IRENE LISBOA | in Facebook

Mulher inteligente, de extrema sensibilidade, entusiasta do trabalho educativo, autora de vasta obra que se reparte entre a ficção intimista e autobiográfica, a crónica, o conto (para crianças e adultos), a poesia, a tradução, a pedagogia e a crítica literária, Irene Lisboa não teve porém uma vida pessoal e, até de certa forma, uma atividade literária que possamos considerar bafejada pela sorte. E é pena, porque Irene Lisboa foi não só uma escritora de grandessíssimo valor e uma pedagoga com um trabalho inovador, como uma pessoa generosa e amável que merecia ter conquistado um pouco de felicidade. 

Talvez a sua modéstia, o facto de ter sido pouco ambiciosa, porventura a recusa por parte do público de uma literatura feminina sentimentalista, o ter adotado um tipo de escrita realista e intimista (tão nua e crua que incomodava) a contracorrente do que ao longo da sua vida se foi editando, não se tendo sujeitado ao gosto comum do seu tempo, tivessem concorrido para que sofresse o insucesso, por assim dizer, comercial. 

Embora as publicações mais importantes da sua época tenham acolhido abundantemente os seus textos e tenha tido o beneplácito da crítica mais categorizada, Irene Lisboa foi durante muito tempo, injustamente, desconhecida do grande público. Apesar de nos últimos anos ter crescido o interesse pela obra da autora de Solidão, a verdade é que ainda não foi de todo vencida a barreira do silêncio ou de esquecimento que envolve a sua obra. Se hoje ela é reconhecida, tal deve-se ao trabalho de investigação de Paula Morão, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que a reeditou na íntegra, através da Editorial Presença, tornando-a acessível ao público. 

Irene somou a uma infância triste, em que foi abandonada pela mãe e maltratada pelo pai e pela madrasta, o infortúnio de ter sido incompreendida e injustiçada como escritora, perseguida por motivos políticos enquanto pedagoga e, como se não bastasse, foi sempre mal-amada. Tímida, solitária, não se lhe conhecem paixões, não casou, não teve filhos e acabou os seus dias na casa da amiga de sempre, Ilda Moreira, que a acolheu e lhe dispensou «amparo maternal».

Um dia, revelou-nos: «Não dei os beijos que tinha a dar!, penso muitas vezes. Não fui amorosa… Porquê? Porque ninguém se interessou por mim, ninguém deu comigo. Do mesmo modo se queixam outras, mas a culpa não é nossa. A gente que passa é muito grosseira; os homens são apressados e boçais. Tenho a impressão de não ter vivido suficientemente, com gosto, com paixão.»

Rogério Fernandes menciona: «O seu destino literário é, entre os destinos literários infelizes, um dos mais marcados pelo infortúnio e pela injustiça» e Paula Morão refere que a escritora: «teve a coragem de enfrentar e suportar, com profunda e serena altivez e humildade, a certeza de ser uma alma despaisada na própria terra e no meio dos seus contemporâneos», afirmando que a sua obra se assemelha ao «retrato exato de uma vida mártir-e-glória-de-si-mesma».

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