“África tem pujança criativa na ciência, nas artes, na política. Há uma ideia de futuro” | GUSTAVO BOM entrevistado por Ana Sousa Dias em jornal Diário de Notícias

Acaba de publicar África, os quatro rios, onde percorre a maior bacia hidrográfica do mundo – Nilo, Níger, Congo e Zambeze – através da literatura de viagens. Um ponto de partida para falar sobre a criatividade de um continente diversificado e jovem.

Já foi um território desconhecido, a estimular as mais exóticas efabulações. Já foi dado como perdido em guerras, fome e doenças. O ensaísta, investigador e programador cultural António Pinto Ribeiro, viajante por natureza e por escolha, conta-nos uma outra África, virada para o futuro e com uma criatividade fecunda. Um percurso que a América Latina fez há algumas décadas.

Porquê o seu fascínio por África?

Há um lado biográfico, já que vivi em Angola e Moçambique e tenho voltado a África muitas vezes. É um continente onde existe, em diversas partes, uma pujança criativa a todos os níveis, nos domínios da ciência, da política, das artes, da economia. Nalguns casos há hoje a constituição de novos paradigmas de conhecimento determinantes que nos ajudam a compreender melhor o mundo.

Onde podemos encontrar essa África contemporânea de que fala?

Há uma enorme diversidade, o que é fascinante e torna tudo mais difícil. A África do norte, de influência árabe e islâmica, e a África subsaariana são completamente distintas. O lado oriental também é muito diferente do ocidental. Na África subsaariana há um movimento semelhante ao da América Latina nos anos 1960. Intelectuais, escritores, artistas, pensadores nos últimos anos começaram a refletir sobre qual é a possibilidade para a África de se distinguir do que foi no colonialismo. Alguns chamam-lhe a descolonização do espírito. São todos países muito recentes, a independência mais antiga é do Gana, de 1958. Foi preciso viver as independências, com o sonho do homem novo negro e das grandes nações africanas, um sonho que na maior parte dos casos se gorou e resultou numa enorme deceção. Passada a fase da deceção e da descrença, a questão é: qual a possibilidade de construirmos os nossos países de um modo diferente do que herdámos do colonialismo e que não seja completamente utópico e irrealista? E começaram por investigar a fase pré-colonial, o que penso que é inteligente.

Esse passado nunca foi estudado?

Não está estudado. A extinção das culturas pré-coloniais foi uma das formas de imposição do colonialismo. Na maior parte dos casos eram orais, não havia registos escritos. Começam a aparecer documentos e aquilo a que se chama património, um termo um bocadinho estranho, em arquitetura mas também na arqueologia. Vão buscar muito às múltiplas línguas locais, às culturas orais, e tentam perceber o que é conciliável com a vida de hoje, o que pode ainda ter sentido para as comunidades africanas. Já passaram a fase da grande oposição à Europa, e portanto recolhem também da Europa e do mundo em geral o que pode ser pertinente para criar países novos, países com futuro. Há uma ideia de futuro nestes países.

As duas palavras que usou como título de uma exposição – Réplica e Rebeldia – resumem essa sequência?

Há uma primeira fase em que os artistas, educadores e professores replicam o modelo, a linguagem e as gramáticas coloniais. Depois surge a necessidade de rebeldia, revoltam-se e apropriam-se da tecnologia deixada pelo colonialismo para desenvolver as preocupações políticas, sociais e artísticas.

Não há uma história pré-colonial, existe só uma história colonial?

Uma história colonial que é uma narrativa imposta. Há duas posições distintas: a posição europeia, que defende que antes da chegada dos europeus nada existia. Há uma frase de Hegel, a única que ele dedica a África: “em África não há cultura, só natureza”. E há uma fase no movimento da negritude que mitifica o passado pré-colonial, dizendo que tudo era perfeito, o que também não é verdade porque havia situações de conflitos, de guerras tribais.

Escolheu ter como ponto de partida os quatro grandes rios de África. Já os visitou todos?

Todos menos o rio Congo. Estive lá, mas não viajei neles. Os quatro juntos são a maior bacia hidrográfica do mundo.

Os rios têm uma energia própria?

