Estão sentados? Posso estar errado. Mas… Colem no frigorífico este texto, por Vasco Lemos Barreto

O mercado ainda não sentiu o “choque real” de abastecimento porque o mundo está a viver das reservas estratégicas e dos stocks comerciais acumulados antes dos ataques de março de 2026.

Quando essas reservas começarem a esgotar-se — o que os analistas preveem que aconteça entre maio e junho de 2026 — a subida de preços que vimos até agora (os ~110$ do Brent e ~60€ do gás) parecerá apenas o início.

O que poderá acontecer quando as reservas acabarem e o Estreito de Ormuz continuar fechado. Mesmo que abra dentro de 2 ou 3 meses, ainda se tem de reconstruir o destruído, e até que tudo estabilize novamente..

..

1. O “Efeito Penhasco” (Maio-Junho 2026)

    Reservas da UE e EUA: Os países da IEA (Agência Internacional de Energia) têm reservas para cerca de 90 dias. Se o bloqueio no Médio Oriente e a destruição de refinarias persistirem, entraremos num défice físico de 20 milhões de barris por dia.

    Previsão de Preços: Sem reservas para amortecer o choque, o Brent poderá disparar para os 150

    . O gás TTF, sem o GNL do Catar, poderá testar os recordes de 2022, ultrapassando os 150€/MWh.

2. A Posição de Força da Rússia

Nesse cenário de “secura” global, a Rússia torna-se o único fornecedor com capacidade imediata (mesmo que limitada por sanções):

    Leilão Global: O petróleo Urals e o gás russo (via Turquia e Ásia) deixariam de ser vendidos com desconto. Pelo contrário, seriam disputados num “leilão” desesperado por quem tiver dinheiro para pagar.

    Financiamento Infinito: O superavit comercial da Rússia poderia atingir níveis nunca vistos, anulando completamente qualquer crise financeira interna prevista pelo centro CMAKP.

3. A Europa e Portugal: O Racionamento

Se as reservas acabarem e não houver alternativa ao Médio Oriente, que na prática não há garantida* :

    Plano de Emergência: A UE poderá ativar o “Estado de Alerta de Gás”, o que significa racionamento obrigatório para a indústria pesada (aço, cimento, química) para salvar o aquecimento das casas e hospitais. O que rebentará o pib das nações europeias.

    Portugal: Embora tenhamos o Porto de Sines e gasodutos de Argélia/Marrocos, a subida de preços seria inevitável. A gasolina e o gasóleo em Portugal poderiam facilmente ultrapassar os 2,50€ – 2,80€ por litro antes do final do verão de 2026.

*A pergunta de “um milhão de dólares” para o mercado energético em 2026. A resposta curta é:

A margem de manobra é extremamente reduzida e perigosa. E para os que acham que as reservas são pequenas, nem que tivéssemos 100% mais reservas não nos safaríamos.  Portugal está ligeiramente acima da obrigação mínima de 90 dias imposta pela Agência Internacional de Energia (AIE) e pela União Europeia. A maioria dos Estados-membros da UE mantém atualmente reservas entre os 85 e 90 dias.

Se o Médio Oriente está fora de jogo devido ao fecho do Estreito de Ormuz e à destruição de infraestruturas, o mundo perde cerca de 20 milhões de barris por dia (mb/d). Vamos ver quem poderia, teoricamente, bombear mais:

1. A OPEP + (Fora o Irão e Arábia Saudita)

    Capacidade Excedente: Quase toda a capacidade de reserva da OPEP está concentrada na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Se as suas refinarias e portos estão destruídos ou bloqueados, essa “margem” é zero na prática.

    Outros Membros (Iraque, Kuwait, Nigéria): Estão a produzir muito perto do limite técnico ou enfrentam problemas de manutenção e instabilidade interna. Não conseguem aumentar a produção de forma significativa (talvez apenas 0,5 mb/d no total).

2. Estados Unidos (O maior produtor mundial)

    O “Boom” do Xisto (Shale): Os EUA estão a produzir níveis recorde (cerca de 13,5 mb/d), mas o crescimento estagnou.

O preço médio da gasolina disparou 21% recentemente, atingindo o seu nível mais alto desde 2023.

A não esquecer que as empresas americanas priorizam agora o lucro dos acionistas em vez de perfuração desenfreada. Além disso, abrir novos poços de xisto demora 6 a 12 meses até o petróleo chegar ao mercado. Não é uma solução imediata para a crise de 2026.

    Refinação: Mesmo que extraiam mais, as refinarias americanas já estão a operar a 92-95% da capacidade. Não conseguem processar muito mais petróleo bruto.

3. A Rússia (O Grande Beneficiário)

    Margem Técnica: A Rússia tem alguma capacidade de reserva, mas enfrenta dificuldades para expandir devido à falta de tecnologia ocidental (peças e software para perfuração profunda).

    Estratégia: Para Putin, não interessa aumentar muito a produção. Ele ganha mais vendendo a mesma quantidade (ou um pouco menos) a 150$ do que inundando o mercado para baixar o preço.

4. Guiana e Brasil

    Novas Fronteiras: São os únicos que estão a crescer de forma orgânica. O Brasil (Pré-sal) e a Guiana podem adicionar cerca de 0,5 a 1,0 mb/d em 2026, mas isso é uma gota no oceano face aos 20 milhões perdidos no Médio Oriente.

Vasco Lemos Barreto

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.