Cristina Branco, “Eu quero escrever filosofia com bâtom vermelho”. Mural in Facebook.

Imaginemos uma mulher diante de um espelho mal iluminado. 

A mulher inclina a cabeça, pinta os lábios de um vermelho dramático, não para seduzir, mas como quem afia uma lâmina. Enquanto isso, uma voz em off, talvez a de um narrador sarcástico, herdeiro de Bergson com sotaque parisiense, anuncia: “O patriarcado é como um filme mal montado: sempre a cortar as cenas onde a mulher poderia ser protagonista.”

Desde Lilith, que ousou dizer non merci, até Eva, a eterna cúmplice involuntária da queda, corre um rumor subterrâneo: a mulher nunca está no centro da história, apenas no rodapé das notas críticas. Hemingway pode ser rude e bêbedo, Pessoa pode fragmentar-se em quarenta, Kafka pode tossir até ao infinito. A mulher, para escrever, precisa de talento e de uma reputação imaculada, de preferência sem manchas de batom no colarinho da crítica literária.

Virginia Woolf pediu um quarto só seu. A ironia é que ainda hoje muitas escrevem da cozinha, entre o tilintar das panelas e notificações no telemóvel. Na literatura, coragem masculina chama-se “génio torturado”. Coragem feminina, por sua vez, é “descontrole emocional”. Sylvia Plath, por exemplo, nunca ganhou o estatuto de alienação filosófica que se concede a Kafka. Talvez porque uma mulher alienada continua a ser, antes de tudo, uma paciente.

Na paisagem mediterrânica, oliveiras, sol generoso, moral apertada, a mulher é mãe, santa ou louca. Quando escreve bem, suspeita-se logo de marido negligente, de vazio sentimental ou de histeria recalcada. É a versão literária do diagnóstico médico oitocentista: Freud perguntava o que quer a mulher, como se fosse um enigma maior que o de Esfinge. Mal suspeitava ele que a resposta podia caber num batom: liberdade.

E liberdade, ah, essa palavra. Clarice Lispector incendiava cada página e, em vez de lhe chamarem fogo, chamaram-lhe mistério. Marguerite Duras avisava que escrever é também calar-se. Mas quem escuta os silêncios das mulheres? Talvez apenas aquelas que escrevem para si mesmas, como quem tenta ver-se num espelho sem moldura.

Há sempre um tribunal invisível a julgar a escritora, demasiado doce, demasiado ácida, demasiado fria, demasiado apaixonada. A sua obra nunca é apenas obra, é também interrogatório. 

O homem escreve, a mulher defende-se escrevendo. Entre Kafka e Beauvoir, entre Nietzsche e Audre Lorde, o que se ergue é uma galeria de espelhos deformantes: virtude masculina vira vício feminino.

Mas o que sobra, apesar de tudo, é lucidez. Lucidez tingida de vermelho nos lábios. 

Porque escrever não é capricho, é sobrevivência.

Entre o silêncio e a literatura, não se escolhe estética, escolhe-se existência. Escrever é mudar de pele,

Eles podem ser génios e nós podemos ser quem queremos. Eu quero escrever filosofia com bâtom vermelho.