Uma energia que pulsa, sim. Não são só os rios, são as bacias hidrográficas, incluindo os lagos, as margens. São rios muito diferentes e, por serem muito longos, têm percursos muito acidentados, zonas de calmaria, cataratas. Os quatro rios são determinantes em África porque são as veias de alimentação de África, do ponto de vista mitológico, e também foram as únicas vias de acesso, durante muitos anos, para entrar no continente. Até ao século XIX, o continente africano era conhecido só pelos contornos, não era possível entrar lá. Os contactos eram feitos na periferia, basicamente para comércio de escravos e de recursos naturais. A grande entrada nos quatro rios, que levou à morte de muitos exploradores e africanos que os acompanhavam, foi uma imensa aventura. Os exploradores foram acompanhados de cartógrafos, escritores, fotógrafos, jornalistas. É a grande descoberta do mundo nos séculos XVIII e XIX. Quando resolvi fazer este trabalho, procurei o que era para mim evidente: onde estão os escritores de viagens – não são muitos, em África – que fizeram estes percursos?

Quando se fala de África vem sempre a história da natureza, dos horizontes amplos. No seu livro, conta histórias de pessoas, no meio de uma natureza muito excessiva.

Há um sentido de ancestralidade nesse apego à Mãe África muito típico da busca do mundo perfeito da primeira negritude, uma mãe que desse à luz esses heróis negros. Há também uma óbvia explicação psicanalítica. Numa leitura reducionista da era colonial, ela remete para uma distância rácica em relação ao continente. Quando estudamos a história de África, descobrimos a enorme diversidade dos povos, das etnias, não só no presente como no passado. Percebemos por exemplo a dimensão dos zulus, os primeiros banqueiros de África.

Banqueiros?

Tinham um dom comercial, para além de serem guerreiros tinham aptidões específicas para isso. E descobre-se a tradição oral da bacia do Níger e dos países da costa ocidental, do reino do Mali ao reino do Congo. Têm um passado extraordinário ligado à aritmética, à linguística, a estratégias e táticas de guerra, à manufatura de tecidos, à escultura. Alguns museus do Mali já conseguiram recuperar algum desse património. E temos o exemplo de Tombuctu, uma cidade com a dimensão e o fascínio das ruínas romanas ou gregas, é a mesma escala. Havia ali civilizações de uma sofisticação inacreditável.

Sem escrita?

Com alguma escrita nalguns casos, muito pouca, com uma tradição oral cheia de protocolos de transmissão de conhecimentos. A prática da matemática ajudava às mnemónicas das outras práticas do conhecimento.

Esteve em Tombuctu?

Nunca estive em Tombuctu porque no ano em que ia começou a guerra no norte do Mali. Estive várias vezes no Mali, em Bamako, e é fascinante. O rio e está cheio de pessoas que viajam para cima e para baixo, que tocam, passeiam. Todos os rios são um pouco assim, mas este em especial é de uma vitalidade e de uma respiração incríveis.

Já tínhamos no imaginário o Nilo, da História, mas o Nilo não é só o Egito.

Não, não é. São milhares de quilómetros e é muito diverso. Um bocadinho mais abaixo, nasceu a humanidade. Nas primeiras mitologias africanas, os egípcios são os fundadores de África, ainda antes dos negros, o que revela a enorme sofisticação dessa civilização. Há um conjunto de lendas maravilhosas. Por exemplo, que os quatro rios nasceram no mesmo ponto, aliás nasceram na Lua, desceram e dividiram-se. Isso diz bem da dimensão criativa.

No livro evoca os relatos de viagens dos primeiros exploradores, incluindo os portugueses. E depois escolhe quatro do século XX, muito diferentes mas com muito em comum.

Têm muito em comum e têm diferenças. O Pedro Rosa Mendes quer desde o início que África seja maravilhosa, tem um preconceito positivo de uma África onde ele viveu no período complicado da Guerra de Angola. Descreve o que vê de uma forma brilhante, mas quer que corra bem, que África sobreviva, que a guerra acabe, numa postura esperançosa e militante. O Gianni Celati, um escritor italiano, está ali um bocadinho como um dandy, maravilhado, com uma espécie de melancolia do colonizador – “um dia gostaria de vir viver para África porque estive dá de férias”. O Kapuscinski é o repórter de guerra, muito criativo como é sabido, mas esteve em dezenas de lugares.

Como se vê no mapa que mostra os lugares por onde passaram.

