Os meus amigos da Igreja do Liberalismo, por Paulo Querido

Os meus amigos da Igreja Do Liberalismo têm um viés muito engraçado. Para eles, TODOS os avanços humanos, da economia à saúde, se devem ao virtuoso liberalismo. E citam os dados da evolução: temos menos pobres (no sentido em que há menos pessoas no mundo abaixo dos limiares de pobreza), temos melhor qualidade de vida que as gerações precedentes, há francamente uma grande evolução ao longo das décadas e séculos.

Os dados são esses. Progredimos. Muito. Em Portugal, por exemplo, os salários melhoraram bastante nos últimos 8 anos e dezenas de milhar de pessoas regressaram de debaixo do limiar de pobreza para onde tinham sido atiradas nos 6 anos anteriores por um governo, esse sim, amigo da Igreja do Liberalismo.

E se é verdade que há degradação na prestação de serviços de saúde e de educação (mais ou menos transversais e nada exclusivos dos prestadores públicos, como muito bem sabem os cidadãos que também recorrem aos prestadores privados, mas deixemos agora esse tipo de detalhe para não estragar ainda mais a narrativa aos fiéis), não é menos verdade que o país atravessou um ciclo económico virtuoso, com crescimento acima da média da UE — isso mesmo: levamos mais de um lustro de convergência com a União, uma notícia que não escapa aos jornais de economia que, coitados, depois de uma década a serem citados dia sim dia sim com grande ênfase, passaram os últimos anos na sombria penumbra das televisões.

Ora, apesar do centrismo dos governos de António Costa, incluindo os dois de apoio parlamentar pelos partidos à sua esquerda e também pelo PAN, que ficam na História como os artífices dessa convergência e das melhorias, bem como das coisas negativas, dificilmente os podemos carimbar de “liberais”, pelo menos no sentido desejado pelos fiéis da Igreja do Liberalismo.

De resto, esses mesmos fiéis passam todo o tempo — and I mean: TODO — a apodar de “socialistas” as políticas destes anos, imunes à contradição nos termos.

( Aliás, essa imunidade é o que me leva a caracterizá-los de fiéis — pessoas que adoram e glorificam os santos nos altares, incapazes já não digo de auto-crítica, mas de reconhecimento da realidade fora do templo. )

Voltando aos avanços globais: são um facto. Diversos sistemas políticos e até económicos contribuíram para as molduras políticas, económicas e tecnológicas que enquadraram os avanços através dos séculos. Entre eles — e este é apenas um exemplo aqui deixado como uma irresistível provocação aos meus amigos — até as décadas fantásticas de crescimento económico de economias “socialistas”, como foi o caso da URSS a seguir à II Guerra Mundial, bem antes, de resto, da invenção do neo-liberalismo por Reagan e Thatcher, a fonte que até hoje alimenta as iniciativas liberais e as suas cartilhas.

Os avanços da humanidade registaram-se A DESPEITO dos erros cometidos por todos os sistemas político-económicos e em TODOS eles. 

A reivindicação do liberalismo como autor, ou veículo, desses avanços — assim mesmo, numa generalização absurda e obtusa, típica, lá está, de fiéis —  não é apenas ternamente parva: é uma mentira.

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Querido

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