EDITORIAL – A EUROPA, DO ATLÂNTICO AOS URAIS | CHARLES DE GAULLE, in “A Viagem dos Argonautas”, 26 de Dezembro de 2013

O general De Gaule não era propriamente um progressista, pelo menos na acepção que habitualmente se costuma atribuir à palavra. Contudo, tem de se reconhecer que ele tinha uma visão bastante clara do mundo, e ideias para o futuro.

No que habitualmente se designa por temas sociais, naquelas questões que hoje se designam por fraturantes, provavelmente optaria muitas vezes por posições próximas das assumidas pelos conservadores, mas o facto é que ele, em alturas chave, tomou posições importantes. Basta recordar a sua posição durante a Segunda Guerra Mundial, diametralmente oposta à de Pétain, ou em relação à guerra da Argélia, que condenou sem rebuço. Em relação à Europa, promoveu a reconciliação entre a França e a Alemanha, e preconizou indubitavelmente a aproximação à Rússia, que na altura encabeçava a URSS.

É dele o lema que serve de título a este editorial. Mesmo muitos não europeístas concordarão que a ideia merece atenção, e com certeza que não apenas por provir de De Gaule. Claro que muita gente não pensa assim. Por exemplo, Boris Johnson, mayor de Londres, cuja orientação política em muitas matérias seria talvez próxima da de De Gaule, ontem, segunda-feira, 23 de Dezembro, na sua coluna do Daily Telegraph, incita-nos a”Juntar a União Europeia à lista dos mitos em que acreditamos por nos terem sujeito a lavagem ao cérebro”, e declara-nos que a UE nos foi imposta fazendo-nos acreditar que era vital para a segurança do mundo, contra a ressurreição da Alemanha, contra o comunismo, e sugere abertamente a dissolução da União Europeia. A leitura atenta do texto mostra-nos que o autor não se preocupa em fundamentar com segurança as suas afirmações, basta olhar as referências à Alemanha. Contudo, há um aspecto que devemos prestar atenção, que é o da ideia de a UE ter sido criada para servir de bastião contra qualquer coisa, que poderia ter sido a Alemanha, o comunismo ou outra coisa qualquer.

Esta parte é mais complexa. De Gaule tinha um pensamento estratégico muito elaborado, e via como principal obstáculo ao fortalecimento da Europa a hegemonia norte-americana. Boris Johnson com certeza não vai por esse caminho, de sentido contrário às opções actuais do governo do seu país. Mas nós podemos fazer ressaltar que a questão da Ucrânia, ligada à da defesa anti-míssil, instalada na Polónia e noutros países do leste, põe em causa uma política na linha preconizada por De Gaule.

Na génese da UE esteve com certeza o conflito Leste-Oeste. O prolongamento deste mantém a Europa dividida, e assegura a continuidade da influência americana, graças à sua superioridade militar. A hegemonia regional alemã é mais um obstáculo para os restantes povos europeus se unirem, assim como a ligação do Reino Unido aos Estados Unidos. Será realmente de se continuar a falar numa União Europeia?

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