Licínia Quitério, “Travessia”

Passam pontes e pontes, 

sobre pálidas águas, terras ásperas. 

Imóveis quase sempre as pedras.

Frágeis pontes do princípio dos dias.  

Atravessam os anos e escurecem 

as pontes do ocaso, trémulas. 

Carregam as pontes, abatem os arcos, 

passam a dizê-las imprestáveis. 

Uma margem, outra margem e eles 

indecisos, entre a fome e a fome.

Há quem se atreva à travessia

em busca de razão e nem a ilusão vá encontrar.

Ficar pode ser um destino, partir é fugir dele

Se ponte não houver, a nado vão ou morrem.


É isto o que sabemos dos escravos

de novo em movimento, torpedeando

os pontos cardeais, chamando norte

ao que o norte perdeu, negando o sul

que depois de os parir os abusou.

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