A conspiração dos imbecis: é preciso ser um idiota perfeito para ter sucesso na vida? | por Carlo Matos Gomes

A pergunta não é nada retórica. Há muitos especialistas em liderança, psicologia ou mesmo ciência política que o abordaram nestes termos ou em termos semelhantes. É claro que a resposta dependerá, em grande medida, do que entendemos por “idiota perfeito” e até que ponto consideramos que os narcisistas, incluindo os narcisistas matizados ou “humildes”, se enquadram na definição.

A pergunta do título do jornal El País caiu-me na sopa das reportagens e das capas de jornais em que a trepidante visita de Marcelo Rebelo de Sousa à Ucrânia surge como um fait diivers entre a saga de Trump com os tribunais e prisões dos EUA, as opiniões no vácuo de várias eminências de sucesso nos meios de manipulação sobre a morte do chefe do grupo militar Wagner, a disputa entre Elon Musk e Zuckberg, agora X e Meta, o embuste da substituição dos carros de motor a combustão por baterias elétricos para melhorar o ambiente, o despacho feito pelos governos europeus de aviões F-16, os mais modernos dos aviões obsoletos, para dar lugar à compra dos F-35, o mais caro dos obsoletos (nasceu assim) modernos, a título de apoio a Zelenski, a decisão da senhora Lagarde do BCE de subir as taxas de juro para resolver a crise da habitação, ou do chanceler alemão trocar o barato gás russo pelo caro americano e estranhar a estagnação da indústria alemã, até às pequenas coisas, as novelas do treinador do Benfica com um guarda-redes e de um administrador do Atlético de Madrid, uma empresa do ramo futebolístico, com o mais caro dos seus produtos, para não referir o beijo do chefe da Federação Espanhola de futebol a uma futebolista.

São decisões e atitudes de pessoas de sucesso, presidentes de Estados, de bancos, de grandes empresas mundiais. Como alcançaram este estatuto?

Moisés Ruiz, professor da Universidade Europeia e autor de vários livros sobre gestão e liderança, afirma: “há idiotas que têm sucesso, sem dúvida, e muitos deles enquadram-se na patologia que Sigmund Freud já definiu como narcisismo ”.

“O exemplo mais paradigmático me parece ser Elon Musk, que graças ao seu carisma, intuição e motivação, conseguiu ter sucesso com iniciativas como Tesla, mas agora está falhando miseravelmente no X/Twitter, porque seus sucessos iniciais acabaram aumentando sua egomania e o fizeram perder de vista o mundo”.

A “estranha década” que vivemos, com acontecimentos tão desconcertantes e perturbadores como a crise do coronavírus, fez-nos compreender que “não podemos colocar-nos nas mãos de falsos profetas, como Donald Trump, que vivem imersos na sua própria história e que criam as suas próprias fantasias.”

Embora o narcisismo seja um dos traços de personalidade que, juntamente com a psicopatia e o maquiavelismo, faz parte da chamada tríade negra, quem o possui, na opinião de Konstantinos Papagiorgiou, professor associado da Universidade de Belfast, “tendem a ser socialmente bem sucedidos, porque não são desencorajados pela rejeição e a sua necessidade de atenção pode torná-los encantadores e altamente motivados. Um narcisista sente-se “melhor” que os mortais comuns e considera que deveria ser “recompensado” por isso. “Se dispensarmos as considerações morais e nos concentrarmos apenas no sucesso”, o narcisismo é uma qualidade muito eficaz no sucesso pessoal.”

Steve Fishman, jornalista da The New York Mag, inclui na categoria de “idiotas” um espectro muito amplo de egomaníacos, vaidosos, individualistas, presunçosos e petulantes. Admite que tais indivíduos dominam posições de responsabilidade e liderança em sociedades democráticas de mercado livre, dominada por reality shows, redes sociais, política ou certos tipos de empresas. Em certo sentido, descrever os autopromotores incansáveis ​​como idiotas completos já é, para Fishman, um ato de resistência contra o narcisismo ambiental.

É o que aqui faço, deixando o link para o artigo. O artigo é ilustrado com as fotos de Elon Musk e de Trump, mas não faltam opções.

Carlos Matos Gomes

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