Ucrânia e Irão. Duas faces do mesmo projeto, por Carlos Branco, Major-General – 19 Mar 2026 – Jornal Económico

Como na Ucrânia, em que os interesses de Washington não coincidiam com os de Kiev, também na guerra que opõe os EUA ao Irão, os interesses de Washington não coincidem com os de Telavive. Tanto num caso como noutro, o comportamento norte-americano encontra-se subordinado à consecução de uma grande estratégia de hegemonia global, não abandonada pela Administração Trump, enquanto o da Ucrânia e de Israel insere-se numa estratégia de âmbito local e/ou regional.

Na Ucrânia, os EUA pretendiam desencadear uma mudança de regime em Moscovo e instalar uma liderança dócil no Kremlin, atuando em três vetores: vertente económica, através das sanções, tornar a Rússia um estado pária, isolando-a internacionalmente, e impor-lhe uma derrota militar, recorrendo ao sangue ucraniano, sem colocar soldados norte-americanos no terreno. Segundo Eric Green, membro do Conselho de Segurança Nacional durante a Administração Biden, numa entrevista à revista Time, “a vitória militar da Ucrânia não era um objetivo para Washington”. O objetivo norte-americano era provocar um desgaste prolongado e uma erosão na sociedade russa, que a fizesse soçobrar e assim atingir os seus objetivos.

Agora, enquanto Israel pretende decapitar o regime iraniano e colocar em Teerão um vassalo que lhe permita tornar-se na potência regional fazendo dos estados árabes entidades subordinadas – o que esteve quase a conseguir antes do 7 de outubro, uma vez estar a causa palestiniana adormecida e a Autoridade palestiniana num estado comatoso – com o ataque ao Irão, os EUA pretendem controlar o petróleo mundial e os principais choke points (rota do Ártico, Canal do Panamá, estreito de Ormuz) para controlarem as rotas comerciais e subordinarem os seus rivais à sua vontade, entenda-se, China e Rússia.

Por isso, Pequim e Moscovo não podem deixar cair o Irão, que joga aqui um papel extremamente importante. A sua queda garantiria aos EUA o controlo mundial do mercado do petróleo, dada a posição dominante que iria adquirir, como aniquilaria os esforços da China e da Rússia utilizarem o território iraniano para se furtarem aos choke points e ao controlo norte-americano dos mares: a Rússia através do Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul, de S. Petersburgo até Bombaim, passando pelo porto de Bandar-Abas, no Irão; e a China através de um corredor da sua “Faixa uma Rota”, de Kasghar na China, a Istambul na Turquia. O Irão ocupa uma posição estratégica central na rota terrestre, que liga a China à Europa e à Ásia Ocidental.

É crucial ter esta “nuance” em consideração porque, em função disso, os níveis de compromisso de uma e de outra parte diferem. É razoavelmente consensual admitir que Washington se terá envolvido nesta guerra com o Irão indo a reboque de Telavive. Isso mesmo foi afirmado pelo secretário de estado Marco Rubio e pelo presidente da câmara dos representantes Mike Johnson. Haverá certamente algum fundo de verdade nessas afirmações, mas o ataque ao Irão feito pelos EUA, embora inserido numa operação militar de interesse para Israel, enquadra-se na mesma lógica da guerra na Ucrânia, do controlo do regime na Venezuela, e das ambições territoriais na Gronelândia.

Não será por acaso que a falcão Hillary Clinton veio, numa entrevista ao programa 60 minutos, tecer loas a Donald Trump elogiando-o pelo ataque ao Irão, provando que, apesar das nuances, a política externa dos EUA é verdadeiramente bipartidária. Tanto democratas como republicanos servem a mesma oligarquia dos negócios. Ambos subscrevem o mesmo projeto de hegemonia global.

Donald Trump preparava-se para ir a Pequim no final de abril com a situação no Irão esclarecida, qual Julio Cesar a entrar em Roma após uma vitória militar retumbante, humilhar o presidente chinês Xi Jinping lembrando-o da sua dependência do crude iraniano, de onde a China importa cerca de 13% das suas necessidades. Se Pequim quisesse continuar com a venda de terras raras suspensa, de que os EUA tanto necessitam, teria de fazer cedências. Como os seus desejos não se vão concretizar, cancelou a visita porque é elevada a possibilidade de vir a ser ele o humilhado.

A campanha iraniana está longe de correr conforme o planeado podendo tornar-se não só num pesadelo para Trump, mas também no toque de finados no projeto hegemónico norte americano. A falta de esclarecimento levou Trump a empenhar-se decisivamente no Médio Oriente, quando a Ásia e a China eram as suas prioridades estratégicas declaradas. Nesta altura, já se fala em pedir ao Congresso cerca de $200 mil milhões para manter a operação.

Após três semanas de guerra, ficou claro que Washington não foi capaz de garantir a proteção dos Estados do Golfo Pérsico, em conformidade com os compromissos securitários assumidos com eles, não garantiu a expectável liberdade de circulação marítima no Golfo – os seus navios retiraram-se para parte incerta – teve de recorrer aos sistemas THAAD que se encontravam estacionados na Coreia do Sul, deixando desprotegidos os seus aliados na Ásia, que nesta altura estão muito céticos relativamente à capacidade dos EUA lhes conferir proteção. O mesmo se estará a pensar em Taipé. Trump destruiu o estatuto norte-americano de protetor securitário dos seus aliados em todo o mundo.

Os dois porta-aviões deslocados para a região mostraram grandes vulnerabilidades operacionais, um deles, o maior do mundo, teve de se retirar para a Grécia, devido alegadamente a um incêndio. O dispositivo militar norte-americano no Médio-Oriente foi atacado pelo Irão, algo nunca visto, encontrando-se praticamente destruído. A sua recuperação vai demorar muito tempo. Os seus rivais não voltarão a olhar para os EUA da mesma maneira. Para além de ser uma derrota pessoal, com as já notórias consequências internas, esta campanha arrisca tornar-se numa derrota estratégica formidável que poderá subverter e colocar em causa o projeto hegemónico norte-americano.

(Carlos Branco, Major-General – 19 Mar 2026, 18:08 – jornal económico)

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