O problema do humor, por Cristina Branco in Facebook

O problema do humor hoje em dia é, no fundo, o mesmo de sempre.

Na minha infância, os bêbados juntavam-se na tasca e escolhiam um alvo fácil, um “maluco” da terra, uma viúva, alguém mais frágil ou simplesmente mais exposto, para atazanar. Disparatavam, faziam troça, arrancavam gargalhadas à custa de quem tinha menos defesa. Aquilo chamava-se convívio, mas muitas vezes era só crueldade embrulhada em risos.

Hoje, as tascas são mais sofisticadas. Têm estúdios, microfones, iluminação cuidada. Chamam-se televisões e rádios.

E os bêbados deram lugar a pseudo-humoristas que fazem “peças” engraçadas a criticar A ou B, a ridicularizar, a satirizar.

O público aplaude, o Zé Povinho ri-se, e a coisa passa a chamar-se humor e liberdade de expressão.

Mas a lógica, essa, pouco mudou.

Em todas as épocas houve arenas para atirar gente aos leões, distraindo assim o tédio colectivo. Mudam os cenários, afinam-se os discursos, mas o mecanismo é antigo: rir de alguém continua a ser mais fácil do que rir com alguém.

Há uma história contada por Patrice Leconte que ilustra bem isto. Numa pequena fábula, um rouxinol e um corvo discutiam quem cantava melhor. Incapazes de chegar a acordo, decidiram pedir a um porco que fosse juiz.

O rouxinol, confiante no seu talento, aceitou.

No fim, depois de ouvir ambos, o porco escolheu o corvo.

O rouxinol desfez-se em lágrimas.

“Choras por teres perdido?”, perguntaram-lhe.

“Não”, respondeu ele, “choro por me ter deixado julgar por um porco.”

É muitas vezes isto que vemos: julgamentos ruidosos, críticas fáceis, opiniões lançadas com autoridade, vindas de quem pouco acrescenta ao que está a avaliar. E, no entanto, continuam a ter palco, aplauso e, não raras vezes, financiamento.

O mais curioso, ou talvez o mais inquietante, é que tudo isto cumpre uma função.

Enquanto houver quem ria, quem se distraia, quem aplauda, o essencial fica para depois.

E isso, no fundo, também é uma forma de ação política.

É dar palco e caminho para a crueldade.

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