Inimigos em Xangai e aqui tão perto, 02/09/2025, por Henrique Burnay, in Jornal Expresso

A ordem internacional das últimas décadas tinha, na nossa perspectiva europeia e ocidental, três grandes virtudes: assentava em regras, instituições e valores (todos frequentemente desrespeitados, mas considerados o padrão); promovia o crescimento económico global; e era dominada por nós, os ocidentais, e pelo capitalismo democrático, o nosso modelo económico e político. A próxima, não sabemos qual será, mas todos os sinais apontam para outra, dominada por outros valores e por outros actores.

O encontro desta semana de alguns líderes do mundo não (e em alguns casos mesmo anti) Ocidental é um momento com simbolismo que foi facilmente sentido. Como no passado aconteceu a outros, vemos líderes globais reunirem-se sem nos incluírem nem nos terem em conta. E partilharem interesses opostos aos nossos.

 

No contexto geral do que se está a passar no mundo, o encontro desta semana da Organização de Cooperação de Xangai não é apenas mais uma reunião. Xi Jinping recebe Putin, que ameaça a segurança europeia, como amigo e aliado (depois de ter recebido António Costa e Úrsula Von der Leyen como estranhos); acolhe alguns parceiros regionais, como de costume, prometendo-lhes protecção e cooperação; e tem duas presenças especialmente importantes. Por um lado, Erdogan. Depois de tentar transformar a Turquia numa espécie de poder regional autónomo, o presidente turco está a posicionar o seu país como uma potência regional que negoceia com um e outro lado, sem escolher definitivamente o seu. Está na NATO, faz de conta que quer estar na UE e vai estando com a China e mais ou menos com a Ucrânia mas com a Rússia também. Enquanto o mundo se reorganiza, alguns países farão este jogo de barganha com as duas grandes potências. 

A presença da Índia representada por Narendra Modi é ainda mais significativa. Pressionada pelas tarifas trumpistas (que provavelmente têm menos que ver com a compra de petróleo à Rússia, como os Estados Unidos da América dizem, e mais com a ambição Nobel de Trump, diz o New York Times), a Índia, que ia ser o contra-poder regional preferido pelo Ocidente, está a aproximar-se ligeiramente da China e ainda mais perto do que já estava da Rússia.

O mais extraordinário, e preocupante, é que todos estes países se aproximam da China ao mesmo tempo que se afastam dos Estados Unidos da América, tanto quanto podem, e da Europa tanto quanto querem. Enquanto a Europa vê os americanos afastarem-se de si também. Resumindo, a China tenta fazer amigos, os Estados Unidos não se importam de perder os que tinham, e a Europa não consegue fazer novos (nem sequer com acordos comerciais que negoceia durante anos e demora outros tantos a assinar, como é o caso do acordo com o Mercosul). 

A Europa, que não existe porque não é uma, são 27 (ou 28, se contarmos com os britânicos), precisa de pensar em conjunto, antes sequer de agir. Precisa de acreditar que a sua relação com a América, para lá da Administração, é essencial, mas que com o resto do mundo também. É certo que o seu modelo político está em crise. As ondas democráticas do pós-Guerra Fria estão a rebentar. E que o seu modelo económico está a ser desafiado por uma espécie de capitalismo de Estado estabelecido na China e emergente nos Estados Undidos. Mas é o único modelo compatível com a Europa que temos: liberal, democrática e social. A alternativa é o regresso dos nacionalismos, da competição directa entre estados europeus e a disputa por velhos territórios e populações. 

A única hipótese dos europeus é uma compreensão partilhada da ameaça e uma consciência da urgência. E um sentimento comum, que não se produz em votações por maioria para esconder as objecções. A Europa, a que o Reino Unido pertence, é a casa das democracias liberais. Era importante que acreditássemos (leia-se, os eleitores acreditassem) nas suas virtudes, se queremos combater as alternativas que nascem, de um lado, à volta da China, e do outro por pressão da América. 

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