O problema do Papa é a sua Igreja | Francisco Louçã | in Jornal Expresso

Cumprindo um festival concebido, como é tão notório, por João Paulo II, de cuja herança se quer afastar, o Papa Francisco veio aqui deixar mais uma mensagem do fim do seu pontificado. Entretanto, agitou-se o país e os sinais locais deste empreendimento têm sido comentados: o custo extravagante e especulativa, o financiamento público (que Espanha evitou), alegando-se que esta é a missão do Estado (queria ver o mesmo num festival muçulmano), a sátira de Bordalo II e a fatwa que sofreu, o frenesim político-eleitoral. Tivemos de tudo. Falta ouvir o Papa e saber o que nos diz sobre a sua Igreja. 

O  Papa mais popular

O Papa não é o mais popular pelo contraste com o seu antecessor, nem sequer só pela afabilidade que demonstra. Ele é querido por ter aberto as portas aos pobres, por ter condenado a finança “que mata”, por ter dado um passo de aproximação aos homossexuais e, sobretudo, por ter condenado a pedofilia praticada, ocultada e porventura cultivada em setores tão amplos da sua Igreja. Com argúcia política, tem vindo a nomear cardeais reformadores e alguns são personalidades culturais vibrantes. Meticulosamente, tem procurado mudar a doutrina e virá-la para o povo. Tem contra ele uma construção imponente que é o seu palácio, a Igreja Católica.

O cardeal Tolentino Mendonça, na sua “Metamorfose Necessária” (2022), em que analisa a figura de Paulo, apresenta uma explicação que ajuda a perceber o paradoxo de Francisco. Paulo, dez anos mais novo do que Jesus, que não deve ter conhecido, foi no entanto o primeiro contemporâneo a escrever sobre aquela pregação. As suas cartas primam pela ausências (não apoiam dogmas que depois seriam declarados fundamentais) e valem mais pelo que dizem, descrevendo a vida das primeiras comunidades cristãs. Essas comunidades eram assembleias que se reuniam na casa dos crentes (p.152-3). Não havia um poder sacerdotal, nenhum dos discípulos de Jesus se chamou sacerdote. O teólogo Veiga Torres (“Desafios aos Cristãos”, 2018, p.73, 84) sublinha o exemplo da assembleia de  Jerusalém, cerca de vinte anos depois da crucificação (e referida no Novo Testamento), em que esteve Pedro, mas presidida por Tiago, irmão de Jesus, que não fora seu discípulo. Algumas assembleias eram dirigidas por mulheres. Não se tratava portanto de uma nova religião, mas de um movimento de eclésias, ou assembleias. O padre Anselmo Borges (“Religião – Opressão ou Libertação?”, 2004) afirma o mesmo: Jesus não quis fundar uma igreja (p.157), nomeadamente por acreditar num horizonte apocalíptico da chegada iminente do Reino. 

Assim, só no século III se definiu uma ordem eclesiástica, consolidada pela intervenção política do imperador Constantino no século seguinte, ao impor o cristianismo como religião oficial de Estado e decidir sobre os seus conflitos internos. Foi o imperador, que não era batizado, que deu o ceptro à Sé de Roma, que convocou o Concílio de Arles (314) e presidiu ao Concílio de Niceia (325). Assim, coube ao poder temporal de Roma fazer a Igreja: o processo que instituiu o poder do Vaticano derrotou a tradição das comunidades de Jesus, afastou as mulheres, consagrou uma classe sacerdotal e submeteu-a ao interesse político, couraçado por dogmas que Jesus ignorou.

Uma história de infâmia

Ao longo de quase dois mil anos, este poder afirmou-se como uma treva. Esteve subordinado a imperadores e reis, favoreceu intrigas e guerras, promoveu o colonialismo e foi cúmplice do fascismo. Foi encabeçado por figuras sinistras: o Papa Sérgio III mandou assassinar os dois antecessores, o Papa Bonifácio VIII limitou-se a encarcerar o antecessor. Durante séculos, reinaram as conveniências nas nomeações: Bento IX, Papa por três vezes, a primeira das quais aos 14 anos, vendeu o seu título; o Papa Leão X foi cardeal aos 13 anos; João XII foi Papa aos 17 e Gregório V aos 24 anos. O dogma da infalibilidade papal é uma pantomina trágica. Mil anos depois, esse poder arrogava-se a representação divina por mandato direto e, ainda no primeiro terço do século XIX, a tradução da Bíblia em línguas nacionais era proibida, para preservar o poder sacerdotal; até à década de 1950, as freiras não podiam ler o texto sagrado.

A Inquisição para impedir as outras religiões ou o pensamento, o comércio das indulgências, a obsessão pelo controlo da sexualidade e a pedofilia não foram portanto patologias deste caminho, mas sim o resultado de uma história de poder que impunha a Igreja sobre o povo. Houve também neste longo  tempo luzes cintilantes, bispos que se opuseram à escravatura, homens e mulheres dedicadas ao respeito pelos outros, vozes pela liberdade de culto, padres que morreram nos campos de concentração e na resistência anti-fascista, tolerância que foi democracia, mas era contra aquele edifício majestoso que se batiam. Como escreveu o teólogo Alfred Loisy no início do século XX, “Jesus anunciou o Reino e o que veio foi a Igreja”. Diga-se como se disser, Francisco é respeitado por querer abalar tantos dos pilares dessa história de poder absoluto.

Conseguirá fazê-lo? Não. Roma e Pavia não se fizeram num dia, o Vaticano não se fez num milénio. Está nele incrustada uma cultura que, para além da crença religiosa, é uma potência. Vive do misticismo, como se vê, mas Francisco impõe-lhe um brilho que faz pensar. É o seu maior atrevimento e com ele quer mudar os pontos cardeais da sua casa. É o que lhe devemos.

(no Expresso)

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