GENES EGOÍSTAS | Tiago Salazar

As turbas indignam-se por tudo e por nada. Por exemplo, o tratamento VIP de titulares de cargos públicos aos seus familiares e amizades. Onde há dinheiro há poder. São o roque e a amiga. Richard Dawkins escreve com propriedade sobre este aspecto da condição humana, como o fizeram Konrad Lorenz ou Darwin. No máximo do altruísmo, os clãs protegem-se. A política é a arte da mentira e da demagogia. A troca de favores nunca é inocente. Enoja, repugna? Não faríamos ou não fazemos todos coisas semelhantes se estivermos perante um pedido de auxílio?

Quem ajuda e mexe cordelinhos está a demonstrar poder sobre o outro. Mesmo o presente é uma forma de demonstrar esse poder. A arte do equilíbrio entre o dar e receber é de uma minoria de artistas e quem sabe se também esses não o fazem por egoísmo? Para serem reconhecidos como filantropos. Por ambição à posteridade. O princípio de fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem a nós aproxima-nos do civismo. Eu, por exemplo, agradeço ao Dawkins e muitos outros autores a generosidade de se darem ao trabalho de pensar e partilharem.