Biden, o pacificador, é eleito 46º Presidente dos Estados Unidos | in Revista Visão

America, I’m honored that you have chosen me to lead our great country.

The work ahead of us will be hard, but I promise you this: I will be a President for all Americans — whether you voted for me or not.

I will keep the faith that you have placed in me. 

Foi uma luta de nervos e a mais longa e renhida desde o ano 2000, nas eleições que opuseram George W. Bush a Al Gore. Mas, apesar dos vários processos judiciais que o exército de advogados de Trump tem estado a entregar, a presidência certamente não escapará ao antigo vice de Obama – os analistas políticos e jurídicos dão pouco crédito à possibilidade de serem bem-sucedidos.

Mesmo sem contar com a Geórgia, que terá uma recontagem, nem com Arizona e Nevada, que ainda não terminaram de contar os votos, a vitória do Democrata está assegurada, e logo pelos resultados num estado que deu o maior amargo de boca a Hillary Clinton há quatro anos: Pensilvânia. Só com este, Biden assegurou 273 votos do Colégio Eleitoral, ultrapassando a fasquia necessária de 270. Se se confirmar a vitória também na Geórgia, no Arizona e no Nevada, Joe Biden passa para 306 votos. Em 2016, Trump venceu com 304.

O presidente eleito será o mais velho de sempre, na História dos EUA, celebrará 78 anos no próximo dia 20, e vai tomar posse dois meses depois, numa cerimónia à qual já se diz que o atual inquilino da Casa Branca deverá faltar devido ao seu notório mau-perder. Sem prejuízo das recontagens e conflitos judiciais, a vitória de Biden é a maior de sempre nos sufrágios presidenciais do país: mais de 74 milhões de votos, batendo o seu rival nestas eleições por mais de 4 milhões – Hillary tivera igualmente mais 2,8 milhões do que Trump há quatro anos.

O caminho de Joe Biden para aqui chegar, no entanto, não foi fácil.

Uma vida pessoal dura

Com praticamente 50 anos de carreira política, Joe Biden diz-se mais do que preparado para “unir os norte-americanos” e travar a “batalha pela alma da nação”. O seu adversário passou a campanha a chamar-lhe “sleepy Joe” (Joe, o sonolento) e a acusá-lo de permanecer “escondido na cave de casa” por causa do novo coronavírus, mas Donald Trump, embora não o admita, sabe que o antigo senador do Delaware e ex-vice-presidente de Barack Obama é um animal político capaz de sobreviver a quaisquer contrariedades.

Quando ainda andava no liceu, Joseph Robinette Biden Jr. era gozado pelos colegas por causa da gaguez e por ter uma enorme dificuldade em pronunciar os seus apelidos. Só que o “bye-bye”, como lhe chamavam, aprendeu depois a recitar os poemas de W.B. Yeats em frente ao espelho, inspirando-se também em Demóstenes, o grande orador ateniense do século IV a.C. – que sofrera do mesmo problema de fala.

No entanto, a maior provação de Biden ocorreu poucas semanas depois de ele cumprir o seu 30º aniversário. A 18 de dezembro de 1972, recém-eleito de forma surpreendente para o Senado – derrotando um experiente republicano que contava com o apoio do então Presidente Richard Nixon –, Biden foi informado, em Washington D.C., que a mulher e os três filhos tinham sofrido um grave acidente de automóvel, perto de Wilmington, cidade do estado do Delaware, onde a família residia.

Neilia Biden e a filha, de apenas 13 meses, acabariam por morrer, enquanto os dois rapazes, Beau e Hunter, escaparam com vida, mas com múltiplas fraturas. Inconsolável e deprimido, o jovem senador admitiu suicidar-se. A fé e a educação católica impediram-no de fazê-lo, ao mesmo tempo que decidiu não tomar posse do seu novo cargo, na capital do país, para ficar junto dos filhos – a questão seria resolvida com ele a jurar cumprir a sua missão, junto dos emissários especiais do Congresso, ao lado da cama dos miúdos, no hospital.

