RAIVA E FALTA DE SENSO | Fernando Couto e Santos

Num dos livros mais interessantes da rentrée literária francesa intitulado Croix de cendre (Cruz de cinza) publicado pelas edições Grasset, o escritor Antoine Sénanque relembra através da voz de uma das suas personagens – uma das muitas que povoam o livro, entre as quais o conhecido Mestre Eckhart- um episódio elucidativo ocorrido em 1347 durante a batalha e o cerco de Kaffa (actual Teodósia na Crimeia) – batalha que, de acordo com alguns historiadores, pode ter estado indirectamente na origem da propagação da Peste Negra na Europa – que diz muito ainda hoje da perspectiva que alguns têm do sentido de justiça (ou falta dele) que deve presidir à vida humana. 

Ao cair da noite, um grupo de mulheres iludiu a vigilância e terá bloqueado uma das carroças repletas de corpos de soldados tártaros, falecidos, que foram deitados na rua. As mulheres terão mutilado o sexo dos soldados, colocando em seguida esses pedaços de carne amontoados na rua para assim serem queimados. Por que razão terão tido estas mulheres tão selvática atitude? Eram cristãs e acreditavam na eternidade, mas não estavam certas de que a eternidade respeitasse a sua vingança. Para exercerem qualquer castigo, não tinham confiança em ninguém, nem sequer em Deus. Quando os inquisidores desenterravam os ossos dos hereges para os queimarem em fogueiras públicas, faziam-no para prolongar a punição porque receavam, como as mulheres de Kaffa, que, podendo Deus ser bondoso, a simples morte entravasse o que consideravam erradamente ser a justiça. A personagem do romance acrescenta: «o mundo é povoado por implacáveis. São eles os hereges». 

Esta situação vem a propósito dos tempos turbulentos que vivemos. Passaram muitos séculos sobre o episódio descrito, mas se se conseguiu, com a inteligência e a acção do homem, avançar ao longo dos tempos em termos científicos e tecnológicos, bem como na consciência dos direitos cívicos, em liberdades e garantias jurídicas, ainda convivemos relativamente bem, apesar da indignação que manifestamos – por vezes, selectiva, é preciso dizê-lo –, com a barbárie. Derrubam-se pontes de diálogo. Todos se comprazem na sua quase deliciosa trincheira como se a sua posição relevasse de uma qualquer superioridade moral que, a existir, como já aqui afirmei numa outra crónica, não é vitalícia, mas conquista-se e renova-se com os compromissos que se assumem a cada momento. Tanto se queixaram das posições consensuais e de presumíveis compromissos moles que, agora, à boleia das redes sociais, muitos se alimentam do sectarismo das próprias ideias que defendem, como se tudo fosse a preto e branco e como se as manipulações ou as chamadas «fake news» nunca existissem do lado que defendemos ou pelo qual nutrimos maior simpatia, aquele que, em boa verdade, nos parece o mais justo. 

Entretanto, na Europa, velhos demónios parecem regressar, nomeadamente o anti-semitismo de antanho – terá alguma vez desaparecido? -,assim como outras discriminações mais específicas dos tempos actuais. Pessoas são estigmatizadas, verberadas, silenciadas pelas suas opções políticas, religiosas ou simplesmente pela sua origem étnica. Ou tão-só por terem dito algo que não era conveniente dizer na conjuntura actual, algo que era politicamente incorrecto. Algumas dessas exclusões são a justo título denunciadas, mas por alguns que criticam essa exclusão quando atinge os que professam as ideias que abraçam, mas não quando os promotores da exclusão são aqueles que apoiam.

É evidente que ninguém contesta o direito de cada um a ter a sua opinião e as suas convicções, mas ainda que consideremos que as nossas opções são as mais justas, não nos podemos ufanar de possuir, por isso, uma qualquer superioridade moral sobre os outros, muito menos, como acima referi, a título permanente. Há maneiras de defendermos a nossa opinião – e com convicção e espírito de persuasão – sem ofendermos os outros e sem nos julgarmos detentores de verdades absolutas, até porque, como escreveu Jorge Luis Borges, os actos dos homens não merecem nem a fogueira nem os céus. Ao reproduzir esta reflexão do génio argentino, acode-me à mente uma situação que vivi há mais de uma quinzena de anos – que prova que a forma, consoante o interlocutor, ajuda ou desajuda a transmissão do conteúdo – quando, esperando por um autocarro numa paragem junto à escola da periferia de Lisboa onde leccionava na época, se me acercaram duas senhoras de alguma idade fazendo proselitismo para uma qualquer igreja evangélica. Uma das senhoras falou de forma calma, tolerante e com alguma simpatia, mas a outra, revelou intolerância e fanatismo, dizendo – me, perante a discordância que educadamente manifestei em relação à sua mensagem: «depois, não se queixe se, no final da etapa, não for na barca!». 

Lutemos, pois, por aquilo em que acreditamos, mas no respeito pelas opiniões alheias e nunca deixando portas fechadas…

Retirado do Facebook | Mural de Fernando Couto e Santos

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