Kapuscinski acompanhou todos os processos de independência, da fase da esperança à deceção também, com as personagens tenebrosas que conhece, e outras menos tenebrosas, e a questão da doença. E o Paul Theroux, um grande escritor, parte com dois preconceitos. Tem uma expectativa porque foi professor nos anos 1960 no Uganda e portanto ia regressar, fica dececionado porque a casa onde vivera está destruída, habitada por uma pessoa que odeia e destrói tudo. Tinha contribuído, inclusive como militante, para a independência, e fica dececionado porque tudo acontece ao contrário, tal como na maior parte dos países, com a tomada do poder por exércitos mais ou menos sanguinários que pouco tinham a ver com a ideologia da libertação. A viagem dele é uma odisseia, do Cairo à Cidade do Cabo, de comboio, a pé, de autocarro. Tenta viver o quotidiano dos africanos e prefere as regiões naturais e rurais às cidades, porque acha que nas cidades dominam a corrupção e o banditismo.

A literatura de viagens é uma boa ferramenta de estudo?

É um campo de trabalho muito interessante. Foi um género literário considerado menor, foi preciso que os estudos de cultura viessem dar-lhe dignidade. Há experiências fantásticas, no passado como no presente. Descobri que há cerca de 60 “crusoeadas”, que são variações do Robinson Crusoe. Foi uma moda, de repente os escritores na Europa desataram a escrever à Robinson Crusoe. No século XVIII e depois no princípio do século XX, nasce o exotismo, um primeiro reconhecimento de que há uma diferença em relação aos outros. Da diferença à negociação cultural ainda vai um grande passo. Nos anos 1920 há mulheres aventureiras que vão para África viajar, à procura de um exotismo que tinha a ver com a Josephine Baker e as bananas, a dançar em Paris. Iam procurar esta selvajaria sensual em África.

Os relatos que analisa vão até 2002. Passados 15 anos, o que mudou?

Mudaram bastante os regimes, por exemplo. Hoje, na maior parte dos casos, há regimes democráticos em África, coisa que não acontecia há 20, 30 ou 40 anos, embora haja alguns casos bem conhecidos de regimes autoritários. Apesar de tudo, há a possibilidade de regimes democráticos que funcionam. A situação na África do Sul teve imenso impacto em toda a África subsaariana.

O fim do apartheid?

Sim. Contagiou tudo à volta. Há outro aspeto determinante para a autonomia e a liberdade dos africanos: o telemóvel. Podem não ter nada, mas o telemóvel possibilita-lhes ter emprego, ou empregos pontuais, ou serem chamados a prestar serviço. Há outro aspeto importante, com uma ambiguidade perversa. No colonialismo dizia-se que era o continente do ouro, do petróleo, dos diamantes. Hoje não se utiliza este vocabulário, diz-se que é o continente dos grandes recursos. Continua a ser o continente dos recursos naturais, onde ir buscar para alimentar o mundo inteiro, já não só a Europa mas a China e por aí fora. Simultaneamente, isso permitiu evolução em algumas economias, dependendo das organizações sociais, dos empresários e das pessoas com maior sentido de justiça que podem marcar uma diferença em relação ao passado. Os parlamentos começam a ter importância em África, o que é determinante. E há esta coisa extraordinária de um conjunto de escritores reconhecidos nos fóruns internacionais, sobretudo na Nigéria, com Wole Soyinka, Nobel da Literatura, Uzodinma Iweala, Teju Cole, Chinua Achebe, Chimamanda Ngozi Adichie e, acima de todos, Chinua Achebe, o fundador da literatura nigeriana de expressão inglesa.

Nas artes plásticas, na dança e no teatro também?

Há um conjunto de artistas notáveis. Nesta última temporada, Paris e Londres estavam cheias de exposições de artistas que vivem ou são de África. Isto é novo e é determinante. Nollywood, na Nigéria, disputa com Bollywood o segundo lugar do estúdios de cinema. Fazem filmes em três dias.

Que tipo de filmes?

A maior parte das vezes de terror, feitos por realizadores locais. Por vezes os atores mudam a meio do filme porque arranjam melhor emprego no filme ao lado. Mas a função principal destes filmes é a ligação da diáspora ao país de origem. É um cinema de entretenimento básico, rústico, com narrativas absurdas, mas alimenta uma indústria local e desenvolve aspetos técnicos. Em Uagadugu, capital do Burkina Faso, há um festival de cinema, indispensável para se acompanhar o cinema africano experimental, de animação, ficção científica, que não passa por Cannes nem Veneza. A África do Sul tem uma grandes indústria cinematográfica, tal como Marrocos que tem uma grande escola de cinema. Há fotógrafos extraordinários na Etiópia. Há imensas coisas a acontecer e há sempre uma energia muito positiva.

