velha…

E bem?

Pá… magra. Ela era muito magra, mas estava um bocado envelhecida. Um ar pobre. Ficámos os dois surpresos de nos encontrarmos. “Então tu aqui…” Ela era analfabeta e, antigamente, a Escola Veterinária era ali. Então disse-me que era mulher-a-dias na escola. Entretanto, chega o autocarro e ela dirige-se para o autocarro e eu grito-lhe: “Então e não me dás um beijo?” E ela volta-se, pá, e fica linda como no tempo em que eu a tinha conhecido, e diz com um ar muito coquete: “Não.” E corre para o autocarro. Já não pode ser viva. Ela tinha mais dez anos do que eu.

Teria 90 hoje.

Sim, teria 90… Uma vida dura. Com certeza já terá morrido.

E nunca mais a viu?

Nunca mais. E são estas coisas em que me ponho a pensar e não me perdoo. Eu sabia que ela estava a trabalhar ali como mulher-a-dias naquela escola. Devia ter lá voltado no dia seguinte ou passados dias. Nem que pedisse algum dinheiro emprestado… Ia lá levar-lho e ajudava-a. Enfim… Tenho muita coisa de que me arrepender.

A Eunice foi a sua terceira mulher. Estava então casado com Maria Virgínia de Aguiar.

De quem me separei para casar com a Eunice.

E depois foi com a Eunice para Moçambique?

Ela fazia tournées. Fez duas por África e eu acompanhei-a, e depois aproveitava a viagem e ia para onde queria. Ela ficava a trabalhar…

Que tournées eram essas?

As do Carlos Avillez, Teatro Experimental de Cascais.

Nessa altura ainda não era muçulmano?

Nós convertemo-nos em Moçambique, em 1970. Eu e a Eunice queríamos casar e não podíamos, porque ela tinha sido casada pela Igreja. Eu tinha sido casado pelo civil, estava divorciado. Queríamos sacralizar a nossa união. Estávamos certo dia em Lourenço Marques e encontrei um amigo meu, que estava lá como capitão miliciano, e fomos tomar uma cerveja, e enquanto isso aparece um senhor, indiano, que se dirigiu a ele e lhe disse: “Senhor capitão, queria fazer-lhe um pedido. Tenho um filho em Tete e queria que ele viesse cá para baixo, para perto de mim. O senhor capitão não podia ligar para o quartel de Tete e pedir para o mandarem cá para baixo?” Como ele era um gajo porreiro, disse-lhe logo: “Está bem.” Pediu o número e telefonou: “Ó não sei quantos, manda-me para cá o cento e não sei quantos, que eu preciso dele cá em baixo.” O homem ficou muito agradecido e depois saímos todos juntos. Era a Rua Salazar. E, a dada altura, o homem despediu-se de nós e disse: “Agora vou rezar.” Eu fiquei curioso e ele disse-me que era muçulmano e que havia ali perto uma mesquita. Fiquei a saber onde era a mesquita e no dia seguinte voltei lá. Tive uma sensação de me sentir em casa quando ali entrei. Aquilo era-me tudo familiar.

Porque se afastou do catolicismo e se converteu ao islão?

Há razões específicas que têm que ver com uma crítica que faço à forma como o catolicismo tem evoluído, e em que me parece que se afastou muito do que penso que seria a essência de uma doutrina cristã – a qual estará talvez mais presente nas igrejas cristãs do Oriente como, por exemplo, a cristandade ortodoxa. Parece-me que esta está mais perto do cristianismo do que o catolicismo. Sou muçulmano não só porque sou um crente, mas também porque faço uma crítica à religião em que nasci e que penso que se vem degradando cada vez mais. Até chegar ao ponto de se tornar qualquer coisa conivente com o mundo moderno e com todo um estado de coisas inovadoras, no mau sentido, e que a mim me desagradam profundamente. O meu desacordo com o catolicismo é também o meu desacordo relativamente à sociedade em que vivo que, de uma maneira ou de outra, é influenciada por esse falso cristianismo. As pessoas já não têm uma noção nem uma prática da religião. Já há até poetas e escritores que dizem… no outro dia, penso que foi o Victor Hugo… Mãe…

Valter Hugo Mãe.

Isso. Disse: “O tempo das práticas religiosas acabou.” O que é isto? O tempo das práticas religiosas não pode acabar enquanto houver homens sobre a Terra. Mas o que há é uma anulação sistemática de toda a transcendência. Deus não é tomado a sério. (risos)

Mas e então… Esteve na mesquita, sentiu-se em casa, e depois?

Falei com o imã, que me indicou um professor. Durante um mês estudei o islão todos os dias. E isto até que ele achou que eu estava pronto para me converter. E a Eunice acompanhou-me. Depois casámos pelo islão.

O que mais o cativou nesta religião, na sua descoberta?

Bom, para já, eu não era completamente leigo, já havia tempo que a civilização islâmica me fascinava e eu lia bastante sobre o assunto. Mas o que mais me atraiu foi a possibilidade do sufismo, de que o meu professor me falou. Porque o islão exterior, a xaria, é um caminho curto, mas o sufismo é um caminho que não tem fim.