Cinco anos depois da tragédia, Biden voltaria a casar-se, com Jill Jacob, uma professora de Inglês divorciada, que lhe devolveu o gosto pela vida e pela política. Com um pormenor adicional: o ambicioso senador prometeu a si próprio que tinha de estar sempre perto dos seus e que iria, sempre que possível, dormir a casa em Delaware, mesmo que para tal tivesse de perder mais de três horas diárias na viagem de comboio entre Wilmington e Washington D.C. É graças a esta rotina que alguns dos seus pares e amigos, incluindo o republicano John McCain, lhe passaram a chamar “Amtrak Joe” (devido à companhia ferroviária).

Gafes e contradições

Em 1987, Joe Biden decide cumprir o sonho que alimentava desde o final do curso de Direito: candidatar-se à Casa Branca. A experiência correu mal. Viu-se forçado a desistir depois de o New York Times o acusar de plagiar discursos de Robert Kennedy, o irmão de JFK e antigo procurador-geral dos EUA, e de Neil Kinnock, o líder dos trabalhistas britânicos. O desgaste e o stresse dessa campanha acabariam, meses depois, por manifestar-se da pior forma. Dois aneurismas levaram-no à porta da morte, a tal ponto que chegou a receber a extrema-unção no mais conhecido hospital militar dos EUA, o Walter Reed, em Bethesda, no Maryland.

A sua recuperação demorou quase um ano, mas “Amtrak Joe” regressou aos seus afazeres parlamentares e, nas duas décadas seguintes, liderou dois importantes comités do Senado – o judicial e o dos Negócios Estrangeiros. No primeiro, distinguiu-se pelo contributo que deu às iniciativas legislativas de Bill Clinton – contra as armas automáticas e contra a violência doméstica; no segundo, tentou contrariar a fúria intervencionista de George W. Bush e dos neoconservadores, apesar de também ele, em 2003, ter votado a favor da invasão do Iraque para eliminar armas de destruição em massa e depor Saddam Hussein.

Quatro anos mais tarde, lança o seu livro de memórias e decide novamente entrar na corrida para a Casa Branca. Nas primárias, Hillary Clinton e Barack Obama não lhe dão hipótese. O senador do Illinois revelou até ser bastante magnânimo quando convidou Joe Biden para ser o seu vice-presidente. O candidato já conhecido pela sua tendência para gafes, boutades e afins, a 31 de janeiro de 2007, refere-se desta forma ao homem que conquistará depois a Casa Branca e o Nobel da Paz: “É o primeiro afro-americano mainstream articulado, brilhante, com boa aparência e bonito. É a personagem inspiradora para um livro.”

Estas declarações forçaram-no a apresentar desculpas a Obama e, ao contrário do que então se previa, a relação de ambos evoluiu para uma amizade que dura até hoje. Pelo meio, enfrentaram várias crises em conjunto e Biden era das poucas pessoas na Casa Branca que se podia dar ao luxo de discordar do commander-in-chief. Por exemplo, só em 2011, opôs-se à intervenção militar na Líbia que culminou na morte de Muammar Kadhafi, e também não aprovou o raid no Paquistão que ditou a morte de Osama bin Laden, com o argumento de que, em caso de falhanço, Obama jamais seria reeleito.

A sinceridade entre ambos fez igualmente com que a Sala Oval fosse testemunho de outro acontecimento traumático para o vice-presidente, a luta contra o cancro de “Beau” Biden. O filho mais velho de Joe faleceu em 2015, mas Obama chegou a oferecer-se para pagar os milionários tratamentos do jurista e herdeiro político do clã do Delaware, que morreu com 45 anos.

Biden sobreviveu a tudo, incluindo aos ataques sem escrúpulos de Donald Trump durante a campanha. O novo presidente tem agora a difícil tarefa de unir um país cortado ao meio. Mas poucos terão as armas dele para o fazer. Até um dos mais destacados republicanos e dos maiores apoiantes de Trump, o senador Lindsey Graham, parece concordar: “Se não admirarmos Joe Biden como pessoa, então muito provavelmente temos um problema. Como não gostar?”

https://visao.sapo.pt/atualidade/mundo/eleicoes-eua/2020-11-07-biden-o-pacificador-e-eleito-presidente-dos-estados-unidos/?fbclid=IwAR0TwZ-YRqtDk76DTDIlzmWzWtwmhNQf51gg_xMF-ClW_i_qz0Sp5L2TRgc

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