São situações consolidadas?

Tudo pode regredir, mas o mesmo se passa na Europa e nos EUA. A África do Sul foi um modelo, no tempo do Mandela e a seguir, e hoje está numa situação catastrófica.

Há avanços na educação?

Muitos responsáveis políticos tiveram formação no exterior e depois acharam fundamental que os países tenham sistemas de educação, de produção de conhecimento, e investem nisso. Há hoje universidades em todos os países, ou na maioria. Não esqueçamos que o continente africano é profundamente jovem, quase 70% da população é bastante jovem, o que é um potencial enorme para o futuro. Estes jovens apropriaram-se dos meios da tecnologia de comunicação e comunicam entre si com enorme facilidade. Eles próprios desenvolvem sistemas, redes, browsers, nalguns casos em parcerias internacionais, para que os custos sejam mais baixos, acessíveis à maioria dos cidadãos. E isto é muito importante, até porque existe uma grande desigualdade entre os países, e entre as zonas rurais e as grandes cidades países.

Quais são os países mais pujantes?

Os que não tiveram muitas guerras, pois estas destruíram tudo. Mas podem ser pujantes e isso não corresponder a uma distribuição justa de economia. Angola é um país pujante, mas tem uma percentagem absurda de pessoas que vivem abaixo do que seria mínimo. A África do Sul, um país central na economia da região, atravessa uma crise profunda e as desigualdades agravam-se. E há outros países com menos problemas de guerras internas que foram os primeiros a estabelecer alguma normalidade de regime e de distribuição. Podem não ser os mais pujantes, embora todos tenham petróleo, ouro, minerais, lítio – tão necessário à indústria de telemóveis. O Senegal, por exemplo, é um país muito interessante, a Costa do Marfim também, onde há um investimento na economia que corresponde à ultrapassagem de uma situação de pobreza generalizada.

A divisão das fronteiras da Conferência de Berlim (1884/5) pode ter provocado um retrocesso ou, no mínimo, um bloqueio, por baralhar todas as ligações entre as tribos e criar fronteiras irreais?

Absurdas, artificiais

Isso hoje ainda se sente?

Era preciso saber em detalhe como evoluíram depois as comunidades que foram separadas. E nesse aspeto há outras componentes importantes que foram as tragédias – ou por motivo de catástrofes naturais que destruíram populações e plantações, provocaram fomes e epidemias – que obrigaram a grandes migrações no interior de África. Agudizaram de uma forma mais grave as cisões que já vinham da herança de Berlim, noutros casos levaram a reagrupamentos. Neste movimento novo de pensar e investigar sobre o passado, alguns teóricos sul-africanos têm uma posição mais relativa em relação a essa divisão da Conferência de Berlim. Foi uma tragédia, de facto, pela posição em si – vamos dividir África por nós, a régua e esquadro – mas há teóricos que dizem que nalgumas situações havia conflitos latentes e permanentes entre várias nações que ajudaram na definição de algumas fronteiras. Não foi só régua e esquadro, foi também fruto de algumas divisões internas que havia nalgumas nações africanas.

Quando começou a viajar para a América Latina, procurava o mesmo que em África, uma cultura repensada, reconstruída?

Eu não vou propriamente à procura. Viajar para mim foi sempre um modo de estar. Acontece que as viagens coincidiram com tarefas que fui tendo, como investigador e como programador. Juntava a curiosidade da viagem com o facto de ir conhecendo o que acontecia. Depois sim, começa-se a procurar outras coisas.

Ia com uma ideia pré-concebida?

Parte-se sempre com um preconceitos, expectativas positivas ou negativas. Em relação a África, sim, porque tinha lá vivido quando era novo, tinha uma ideia de África. Sabia que não era como eu tinha vivido, não era possível. Não tive deceção nenhuma, embora haja situações que ainda hoje são dramáticas e que seria desejável evitar. No caso da América Latina, as primeiras viagens que fiz foram para o Brasil de férias, como todos os portugueses no final da década de 1980, princípio de 1990. Nós não conhecíamos nada do que se passava no Brasil, na América Latina. Sabíamos vagamente o que as novelas traziam, portanto uma representação do Brasil. Tínhamos informação dos movimentos de esquerda latino-americanos e das ditaduras, mas tudo muito nebuloso, não sabíamos bem o que tinha acontecido. Ao longo das minhas múltiplas viagens e estadias, descobri um continente também muito diversificado. Temos de perceber que os países e as pessoas são diferentes, a diversidade é enorme. A Venezuela não tem nada a ver com a Argentina, Cuba não tem nada a ver com o Brasil.