Pode explicar porque acha a xaria um caminho curto?

É um caminho para quem é religiosamente pouco ambicioso, porque se pode limitar ao cumprimento quase mecânico de alguns preceitos, e não busca mais do que isso.

É como um católico praticante, que vai à missa, partilha dos rituais, mas não devota a sua vida a uma relação mais profunda?

Exactamente, será idêntico a isso.

E o sufi é alguém que entra numa relação teologal…?

Primeiro é-se murid, o discípulo. Tem-se um mestre. Este senhor [aponta para fotografia afixada na parede detrás e acima de onde se senta] é meu mestre. Sou murid dele. Ele diz-te o que tens de fazer além das cinco orações diárias. Há outras orações e práticas de meditação, repetição dos nomes de Deus, e ele é que te dá todas essas orientações.

Quantos anos mediaram entre a conversão e o tempo que passou naquela aldeia, a viver numas palhotas, onde tinha aulas com crianças?

Foi quando fiz 34 anos. Esse africano que está aí acima era o meu professor. Foi quatro anos depois.

E a Eunice acompanhou-o?

Depois menos. Ela não aguentou viver no mato.

Houve então um período em que desistiu da carreira de atriz para ir viver na savana?

Sim, mas depois não aguentou. Depois fiquei lá sozinho. Passei lá cerca de um ano.

E ela?

Aguentou uns dois, três meses.

Tornou-se insuportável para ela?

Era o medo constante das cobras, insectos, um medo permanente de tudo.

E qual era a vossa fonte de subsistência?

Eu ia à pesca, e ela trouxe algum dinheiro. Íamos às compras à Ilha de Moçambique.

De resto, estavam isolados?

Não, era uma palhota numa aldeia, aquela onde vivia o meu professor.

Lembra-se da primeira vez que o viu?

Lembro-me. Fui à procura dele e ele escondeu-se. Pensava que eu era um missionário católico que ia desviar as crianças lá da escola. (Risos) Depois consegui esclarecer. Fazia-se isto, era indecente.

Era uma madraça?

Era. Debaixo de uma árvore de manga, ao ar livre.

Disse-me que eles estavam tão a leste que ainda tinham retratos do D. Carlos pendurados nas palhotas.

Sim, é verdade. Pensavam que havia ainda um rei em Portugal.

Há algum episódio que recorde mais desse tempo?

Muitos. Uma noite, tinha andado mais de 30 quilómetros a pé, no mato, estava extenuado, eram umas 10 da noite…

Foi algo que ele lhe mandara fazer?

Não. Ele tinha vindo comigo. Tínhamos ido visitar um primo dele. Para lá 15 quilómetros e para cá os mesmos 15. Chegámos lá, almoçámos e viemos. Fiquei extenuado.

E ele que idade tinha?

85 anos. Magrinho. E eu deitei-me na esteira, e ele ficou sentado, a derreter rapé na boca. E imagina o diálogo… A dada altura ele diz-me: “A razão porque nós somos muitos amigos é porque somos dois homens que viajaram muito. As pessoas que viajem muito tornam-se amigas…” Qualquer coisa assim, já não me lembro ao certo. Disse que estávamos irmanados por termos viajado muito. E eu comecei a pensar que não tinha viajado assim tanto como isso. – Este homem com certeza viajou muito mais do que eu. E disse-lhe: “Pai (tratava-o por pai, porque ele perfilhou-me) eu não viajei assim tanto. Estive em Amesterdão, em Paris… O pai deve ter viajado muito mais do que eu.” E ele volta-se para mim e diz-me: “Eu!? Eu nunca saí desta aldeia.” (Risos)

Nunca tinha saído da aldeia?

Bem, ia visitar o primo, ia aqui ou ali, mas ficava-se sempre pela aldeia e pelas redondezas. Parece uma coisa de um mestre zen. Ele tinha saídas incríveis. De outra vez, chego lá para ter a lição e está ele na rainha das posturas. Isto por acaso é interessante porque prova que as posições de ioga são naturais… Estava na rainha das posturas, a fazer o pino. A dada altura senta-se, e eu: “Não sabia que o papa praticava ioga.” E ele “Ioga! O que é isso?”, eu: “então, quando eu cheguei o papa estava na rainha das posturas”, e ele: “rainha das posturas?, eu estava assim porque o meu corpo me pedia.” Ele não sabia nada de ioga. O corpo pediu-lhe aquela posição e ele fê-la. Era um homem notável.

Esteve um ano dessa vez, e depois, voltou?

Sim, ao todo estive lá uns três anos.

E tinha os seus livros de poesia ou nesses períodos abandonava-a?

Não, não, nunca deixei de escrever.

E trazia a poesia dos surrealistas e outros?

Não, esses, propriamente, não. O Mário [Cesariny] nunca deixei de ler, mas, por exemplo, na Índia li o [Fernando] Echevarría, que é um poeta de que gosto muito.

É um exemplo curioso, porque aí está outro grande poeta, que está perto dos 90, e apesar do prémio que recebeu aqui há uns anos, tem uma obra praticamente desconhecida.

