O MOTIM DE PRIGOZHIN | José Manuel Correia Pinto

Há quem defenda a tese de que o motim do Grupo Wagner, chefiado por Prigozhin, não passou de uma encenação destinada a criar o ambiente que permita ao Kremlin escalar o conflito, seja com nova mobilização de forças, seja mediante a utilização de outros meios e identificação de outros alvos.

Não me parece que esta seja a origem do motim.

Parece-me muito mais aceitável uma explicação mais próxima da realidade conhecida 

O Grupo Wagner, depois da vitória de Bakmut, não mais voltou a ter a autonomia com que até então actuou. Uma autonomia que desagradava às forças armadas convencionais e às chefias militares, estando por isso prevista a sua integração nas forças armadas como forças especiais, desde que os seus combatentes aceitassem ou para os combatentes que aceitassem o regime previsto.

Isto desagradava a Prigozhin  por várias razões. Antes de mais por razões financeiras, mas também pela perda de autonomia e de comando que tal integração acarretaria.

Depois de vários conflitos com as chefias militares e percebendo que não seria à mesa das negociações que os seus objectivos e reivindicações poderiam ser satisfeitos, Prigozhin achou que era chegado o momento de manifestar publicamente o seu desagrado mediante um amplo movimento de insubordinação das suas tropas, esperando com esse movimento colher a simpatia da população e de algumas chefias intermédias e unidades militares que igualmente advogam e defendem uma intervenção mais vigorosa das forças armadas russas susceptível de criar as condições que levem a uma vitória militar rápida que ponha termo à guerra.

Posto perante esta situação, Putin, considerando certamente todo o seu passado com o grupo Wagner, e tentando evitar um conflito entre russos, optou pela solução mais inteligente  e que menos dano pode causar – uma negociação, por intermédio de Lukashenko,  que leve, para já, ao exílio de Prigozhin na Bielorrússia e a um perdão a todos os que aceitarem integrar se nas fileiras do Exército nos termos que estavam sendo propostos, tomando, todavia, boa nota do pressuposto que publicamente foi apresentado como causa do conflito (o modo de condução da guerra na Ucrânia).

Ora, este ponto de vista – o ponto de vista publicamente defendido pelo chefe do Grupo Wagner – vai claramente contra aquilo que tem sido o modo de pôr em prática a estratégia de Putin: anexação do território situado a leste do rio Denipr, eventualmente tomar Odessa, se a derrota da contra ofensiva ucraniana levar à eliminação do seu exército, no quadro de uma intervenção militar CONVENCIONAL.

A partir de agora Putin e as suas chefias militares estão de certo modo “obrigados”, melhor dizendo, pressionados a utilizar outros meios, se a ajuda Ocidental continuar a aumentar em quantidade e qualidade, perspectivando -se, em consequência, uma espécie de congelação do conflito que possa levar a um armistício entre as duas partes.Por  outras palavras, uma espécie de Coreia na fronteira ocidental da Rússia, com algo parecido com o paralelo 38.

Como a Rússia não pode aceitar este desfecho, Putin como que foi empurrado pelo motim de Prigozhin a encontrar um desfecho rápido do conflito pelos meios que tem ao seu alcance, justificado pelo auxílio cada vez maior que o Ocidente presta à Ucrânia.

Acho, aliás, que foi isto que Putin quis dizer no seu último discurso. 

Nas mãos do Ocidente está, portanto, tentar encontrar de imediato uma solução construída com base na situação existente no terreno e de garantias quanto à posição da Ucrânia no xadrez político europeu. Ou aumentar quantitativa e qualitativamente a ajuda militar à Ucrânia, aceitando implicitamente o desencadeamento de uma guerra de outra natureza e com outra dimensão geográfica.

José Manuel Correia Pinto

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