A arte de ser feliz | por Frederico Lourenço

O poeta romano Horácio tem-se revelado para mim, nos últimos anos, o melhor professor da arte mais difícil de aprender na vida: a arte de ser feliz.

Ao longo da minha vida deparei-me com muitas coisas difíceis de aprender, mas nenhuma aprendizagem se mostrou ser mais difícil do que ser feliz. A leitura mais aprofundada de Horácio tem-me ajudado a perceber as armadilhas em que tive sempre tendência para cair.

A primeira de todas – e que compromete a felicidade de tantas pessoas – é compararmo-nos com os outros e com a vida afortunada que lhes atribuímos. Sim, porque quem sabe se, na verdade, os felizardos da nossa imaginação são mesmo tão felizes como nós imaginamos?

Um professor universitário em Portugal achará sempre mais privilegiados os colegas que estão nas cinco universidades de topo no mundo (MIT, Cambridge, Oxford, Harvard, Stanford). Muitas vezes me perguntei o que fiz de errado para não ser professor de Cambridge e, nesses exames de consciência masoquistas, consegui identificar os erros todos no meu passado que levaram a esse falhanço da minha parte. No entanto, a própria premissa desse processo está errada. Nas palavras de Horácio: «A verdade é que cada um deve medir-se pela sua própria medida» (Epístolas 1.7.98).

Porque não são as Universidades de Cambridge ou de Coimbra que determinam a felicidade. «Aqueles que atravessam as ondas mudam de clima – não de disposição» (Epístolas 1.11.27). Hoje tenho a certeza de ser tão feliz como professor em Coimbra como teria sido em qualquer outra universidade. Sem prejuízo do grande amor à camisola que tenho por Coimbra, sei que não é o contexto em que desenvolvo o meu trabalho que determina a minha felicidade, mas o modo como vivo interiormente esse trabalho. O facto de sentir uma paixão cada vez maior pelos meus autores gregos e latinos (e por ser com cada vez mais convicção que ensino as línguas em que eles se exprimiram) é, em si mesmo, um privilégio. Ocuparmo-nos com coisas em que não acreditamos é que se afigura, de facto, esgotante. «Maça-nos a canseira de não fazermos nada de jeito» (Epístolas 1.11.28).

Quando eu era mais novo, a falta de uma casa luxuosa ou de um carro topo de gama era mais um elemento que eu acrescentava à lista das minhas intermináveis insatisfações. Hoje percebo quanto Horácio tem razão: «Com barcos e carros procuramos sentirmo-nos bem. Mas o que procuras está aqui» (Epístolas 1.11.28-29).

«Àquele, a quem agrada a sorte de outrem, a própria sorte desagrada. / Cada um está a ser estúpido; e responsabiliza, sem razão, o lugar onde está. / A mente é que tem culpa – ela que nunca pode fugir de si mesma» (Epístolas 1.14.11-13).

Claro que esta filosofia só tem aplicação no mundo encantado daqueles que não estão sujeitos a circunstâncias exteriores dilacerantes. Não ajuda quem está a viver no meio de uma guerra; não ajuda quem vive em condições de trabalho próximas da escravatura; não ajuda a pessoa presa num relacionamento tóxico, a quem não faz sentido dizer «O que procuras está aqui».

Não que Horácio não tenha tido ele próprio a experiência da guerra, da pobreza e das dificuldades pessoais. Era filho de um ex-escravo. O facto de ele mais tarde ter privado com pessoas do topo da sociedade romana não apagou certamente as feridas psicológicas que ele trazia de trás. Mas há uma verdade muito grande nesta sua frase: «Não é aos ricos somente que cabem as alegrias» (Epístolas 1.17.9).

Acima de tudo, a concentração no momento presente é o factor que, de todos, mais felicidade pode proporcionar: «O que está presente, lembra-te / de organizar, sereno; as restantes coisas ao modo / de um rio são levadas» (Odes 3.29.32-34).

Olhar para a frente (seja com apreensão ou excitação) não nos traz qualquer vantagem: «Prudente, o desfecho do tempo futuro / em noite obscura o deus esconde» (Odes 3.29.29-30).

Duas passagens horacianas para meditar uma vida inteira:

«Aquele dono de si

e feliz viverá, a quem for lícito no fim do dia

ter dito: “Vivi. Amanhã, que com negra

nuvem o Pai cubra o céu

ou com sol puro. Porém, anulado não

fará o que está para trás; nem

alterará ou trará de volta, anulado,

o que, uma vez, a hora fugidia trouxe”.»

(Odes 3.29.41-48)

«Que eu tenha o que tenho agora ou até menos; e que eu viva para mim o que resta da minha vida, se os deuses quiserem que algo reste.

Que eu tenha boa quantidade de livros e de comida guardada para um ano; 

e que eu não vacile ao sabor da esperança de cada momento duvidoso.

É suficiente orar que Júpiter (ele que põe e tira) me dê vida,

me dê meios; eu próprio darei a mim mesmo uma mente serena.»

(Epístolas 1.18.107-112)

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