As cinco causas do Presidente Seguro, por Ascenso Simões in Expresso

A forma ampla e cuidada como abordou as questões da habitação, da saúde, da segurança, da sustentabilidade, da água e da energia, da educação, das pensões, da natalidade e da coesão, escreveram um quadro exato, até cru, da realidade que vivemos

O Presidente eleito pelos portugueses não precisa de provar nada a ninguém, não está na banca de exames onde um conjunto de lentes insuportáveis concede o direito à entrada nos céus. Numa democracia, o voto do povo é o que valida as condições exigidas para o cargo, é o que releva para o exercício de um mandato.

Confesso que António José Seguro me tem surpreendido no último ano. Todas as caricaturas que se tinham construído à volta da sua pessoa caíram, todas as manifestações de desprezo se revelaram motor de força e de carácter. Seguro é um Presidente diferente de todos os Seguros que tínhamos conhecido até 2014, confirmou-se na sua competência política, na sua visão do mundo e na sua leitura sobre os desafios que se colocam a Portugal.

O seu discurso de tomada de posse constituiu-se na assinatura do mandato e revelou-se em cinco causas que vão nortear a sua magistratura. Um Presidente, por ser o único órgão de soberania sem tutelas, deve ser o mais claro que lhe for possível, o mais simples que permita fazer chegar a menagens as todas as portuguesas e a todos os portugueses.

1ª causa – Dar força aos jovens

Atravessou todo o discurso a preocupação com as novas gerações, com o mundo desafiante em que estamos a começar a viver, a forma como os mais jovens são liberdade e coragem.

As gerações do digital, todas já sem os discursos revolucionários nas suas cabeças, olham para o futuro esperando que o país não seja mesquinho, que o Estado não seja castrador, que o território não seja limitado por fronteiras.

Diz Seguro: “Trago-vos uma palavra e esperança. Acreditem em Portugal. Na minha visão de Portugal, todos contam e cada um tem um papel a desempenhar. É urgente recuperarmos o sentido de comunidade e restaurar o nosso chão comum que nos permite viver em harmonia uns com os outros. Onde cada geração acrescente qualidade de vida à geração de seus pais.”

2ª causa – Cuidar dos mais velhos

O forte sentido social de Seguro foi uma das marcas de água da comunicação de posse. Os mais velhos, que não raramente são os mais frágeis e mais dependentes, não podem se esquecidos pelos poderes públicos, não podem ser relegados para a invisibilidade.

A garantia de vidas mais longas com qualidade e felicidade deve obrigar o país a estratégias de longo prazo, a consensos alargados sobre políticas sociais e de pensões.

Diz Seguro: “Serei um Presidente próximo das pessoas, que escuta e compreende as suas preocupações. Estarei atento às desigualdades e comprometido com a justiça social e a dignidade humana. Serei exigente com as instituições e com os responsáveis políticos sempre com o intuito de melhorar a vida dos portugueses.”

3ª causa – Potenciar as competências

Não há desenvolvimento sem uma economia pujante, sem empresas dinâmicas e sustentáveis que paguem melhores salários e concedam condições mais dignas a quem entregue inteligência e força de trabalho.

As empresas, enquanto espaços de construção de um país moderno, precisam de menos burocracia, de menos entraves ao investimento, de menos limitações no licenciamento. Os trabalhadores precisam de um país que não os trate como mercadoria, que lhes conceda um valor que nunca se pode equiparar, por ser superior, ao do capital ou do risco.

Diz Seguro: “(…) Portugal enfrenta desafios estruturais que se arrastam há tempo de mais: crescimento económico insuficiente, economia baseada em baixos salários (…) falta de mão de obra (…). Infelizmente uma enumeração demasiado longa e pesada.”

4ª causa – Consagrar uma nova dimensão do Portugal de Abril

A forma ampla e cuidada como abordou as questões da habitação, da saúde, da segurança, da sustentabilidade, da água e da energia, da educação, das pensões, da natalidade e da coesão, compuseram um quadro exato, até cru, da realidade que vivemos.

Não se trata de olhar para uma desgraça, porque o país mudou de forma impressionante nas últimas décadas, mas de uma lista de prioridades que se assume como uma obrigação para sairmos do estado de depressão em que nos encontramos.

Diz Seguro: “ (…) vivemos num mundo interdependente, há outros desafios que só podem ser enfrentados em conjunto com os nossos parceiros. A segurança, a estabilidade económica, a sustentabilidade ambiental, a transição energética, a regulação das novas tecnologias (…) exigem cooperação internacional.” “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para melhorar a qualidade de vida dos portugueses, Empenhar-me-ei para que se consiga garantir aos portugueses o acesso à saúde a tempo e horas.”

5ª causa – Cuidar da democracia e dar voz a Portugal no mundo

Descrispar a vida pública e aprofundar a democracia foram marcas que atravessaram a comunicação do novo Presidente. Confirmou a nossa política externa de sempre assente no espaço atlântico, no espaço europeu e no espaço da língua portuguesa. Reafirmou a diáspora como Portugal existindo onde exista um português. Assentou a nossa política na defesa do multilateralismo e da concórdia entre os povos. Elevou as Forças Armadas e de Segurança como elo central da soberania e frente avançada da paz no mundo.

Diz Seguro: “A história recente revela que em muito pouco tempo se destrói o que foi construído em séculos. Que, poucos, estão a demolir um marco civilizacional resultado do contributo de muitos. Acreditávamos na solidez das instituições e na resistência do nosso sistema de valores. Um engano. Num instante esses pilares estão a ser desmoronadas.” “Portugal tem de participar no aprofundamento da construção europeia, com maior integração política, decisões mais céleres, economia mais competitiva, convergência social, crescente autonomia estratégica na defesa e na energia e com capacidade para proteger os seus cidadãos sem abdicar dos seus princípios.”

Seguro inicia agora a sua caminhada. Tem uma agenda assente nestas cinco causas. Saiba interpretar o país e os anseios dos portugueses e saiba falar para que a sua palavra seja ouvida. Precisamos de um Presidente que refaça o peso simbólico da função e que não seja promotor de instabilidade permanente. Seguro é o Presidente da esperança.

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