AU REVOIR, ALAIN, por Paulo Sande in Facebook

Talvez o Leopardo, talvez A Piscina, talvez Rocco e os seus Irmãos ou o Sol por Testemunha.

Certamente o Leopardo, esse velho filme (mas não um filme velho) dos anos 60, em que Delon, dirigido por um mágico neorealista (Visconti), contracenou com duas lendas do cinema quando o cinema era rei e as suas criaturas realeza – Burt Lancaster, Dom Fabrizio Salina, e Claudia Cardinale, aka Angelica.

Delon como Tancredo na visão Viscontina do Gattopardo do príncipe de Lampedusa, como uma premonição da vida e, sobretudo, da decadência e morte – hoje, 18 de agosto de 2024 – do anjo de olhos azuis, um dos últimos abencerragens do grande cinema, francês e universal, do século XX.

Alain Delon não foi perfeito, não foi consensual e foi, sobretudo nos últimos anos, criticado – pelos seus valores, os seus comentários polémicos, algumas coisas que disse ter feito, outras que fez. Em 2019, a atribuição de uma Palma de Ouro honorária a Delon em Cannes valeu ao Festival críticas severas.

Mas os anos foram passando, as coisas que se dizem – e os atos que se cometem – ficam com quem os diz e comete e o ator nunca foi acusado de qualquer crime. Cada um fará o seu juízo e é assim que deve ser e não fazer da praça pública (em que desembocam todas as redes sociais e os meios e os comentários públicos) um tribunal sem regras.

Não é este o sítio nem é este o tempo para escalpelizar o que já foi largamente escalpelizado, este é o momento – um momento no tempo – para recordar uma carreira

e as frases que servem a sua memória, Alain, Tancredo, Tom Ripley, Jeff Costelo (O Samurai), ícone, astro fulgurante e depois decadente, estrela cadente, principio meio

e o inevitável fim

o fim de uma Era – se queremos que tudo se mantenha como está é preciso que tudo mude – o amor, claro, o amor? chamas por um ano cinzas por 30 – e todos nós leopardos, chacais, ovelhas, continuaremos a pensar ser o sal da terra (il salle de la terra)

e a minha preferida (aqui ligeiramente editada)

pensar na morte acalma-me, talvez porque, depois de tudo dito e feito, a minha morte significa em primeiro lugar a morte do mundo inteiro…

A morte e a decadência que vem antes que ela chegue e que tanto assombrou Delon nos últimos anos. “A velhice é um naufrágio”, terá dito, ecoando De Gaulle.

Agora morreu, o anjo de olhos azuis, finalmente liberto da decadência. Ficam os filmes a imagem a memória de um tempo

em que o cinema era rei e Delon realeza

(foto – obra de irigoyen)

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