Mesmo sendo próximos?

Mesmo sendo ao lado. Aliás existem tensões entre eles. Não há reunião de cúpula entre a Bolívia e o Chile que a Bolívia não reclame o seu pedaço de terra que o Chile lhe roubou há não sei quantos anos, porque querem ter acesso ao mar. O Brasil acha que é um continente dentro de um continente, e portanto, passe a expressão, não liga nada aos vizinhos, e os vizinhos ligam-lhe pouco. O processo da América Latina é muito interessante para um estudioso mas muito desgastante e dramático. Depois das ditaduras horrorosas que tiveram, em que morreram e desapareceram tantas pessoas, houve um período de libertação, democracia e esperança, com investimento na educação em vários países. Hoje a maioria dos países virou para regimes neo-liberais, com efeitos imediatos nas condições de vida das pessoas. Eles também são, de outra maneira, paióis da China e dos Estados Unidos, vendem as suas matérias-primas e em situações de crise sofrem imediatamente um reflexo nas economias locais.

Como vê situações tão perturbadoras como as do Brasil ou da Venezuela?

É incompreensível que num país extraordinário como o Chile, com gente tão profissional e competente, a reforma notável na educação feita no ano passado tenha tido como consequência uma baixa da popularidade da Michele Bachelet, porventura uma das grandes personagens política do século XXI. Adalberto Alves, um grande sociólogo brasileiro, disse-me que todas as grandes análises da sociologia depois de 2007 não funcionam.

No Brasil?

Em toda a América Latina. Até 2007, havia grelhas de análise que funcionavam – políticas, sociológicas, etc – e hoje não servem para nada, há uma mutação completa a todos os níveis. Temos que olhar de outra maneira, aprender a lidar de outra maneira. É incompreensível a Venezuela, onde a população está toda contra uma figura autoritária. Isto há 30 ou 40 anos percebia-se, numa lógica de ditadura, mas hoje não, sobretudo porque há toda uma tecnologia da comunicação, houve investimento na educação, há práticas de cidadania que são conquistas das pessoas. Os intelectuais sul-americanos tiveram um papel muito importante porque aquilo que os africanos estão a tentar fazer já aconteceu com os intelectuais latino-americanos que foram aos aztecas, aos maias, aos movimentos dos sem-terra, às ideologias das feministas sul-americanas buscar o que é passível de constituir as narrativas de cada um desses países da América Latina em relação ao futuro. Têm este corpus fantástico, têm todo um conjunto de narrativas sobre, por exemplo, ecologia e ambiente que os índios trazem hoje. Finalmente percebeu-se o que era o “saber bem viver”, um paradigma de funcionamento ecológico retirado das nações índias que tem hoje uma aplicabilidade porventura mais eficaz que muitas das teorias ambientais. Têm isto tudo, e de repente os países não funcionam, ou funcionam mal. Porque de facto houve uma apropriação dos grandes grupos financeiros.

É esse o problema?

É este o problema de fundo, a globalização financeira.

Em África também?

África também, naturalmente. Aliás as ligações são muito comuns.

Por que escolheu estudar filosofia?

Tinha que ser.

O que trouxe da filosofia foi a capacidade de pensar as coisas?

Saber formular bem as perguntas é o que de essencial se aprende em Filosofia. Porque qualquer investigador tem de ter curiosidade, tem de estudar muito, tem de ler muito.

Juntou a isso uma grande capacidade grande de observação. Quando viaja por África, pela América Latina… devo continuar a dizer América Latina?

América Latina e uma invenção do século XIX. Do México para baixo, a América era fundamentalmente hispânica e lusófona. Acontece que os franceses tinham três colónias pequenas na América Central e disseram que aquilo não podia ser uma coisa ibero-americana, tinha que ser mais do que isso. E como tinham essas três colónias e eram latinos, resolveram a coisa através de um manifesto dos intelectuais do século XIX que disseram “isto é a América Latina”. É simples.

