Contos que procuram entender a alma, de Eltânia André, por Adelto Gonçalves


                                                 I

Nova obra de Eltânia André reúne dez narrativas que prendem a atenção do leitor até as últimas linhas      


            Com sensibilidade e argúcia para entender não só a alma feminina como a masculina, a romancista e contista Eltânia André, psicóloga de formação, premia o público-leitor com um novo livro de contos, Decomposição dos pássaros (Setúbal-Portugal/Cotia-SP, Editora Urutau, 2025), que reúne dez textos que confirmam a qualidade de uma prosa que se confirma e evolui a cada volume publicado.
            Como observa o romancista Luiz Ruffato, um dos grandes nomes da ficção brasileira, no texto de apresentação, as personagens desta obra “são homens e mulheres ordinárias vivendo situações corriqueiras, nas quais nos reconhecemos como seres falhos que aspiram a alguma redenção – pois Eltânia André consegue insuflar dimensão metafísica a seus enredos”.
            De fato, alguns dos protagonistas destas histórias são pessoas que vivem na contramão da sociedade, excluídos da sociedade de consumo, que, sem alternativas, acabam por aceitar a probabilidade de sobrevivência que a contravenção oferece, como o personagem Siri, do conto “Márrio-Riomar: um nome todo água”, que tinha aquele apelido por andar “ziguezagueando sem rumo certo pelas ruas”, que sempre andava “com os bolsos cheios de droga ainda para distribuir”. E quem conta a história de Siri é uma mulher batalhadora, que, igualmente para sobreviver, não hesitou em “pegar pesado no volante” de um caminhão, ainda que tivesse de “ouvir brincadeirinhas ou piadas bestas, num tempo em que bullying era apenas uma palavra estrangeira”   


                                                II
            Um desses contos, que leva o extenso título “Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho”, conta a história de Astrogildo (ou Walter) que saiu do triângulo das Minas Gerais para cumprir um trajeto até o famoso reino da Bulgária, depois de renunciar ao curso de Direito e especializar-se em Engenharia Nuclear. “Exausto de tanto cindir átomos e de fazer maracutaias, virou de cabeça para baixo a biblioteca de Assurbanípal da Babilônia, e ganhou fama de astrólogo-surrealista. Incluiu em sua biografia que traficou diamantes, atravessou mares nadando crawl, deflorou filhas de políticos, especializou-se no jogo de bisca e em soluções imaginárias para equações de complexidades múltiplas”, dizaautora.
            Por aqui se tem uma ideia do estilo maduro de Eltânia André, que, no citado conto, faz uma homenagem ao escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), imitando com fidelidade o seu estilo, que se notabilizou por uma ficção associada ao surrealismo, ao absurdo (nonsense) e ao misticismo, entre outas qualificações
            Já em “Decomposição dos pássaros”, um dos textos mais curtos e que dá título à obra, a autora se utiliza da metáfora de buscar pássaros para explorar as jornadas pessoais de personagens como o menino Josué, que “disfarçava, mas não controlava o rancor que sobrepunha ao amor pela mãe – que fez de tudo por ele, criando-o sozinha, após a morte precoce do marido”.
            Outro conto em que a autora explora as angústias, as memórias, o trágico e o poético da vida humana é “Sob o som das matracas” em que a personagem rememora a história do avô, que havia participado da chamada Revolução de 32, “um fiasco nacional”, em que se viu “brasileiro matando brasileiro”, tudo em nome de interesses das elites regionais.
            Outro conto que se destaca é aquele que encerra o volume e que tem por título “Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira”, em que igualmente se vê uma homenagem a Campos de Carvalho. A narrativa conta a história de uma mulher que perdeu a visão às vésperas de completar doze anos, acutilada por um tio bêbado, que lhe arrancou os olhos “no auge do delírio persecutório”. E que teve um destino semelhante ao de Baba Vanga (1911-1996), uma búlgara cega, mística e fisioterapeuta, que se tornou muito conhecida na Europa Oriental por suas habilidades de clarividência e precognição, ou seja, por suas habilidades paranormais.
Se “Netanyahu, Putin, Trump… não frequentaram o seu radar premonitório”, como diz a autora, a Baba Vanga brasileira, mesmo vivendo num grotão próximo a Cataguases, no interior de Minas Gerais, também se notabilizou por suas previsões, chegando a ser capa da revista O Cruzeiro e veio a receber a visita da escritora ucraniana-brasileira Clarice Lispector (1920-1977). Até que “saiu de moda e seguiu esquecida. Morreu como viveu: na miséria”.
            Como se vê, este livro guarda narrativas – na maior parte, curtas, mas densas – que atraem o leitor não só pelo lirismo e pelo estilo refinado como por situações que o leitor médio nem sempre percebe na vida cotidiana, mas que cativam pelo corte vertical das personagens, que são desvendadas pela psicologia, com finas observações sobre a alma humana. Esse fluxo dramático no interior das personagens é sempre marcado por um humor cético e uma ironia disfarçada, com desenlaces inesperados e enigmáticos, que prendem a atenção do leitor até as últimas linhas.
III
            Nascida em Cataguases, cidade-ícone da Literatura Brasileira, localizada no interior do Estado de Minas Gerais, Eltânia André (1966) fez, em sua terra natal, os estudos primário e secundário, tendo trabalhado na indústria têxtil. Tem graduação em Administração de Empresas e em Psicologia, com pós-graduação em Saúde Pública e Psicopatologia na Universidade de São Paulo (USP).
Morou em Belo Horizonte, onde trabalhou numa concessionária de veículos, e, em São Paulo, onde, como psicóloga concursada, atuou no Centro de Atenção Psicossocial (Caps), da vizinha cidade de São Bernardo do Campo. Tem trabalhos e participações em diversos jornais, revistas e suplementos culturais e em várias antologias. Depois de viver experiências traumáticas com a violência urbana que marca a vida numa cidade grande como São Paulo, Eltânia André hoje mora em São Pedro do Estoril, aldeia da freguesia de Cascais e Estoril, perto de Lisboa. Vive em Portugal há nove anos.
É dona de uma obra que já se destaca entre os autores da Literatura Brasileira: Meu nome agora é Jaque (contos, Belo Horizonte, Editora Rona, 2007), seu livro de estreia; Manhãs adiadas (contos, São Paulo, Dobra Editorial, 2012); Duelos (contos, São Paulo, Editora Patuá, 2018); Para fugir dos vivos (romance, São Paulo, Editora Patuá, 2015); Diolindas (romance, São Paulo, Editora Penalux, 2016), escrito em parceria com Ronaldo Cagiano; Terra dividida (romance, São Paulo, Editora Laranja Original, 2020); Diário dos mundos (romance, Editora Laranja Original, 2020), escrito em parceria com Letícia Soares; e Corpos luminosos (contos, Editora Urutau, 2022). O projeto “Céu na Boca”, de sua autoria, foi um dos vencedores em 2022 do Prêmio Maria Carolina de Jesus de Literatura produzida por mulheres. E o “Mulheres de Gimonde” foi selecionado para a bolsa literária “Criar Lusofonia 2024”, romance que está sendo desenvolvido na aldeia de Gimonde, em Trás-os-Montes, com conclusão prevista para o último trimestre de 2026.
______________________________
Decomposição dos pássaros, de Eltânia André, com texto de apresentação de Luiz Ruffato. Cotia-SP-Brasil/Barreiro-Setúbal-Portugal: Editora Urutau, 96 páginas, R$ 55,00, 2025. Site: contato@editoraurutau.com.br
_______________________________
(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (São Paulo, Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (São Paulo, Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.