ANÁLISE | José Luís Carneiro, Pedro Nuno Santos ou Daniel Adrião: terceira vez neste século que sucessão no PS é incerta | Paulo Querido | in VamoLáVer! | 20-11-2023

O PS tem um “combate de chefes” em perspetiva. Não será tão épico quanto o de 2004, em que João Soares, Manuel Alegre e José Sócrates eram cabeças de correntes internas muito diferentes, é mais próximo da disputa de 2011 entre António José Seguro e Francisco Assis. Em nenhumas das outras onze eleições internas isto sucedeu.

Nos próximos dias 15 e 16 de dezembro José Luís CarneiroPedro Nuno Santos e Daniel Adrião (por ordem da apresentação de candidaturas) disputam umas eleições de fim de ciclo: um líder sai numa situação de descontinuidade de projeto, deixando em aberto a hipótese de um novo rumo, de uma variação ideológica dentro de um dos dois partidos portugueses com maior democracia interna. Este género de disputa de novos rumos pelas fações internas ainda não tinha ocorrido este século num partido no Governo.

Os contornos da situação são conhecidos: em plena maioria absoluta, o Primeiro-Ministro António Costa é alvo de suspeição judicial (fica de fora desta edição o fundamento dela), fica sem condições políticas para continuar e vê-se forçado a demitir-se. Dois ministros dos governos Costa avançam com candidaturas que, dadas essas circunstâncias forçadas, não se ajustam facilmente na tipologia das eleições internas partidárias, como veremos a seguir. Pedro Nuno Santos já era proto-candidato, em José Luís Carneiro a ambição não era imediatamente visível. Daniel Adrião é o “repetente”, avançando pela quarta vez com uma candidatura que cumpre uma lógica diferente das outras duas.

As eleições internas dos partidos dividem-se em quatro tipos. Um deles é o dos partidos novos, em que a indefinição e o desconhecimento das figuras e dos projetos permitem esperar tudo. Exemplos? PAN, Livre e IL. Um segundo é próprio dos partidos estáveis em que a sucessão é sempre combinada em conversações internas opacas para o cidadão antes de ser legitimada pelo voto em sessões solenes, com ou sem candidatos a dar brilho à democracia. Exemplos? CDS e PCP.

Os outros dois tipos só aparecem nos dois maiores partidos que têm vencido as eleições em Portugal. PSD e PS são semelhantes nisto: umas eleições são do tipo incerto, outras são do tipo sucessão. O ato eleitoral em curso pertence ao tipo incerto e é a terceira vez que isto sucede no partido nos últimos 25 anos (vê lista abaixo).

As eleições do tipo sucessão acontecem invariavelmente quando um destes partidos está no Governo. Ao contrário, as eleições do tipo incerto são frequentes quando se está na oposição, ou seja, se perderam sucessivas batalhas eleitorais, como é o caso, este século, do PSD, que vai no seu oitavo presidente em 25 anos (o PS vai no quinto).

Durão Barroso era Primeiro Ministro quando deixou o partido (e o governo) a Santana Lopes para ir presidir à Comissão Europeia, tal como António Guterres, que se demite após uma derrota eleitoral e lhe sucede Ferro Rodrigues, em ambos os casos sem disputa por fações internas. A atual demissão de António Costa é diferente, é a primeira do género e talvez por isso proporciona umas internas típicas de fim de ciclo.

Esta cronologia do poder explica porque razão o PS tem as suas terceiras eleições internas incertas a marcar o fim do seu terceiro ciclo este século enquanto o PSD teve oito eleições incertas (ver lista abaixo).

Eleições desde 1999: PS

1999 (16/01) – António Guterres 96,65%
2001 (22/04) – António Guterres 96,19% contra Henrique Neto e António Brotas
2002 (19/01) – Eduardo Ferro Rodrigues 96,45% dos votos ( Convenção Nacional para eleger SG após a saída de António Guterres). Eleição ratificada no XIII Congresso de Novembro seguinte com 1198 votos de um universo de 1492 delegados
» 2004 (25/09) – José Sócrates 80,07% contra Manuel Alegre (26,8%) e João Soares (1,5%)
2006 (28/10) – José Sócrates 96,82%
2009 (14/02) – José Sócrates 94,44% contra António Fonseca Ferreira e António Brotas
2011 (26/03) – José Sócrates 93,3%
» 2011 (22/11) – António José Seguro 67,98% contra Francisco Assis (32,02%)
2013 (13/04) – António José Seguro 92,71% contra Aires Pedro
2014 (22/11) – António Costa 96%
2016 (21/05) – António Costa 95,3% contra Daniel Adrião (2,8%)
2018 (12/05) – António Costa 93,33% contra Daniel Adrião (4,55%)
2021 (19/06) – António Costa 94% contra Daniel Adrião (6%)
Presente – José Luís Carneiro, Pedro Nuno Santos, Daniel Adrião

Eleições internas no PSD

2005 – Luís Marques Mendes vences Luís Filipe Menezes por diferença de 12%
2007 – Repete-se o confronto e é Menezes que vence desta vez por margem menor, 10%
2008 – Manuela Ferreira Leite (37%) vence Pedro Passos Coelho (31%) e Pedro Santana Lopes (29%) no “combate do século”
2010 – Pedro Passos Coelho vence Paulo Rangel, 61% contra 34%, vai ser Governo e presidir ao partido por oito anos
2018 – Rui Rio bate Santana por 54% contra 45%
2020 – Rui Rio vence Luís Montenegro encurtando a margem, 52% contra 46%
2021 – Rio vence Paulo Rangel por uma unha, 51% contra 46%
2022 – Luís Montenegro vence Jorge Moreira da Silva por 71% contra 27%, a melhor margem do século no confronto de menor impacto (e apenas 27.000 votos nas “diretas”)

Fontes: PS, PSD | Editor: Paulo Querido. IlustradorMário PiresApoio na pesquisa e filtragem: Cecil. Modelo de linguagem usado para pequenas tarefas e tradução: GPT-4.

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