Da filosofia trouxe então a capacidade de formular as perguntas mas depois juntou-lhe a capacidade de observar, no sentido de que é capaz de reformular uma ideia preconcebida, não fica agarrado à ideia com que partiu?

Observar deve ser uma combinação de disponibilidade de espírito das pessoas, mas também se aprende em filosofia. É comum ter preconceitos, é inteligente rever os preconceitos quando a realidade nos confronta com o erro. Aí não é necessário ser da filosofia, é ter bom senso e ser inteligente.

Depois de ter construído a Culturgest, de ter feito na Gulbenkian vários programas culturais internacionais, tem projetos?

Não. Faço parte de um grupo de investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Estudamos nesta altura uma coisa chamada “pós-memória e filhos do império”, ou seja, a segunda e terceira geração de filhos do império, pessoas que estiveram nas colónias ou fizeram as guerras coloniais, de um lado ou de outro. Ou que estiveram envolvidos nas independências da Argélia e do Congo, porque o projeto abrange três países – França, Bélgica e Portugal. Qual o contributo que essa segunda e terceira geração – não os protagonistas – tem hoje para a reformulação da Europa? Como investigador, continuarei a fazer isso, é o que eu tenho como projeto.

Continua ligado à criação artística?

Sim, gosto muito de fazer, aprendi a fazer isso. Aprendi ao longo dos anos e sobre isso trabalhei imenso. Dá imenso trabalho estudar, informar-se, estar atualizado, manter relações de produção com as pessoas, sobretudo quando se trabalha a uma escala tão internacional como sempre fiz. No caso da e Lisboa Capital Ibero-americana 2017, houve muitos dias durante a organização e conceção do programa em que eu tinha que estar acordado até às duas da manhã para fazer skypes com o México ou com a Colômbia. Nos horários de inverno são quatro e seis horas de diferença para trás. Isto implica também um esforço físico. Eu acho que aprendi isso e que essa experiência é importante, tento partilhá-la. Às vezes canso-me, confesso, acho que acontece em todas as atividades. Mas quero sobretudo partilhá-la e já tenho conseguido que haja outras pessoas que possam beneficiar da minha experiência, dá-me prazer que isso aconteça, oxalá que sim.

No programa da Capital Ibero-americana 2017, o que realça nos próximos meses?

Entramos no segundo semestre e temos dois colóquios imperdíveis, digo isto consciente do que estou a dizer. Uma é o seminário internacional Ditadura e Democracia – transições e políticas da memória no espaço ibero-americano, um encontro de investigadores destes temas que tem o contributo de um dos instrumentos fundamentais para que não haja esquecimento, os diretores dos museus das memórias da América Latina, que tem a ver com como superar as ditaduras. Não são sarcófagos das ditaduras a lamentar os fascismos. Isso vai ser organizado pelo Museu do Aljube mas vai acontecer no Teatro S. Luiz, que é maior, a 28 e 29 de outubro. A 2 de dezembro haverá o último colóquio, uma espécie de síntese do pensamento de todo o ano. Chama-se Falas da e sobre as Américas. São dois seminários muito importantes.

Pode destacar também algo do programa cultural, do seu ponto de vista pessoal?

Nas artes, é sempre difícil destacar, mas há duas exposições. Uma chama-se Obras da coleção de Arte Contemporânea “la Caixa”, na Cordoaria Nacional, e tem a ver com o fenómeno das migrações e da circulação de pessoas, ou voluntárias ou obrigadas, no caso dos refugiados, são trabalhos de artistas comprometidos. Abre a 8 de setembro. E Atlântico vermelho, exposição de Rosana Paulino, sobre a questão da mulher e da negritude, da história do Atlântico negro, que vai ser no Padrão dos Descobrimentos, transformado num equipamento iconoclasta – só lá têm aparecido coisas nesse sentido. E depois há teatro e há danças. Gosto muito da coreógrafa uruguaia Tamara Cubas que vai estrear em setembro no Teatro S. Luiz, três obras sobre a antropofagia, um tema que dá identidade aos sul-americanos, em especial aos brasileiros. Do meu ponto de vista, ela é uma das maiores coreógrafas da atualidade. Mas há muitas coisas até dia 16 de dezembro, dia em que acabará com uma grande festa.

http://www.dn.pt/artes/interior/africa-tem-pujanca-criativa-na-ciencia-nas-artes-na-politica-ha-uma-ideia-de-futuro-8714368.html

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