“África tem pujança criativa na ciência, nas artes, na política. Há uma ideia de futuro” | GUSTAVO BOM entrevistado por Ana Sousa Dias em jornal Diário de Notícias

Acaba de publicar África, os quatro rios, onde percorre a maior bacia hidrográfica do mundo – Nilo, Níger, Congo e Zambeze – através da literatura de viagens. Um ponto de partida para falar sobre a criatividade de um continente diversificado e jovem.

Já foi um território desconhecido, a estimular as mais exóticas efabulações. Já foi dado como perdido em guerras, fome e doenças. O ensaísta, investigador e programador cultural António Pinto Ribeiro, viajante por natureza e por escolha, conta-nos uma outra África, virada para o futuro e com uma criatividade fecunda. Um percurso que a América Latina fez há algumas décadas.

Porquê o seu fascínio por África?

Há um lado biográfico, já que vivi em Angola e Moçambique e tenho voltado a África muitas vezes. É um continente onde existe, em diversas partes, uma pujança criativa a todos os níveis, nos domínios da ciência, da política, das artes, da economia. Nalguns casos há hoje a constituição de novos paradigmas de conhecimento determinantes que nos ajudam a compreender melhor o mundo.

Onde podemos encontrar essa África contemporânea de que fala?

Há uma enorme diversidade, o que é fascinante e torna tudo mais difícil. A África do norte, de influência árabe e islâmica, e a África subsaariana são completamente distintas. O lado oriental também é muito diferente do ocidental. Na África subsaariana há um movimento semelhante ao da América Latina nos anos 1960. Intelectuais, escritores, artistas, pensadores nos últimos anos começaram a refletir sobre qual é a possibilidade para a África de se distinguir do que foi no colonialismo. Alguns chamam-lhe a descolonização do espírito. São todos países muito recentes, a independência mais antiga é do Gana, de 1958. Foi preciso viver as independências, com o sonho do homem novo negro e das grandes nações africanas, um sonho que na maior parte dos casos se gorou e resultou numa enorme deceção. Passada a fase da deceção e da descrença, a questão é: qual a possibilidade de construirmos os nossos países de um modo diferente do que herdámos do colonialismo e que não seja completamente utópico e irrealista? E começaram por investigar a fase pré-colonial, o que penso que é inteligente.

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Também já fui a cigana (ou a preta) dos outros | Ana Sousa Dias in Diário de Notícias

E lá consegue fazer isto, é espantoso. Esta era a reação do patrão que me tinha atribuído uma tarefa ridiculamente fácil, mas como eu era portuguesa ele não esperava que eu conseguisse. Estávamos em Bruxelas em 1973, talvez início de 1974, e naquela pequena empresa os únicos belgas eram o dono e a secretária. Nós, os outros, éramos uma espécie de equipa benetton: uma congolesa, uma espanhola, um vietnamita, uma polaca e eu. Recebíamos menos e tínhamos menos direitos do que os da Comunidade Económica Europeia, na altura constituída por França, República Federal da Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. E mais o Reino Unido, a Irlanda e a Dinamarca, que tinham acabado de entrar.

Nós éramos todos de fora e isso criou cumplicidades com significados diferentes. Anne-Marie, linda e sempre vestida de capulanas espetaculares, era casada com um opositor de Mobutu, um homem de Lumumba que tinha sido forçado a deixar o então chamado Zaire. Tínhamos uma cumplicidade política, uma coisa em meias-palavras. Blanca era exuberante e atrevida. Aproveitava as ausências do chefe e da secretária para falar ao telefone com o namorado em Espanha. Ríamo-nos, só eu percebia o que ela dizia. Barbara encantava-se com os sons do português e de vez em quando ia a minha casa. Gostava da palavra nuvem. O contabilista Trinh era discreto, não convivia connosco.

O patrão, bigodinho estreito e sotaque de Bruxelas, e a secretária eram os únicos monsieur e madame. Nós éramos Anne-Marie, Blanca, Barbara, Trinh e Ana.

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