Aquele vagabundo que encontrei na estrada, José Gomes Ferreira 

Retirado do Facebook | Mural de Maria Teresa Carrapato

Paisagem de muros e de cães

a ladrarem para o céu

– propriedade azul

de todos os desgraçados.



Árvores escondidas

que o vento desenha em perfumes

no silêncio do sol.


Sebes de silvas e piteiras

ainda com o ódio primitivo

de quando o mundo

era um planeta de florestas e de pássaros,

e o homem um intruso,

um ser ilógico

sem raízes nem asas.


Hoje esse homem sou eu,

sem terra para pisar,

sem sombras para dormir,

sem frutos para comer,

sem flores para cheirar,

sem fontes para beber

– perseguido por todos os muros do mundo

numa paisagem de lagartixas.


Hoje esse homem sou eu,

vendado de pedras e de tojo,

sombra esquecida de alguém

a olhar para o céu

– deserto voado de todos os vagabundos.


Hoje esse homem sou eu.


O céu, ao menos, não tem muros.

E as aves não riscam fronteiras

nem põem vidros partidos nas nuvens.

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José Gomes Ferreira 

In «Poeta militante – Viagem do Século Vinte em mim» (1.º volume), obra poética completa de José Gomes Ferreira, colecção «Círculo de Poesia», Moraes Editores, Lisboa, Outubro de 1977 (1.ª edição).

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