Palestrina: Tu es Petrus, Frederico Lourenço

No mesmo ano em que, em Lisboa, era publicada a primeira edição de «Os Lusíadas» (1572), era publicada em Roma a colectânea musical de outro Luís, o maior génio musical que alguma vez pisou o chão do Vaticano: Giovanni Pier Luigi da Palestrina (que por sinal nasceu, ao que parece, no mesmo ano em que nasceu Luís de Camões: 1525).

Nesta coletânea, veio a lume uma obra coral intitulada «Tu es Petrus». Descobri-a quando eu era ainda adolescente; e lembro-me de ir à antiga Valentim de Carvalho (antes do incêndio do Chiado) encomendar a partitura desta obra, de tal forma eu a amava e queria ver as notas musicais no papel.

A música desta peça – na sua absoluta simplicidade e na sua simples absoluteza – parece ter a marca de Deus, tal como o «Benedictus» da Missa Solemnis de Beethoven ou outras grandes obras da música sacra. Parece ser uma mensagem de Deus à humanidade.

Em Junho de 2010, quando eu tinha chegado ao fundo do abismo de um luto avassalador e já não aguentava mais viver, houve um fim-de-semana crítico em que eu estava sozinho em Coimbra, sem nada a que recorrer. E lembrei-me de «Tu es Petrus» de Palestrina; e fui vasculhar na confusão de CDs desorganizados em minha casa para ver se eu tinha essa obra. Tinha. Ouvi-a dezenas de vezes seguidas. E salvou-me.

Nessa altura, eu já era leitor há muitos anos do Novo Testamento em grego, mas era apenas alguém que lia os Evangelhos sem pensar especialmente na problemática daquilo que eu estava a ler. Lia os Evangelhos em grego pelo prazer, pela paz, pela elevação que a leitura me inspirava. Foi só nos tempos subsequentes que comecei a aprofundar mais o estudo do Novo Testamento e a perceber as muitas camadas do texto e os muitos problemas que essas camadas suscitam.

Uma das coisas extraordinárias da peça coral de Palestrina é que ouvimos um coro a seis vozes cantando palavras que, na Bíblia, são ditas por uma só voz: pela voz de Jesus, em Mateus 16:18-19.

São palavras espantosas a vários títulos. Em primeiro lugar, o jogo de palavras inerente a «Tu és PEDRO (Πέτρος) e sobre esta PEDRA (πέτρα) edificarei a minha igreja» implica que, se foram verdadeiramente ditas por Jesus, foram ditas em grego. Por outro lado, a palavra «igreja» é, por incómodo que isso possa ser, o maior argumento para pensarmos que não foram palavras ditas pelo homem de Nazaré chamado Jesus.

Nos Evangelhos de Marcos, Lucas e João, a palavra «igreja» («ekklesía» em grego) nunca aflora na boca de Jesus – aliás, a palavra está totalmente ausente desses evangelhos. O único evangelho em que ela ocorre é o de Mateus (três vezes); e a única passagem em que ela parece não ter a acepção grega clássica de «assembleia», mas sim de «igreja», é a passagem posta em música por Palestrina.

A ideia de Pedro como pedra da igreja é vista, no estudo crítico-histórico do Novo Testamento, como retroprojecção cristã: Jesus, como se sabe, não era «cristão», nem Pedro o era – sobretudo não o são no Evangelho de Mateus, que é o texto em que Jesus mais defende a necessidade de cumprir cada preceito da lei judaica. O Jesus de Mateus é completamente diferente do Jesus “iconoclasta” relativamente ao judaísmo do Evangelho de Marcos («o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado») ou do apócrifo Evangelho de Tomé («se a circuncisão servisse de alguma coisa os meninos já nasceriam circuncidados»).

Para Palestrina, compondo, no Vaticano, no século XVI, as palavras que ele pôs em música eram indubitavelmente palavras de Jesus. À palavra problemática para estudiosos modernos – «ecclesia» – é dado um realce extraordinário, através de uma sequência de notas ascendentes: quando o coro canta «aedificabo ECCLESIAM meam», nós ouvimos «ecclesia» como imagem musical da escada que conduz ao céu.

Quando, em Fevereiro de 2001, visitei a Basílica de São Pedro no Vaticano, fiquei parado durante muito tempo com os olhos vidrados, a mirar e admirar as letras na parte superior da basílica onde se lê «Tu es Petrus». Na minha cabeça, ouvi a música de Palestrina, com as suas harmonias sublimes, com a sua simplicidade tão contrastante relativamente à sumptuosidade da basílica do Vaticano.

Na altura, como eu disse, não pus em causa a verdade histórica das palavras «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja»: não me passou pela cabeça que Jesus pudesse não tê-las dito. Hoje, acho improvável que sejam palavras autênticas de Jesus, mas ao mesmo tempo estou convencido de que a verdade que está na música de Palestrina lhes dá, num plano místico, verdade. A igreja poderia ser a escada que leva ao céu, como Palestrina sugere na escala ascendente «ecclesiam»? Poder talvez até pudesse; quem sou eu para dizer! De qualquer forma, isso seria outra discussão.

Porque o meu tema hoje é «Tu es Petrus» de Palestrina.

Curiosamente, Palestrina também se chamava Pedro: Giovanni PIER Luigi. Se por «igreja de Pedro» entendermos a espiritualidade expressa pela sua música, então podem contar-me sempre como adepto da igreja de Pedro.

Frederico Lourenço, 25-09-2023

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