Das brumas da memória | José Augusto Nozes Pires | Bartolomé Esteban Murillo- Duas crianças comendo um melão e uvas, 1645-46

Em tudo que fazemos a desigualdade persiste

Talvez nalguns lugares seja menor

Mas já era assim, talvez maior,

Na minha, na tua, na nossa infância.

Deixa-me lembrar-te e não me contradigas:

Uns adormeciam em camas limpas e macias

E outros, sabe-se lá, onde calhava.

Sempre assim foi:

Para estes uma ama serviçal acolhia-os ao colo,

Nem um ralhete se ouvia ;

um quarto aquecido, palhaços e soldadinhos de chumbo.

Para aqueles (foram e são tantos!)

 uma cama de palha, uma vela de sebo acesa.

Não viste tu, mas vi eu.

A infância não foi feliz.

Foi para ti, não foi para todos,

Até para ti mesmo não foi sempre.

Se assim foi é caso raro. 

Sim, eu sei, falas dos muros que saltaste

Das macieiras que trepámos

Do prazer de andar descalço sobre a erva húmida

De beber a água fresca da ribeira!

O que em adulto é banal e rotineiro

Era então um acontecimento, uma novidade!

Nisso que dizes tens razão,

Nisso que lembras se encontra alguma verdade

Das alegrias simples da nossa infância!

Todavia, não te oiço somente a ti, 

Escuto milhares, milhões de vozes, não sei como,

Choros tão fundos e prolongados 

(chegam-me do fundo dos tempos!)

Com fome, com sede, de solidão,

Que das lembranças que guardo

Cabe lá tudo, o bom e o mau,

E duvido que a felicidade seja por acaso.

Não faço como tu : não quero esquecer

(não consigo mesmo que queira)

As meninas descalças e sujas 

À porta das igrejas

A fazerem o quê? Eu sei porque vi.

Claro que não te lembras,

Tu que dizes que felizes éramos então!

E quando ias à praia pela mão da mamã

Elas ,as meninas sujas e famintas,

Estavam lá?

Não venho ensinar nada,

Porque tu sabes tudo,

Pois o mundo é a tua medida.

Lembras tu e eu (como te compreendo!),

Aquela alegria  dos trilhos que percorríamos,

Da fruta dos vizinhos que roubávamos,

Das margens do rio onde nos sentávamos!

(A minha avó tinha uma horta no vale,

a vila no alto, era longa a descida,

na horta amadureciam os melões,

a figueira, maternal, cobria o poço).

Destas maneiras disfarçamos a ferida,

Como o camponês disfarça com canções.

Lembro tudo e não lembro nada, 

Se é que me faço entender :

Do que me lembro da vida passada,

Há muito que faço por esquecer.

Não porque queira, mas porque sim,

Está lá, no fundo do fundo,

O que sou não me conhece a mim.

Por isso, quando dizes que na tua infância

Com pouco, quase nada, foste feliz,

Eu sei que não mentes, é mesmo verdade;

Mas aceita o que digo, diz :

É da juventude que tenho saudade!

NOZES PIRES, 01/02/2024

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.