Sim. O que me causa grande impressão. Não percebo, porque os livros dele são muito bons. Olha, aquele livro “Manual de Filosofia” (ele dá sempre uns títulos estranhos), ajudou-me muito no estudo do sânscrito. Parece que nada tem que ver, mas quando o li ajudou-me bastante. É um muito bom poeta.

Existe na sua obra uma ligação muito forte entre o percurso poético e o religioso. Hoje, aos 80 anos, quem são os seus mestres na poesia?

Os antigos continuam a ser os mesmos. Mas daqueles poetas que conheci mais recentemente, posso dizer que tem sido uma lição e revelação o José Miguel Silva [n.1969]. Fiquei muito impressionado com o último livro [“Últimos Poemas”, Averno] e depois reli os livros todos dele que tenho, para ver se resistia. E, realmente, aquilo tem garra, é forte. Fiquei deveras surpreso com este poeta. E gostei muito também do último livro de José Alberto Oliveira [“De Passagem”, Assírio & Alvim]. Tu não gostaste?

Não, achei-o lamuriento. Parece-me que certos poetas a única coisa que têm para dizer é que não acreditam na poesia, e tudo se torna um bordado fastidiante, como Penélopes que vêm à noite desfazer o trabalho feito durante o dia.

Mas o José Miguel Silva, se aparentemente se pode dizer isso, se ele for bem lido e bem interpretado, como penso que o fiz, é outra coisa. Mas não te estavas a referir a ele?

Não, estava a referir-me ao José Alberto Oliveira. Porque o José Miguel Silva domina tão acutilantemente a forma que consegue dizer o seu desalento, o seu desespero, a sua dor e, ao mesmo tempo, di-lo poeticamente. É uma poesia tão sofisticada, com uma noção tão clara do ritmo, da concisão…

Sim, ele é bom, é muito bom. A mim, apaixona-me porque me parece o primeiro caso em que… Ao ler alguns poemas dele, que são em certo sentido pornográficos, ou obscenos, que empregam palavrões, se normalmente não adiro muito a esse tipo de coisas, não me entusiasmam, nele descobri, pela primeira vez, que conseguia compreender que se pudesse tratar Deus como um amigo com quem se tem uma relação tão chegada e que passa por dizer palavrões. “Ó, meu sacana, meu cabrão, olha m’isto…” Portanto, dirigir palavrões a um amigo, mas com um sentido afectivo. Ele consegue ser religiosamente pornográfico na relação com Deus. Acho que ele é religioso sem o saber. Aquela violência toda e aqueles palavrões todos são a forma dele tratar Deus por tu como se fosse um amigo íntimo, que não se está a insultar propriamente, mas com quem se tem uma confiança para se lhe dizer as maiores barbaridades.

Ele em princípio é ateu.

Isso pensa ele. (Risos) Ele pensa que é ateu mas não é. Ele trata Deus por tu, trata Deus como se fosse um irmão com quem ele anda à bulha e com quem ele dorme e discute quando acorda. Isto foi o que eu vi. E se primeiro li os livros separadamente, fiquei tão impressionado com este sacana que, depois, tive o cuidado e fui lê-los de seguida. E realmente aquilo resiste.

Onde é que vê Deus naqueles poemas?

Quando ele blasfema.

Parece-me que ele o que mais vê é a ausência de Deus.

Pois, mais isso já é metafísica.

E este terá sido o último livro. Seria a recolha de coisas que sobraram, e marca um afastamento, um abandono da poesia.

Sim, ele diz que sim. Escrevi-lhe, entretanto, a dizer que esperava que não fossem realmente os últimos poemas. Seria uma pena. Mas a obra dele, se a reunir toda num volume, seria um livro bastante marcante. Pode ser que ele se disponha a isso.

Voltando aos seus mestres, na poesia…

Escrevi uma nota qualquer em que dizia que a minha verdadeira universidade foi o Café Gelo, e os meus professores foram o Cesariny, o Manuel de Castro e, do outro lado da vida, o António Maria Lisboa… Porque já tinha morrido quando eu apareci no Gelo. Estava constantemente a lê-lo, sobretudo aquele poema, o “Isso Ontem Único”. Um texto muito importante para mim.

E da relação com o Cesariny, que tinha então quase o dobro da sua idade, o que ficou?

Ele era uma pessoa extremamente delicada. Às vezes, estávamos no Gelo, e ele perguntava se eu queria ir ouvir música. Ele tinha um atelier ao pé da Sé, um pequeno quarto, onde tinha uma grafonola e punha os nocturnos de Chopin. Deitávamo-nos no chão, ficávamos ali toda a tarde a ouvir música.

Ele tinha um especial encanto por si, pela sua beleza?

Sim, mas nunca houve nada. Só uma vez, por brincadeira, quando me fez esse retrato… em 1958. Nessa altura, eu estava apaixonado pela minha prima, e nunca mais me esqueço do que ele me disse: “Dê-me um beijo como dá à sua prima.” (Risos) Fartei-me de rir, e depois rimo-nos os dois.

https://ionline.sapo.pt/artigo/619996/antonio-barahona-acredito-que-nao-se-morre-muda-se-de-estado-?seccao=Mais_i

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