A ESTRATÉGIA DE CONFRONTAÇÃO DE WASHINGTON E A EMERGÊNCIA DA CHINA, por Luís Carapinha

➡️ A dinâmica que tem impulsionado a mudança e transição do sistema mundial é marcada em larga medida pela vertiginosa ascensão económica chinesa. Mais do que a dimensão militar, política ou ideológica, a afirmação internacional da China nas últimas décadas tem como centro e força motriz a economia.

Apolítica reaccionária de confrontação estratégica imposta por Washington, tendo como objectivo central a China, é uma realidade definidora do actual quadro mundial, inseparável do aumento exponencial da tensão internacional.

Neste tempo conturbado não existe acção dos EUA com relevância internacional que possa estar de alguma forma desligada da agenda multidimensional de contenção e confrontação da China – nos planos comercial, industrial/tecnológico, financeiro e militar, impactando na política e economia mundiais. A pérfida guerra de agressão lançada pelos EUA e Israel contra o Irão no último dia de Fevereiro encaixa-se, sem dúvida, nesta perspectiva fundamental. O desfecho do embate sistémico com a China determinará em grande medida o destino do mundo no século XXI.

A urgência da ofensiva contra Pequim resulta da aguda percepção em Washington do fracasso da famigerada política de «evolução pacífica». Décadas de «liberalização» comercial e económica da China e a adesão à OMC, em 2001, no âmbito da política de Reforma e Abertura, iniciada no final dos anos 70, não conduziram, como esperado nos círculos imperialistas, à quebra do sistema socialista e do poder do Partido Comunista da China (PCC). A China emergiu como o mais temível adversário estratégico desde os tempos da URSS, havendo um consenso fundamental bipartidário nos EUA de que representa a mais formidável ameaça global à manutenção da sua hegemonia. Os apologetas do sistema dominante chegaram a expressar a sua perplexidade com o desenvolvimento indesejável da China, apelidando-a de «ascensão furtiva». A recalibragem da relação com a China, iniciada com o «pivot para a Ásia» de Obama, atinge com o início da guerra comercial e aplicação sistemática de sanções de perfil tecnológico, no primeiro mandato de Trump e, depois, com Biden, um novo estádio de confrontação com vastas repercussões no agravamento da instabilidade e turbulência internacionais. Esta espiral aproxima-se, no regresso de Trump à Casa Branca, de um nível crítico, no limite, passível de causar danos sérios à China com consequências imprevisíveis para a ordem interna e a economia e paz mundiais.

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