a revolução abanava as paredes e gritava-se viva la france | Inês Salvador

Em tempos, sempre que chegava a Primavera chegava o francês para passar uma temporada em casa da minha então vizinha de cima. Era a época em que o colchão da vizinha rangia das molas todas as noites. Caiam objectos, soltavam-se ais e gemidos, a revolução abanava as paredes e gritava-se viva la france com a bastilha a ser tomada várias vezes pela noite dentro. De manhã, calhava-me encontrar o francês no elevador e na circunstancial conversa lá arriscava “vacances?”, “oui”, respondia ele lascivo e meio desgrenhado de sorriso morno, como se a revolução ainda lhe estivesse no pêlo. Uma temporada, uma manhã, encontrei o francês no elevador e soltei o tradicional camarada de circunstância “vacances?”, “comme ci comme ça” foi tudo o que disse à procura de um ponto onde assentar os olhos. Nunca mais vi o francês.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Os caridosos nunca deixarão os pobres sair da pobreza | Inês Salvador

Cilinha sabia que de tudo que sabia o que mais lhe valia era a beleza da juventude. Foi no tempo da revolução, era eu ainda muito miúda. Muito miúda era o disfarce do tempo com que rematava a existência. Nunca poderia ter muita idade, se tudo o que sabia lhe vinha de ter de sido muito miúda a todo o tempo de todas as datas. Mas muito miúda já não lhe servia. Sempre que dizia muito miúda sentia os olhos interlocutores percorrerem-lhe o socalco das rugas. Os caridosos nunca deixarão os pobres sair da pobreza, diz-me a minha intuição. Cilinha passou a fazer da longevidade da própria vida um oráculo, uma bola de cristal que consultava por intuição. Cilinha nunca envelheceu. Morreu bela e jovem, como um vampiro da vida.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Prémios | Carlos Matos Gomes

Prémios. Por muito que me custe, passo o dia e parte da noite a ouvir notícias sobre os bancos. Notícias de milhões, o BES e grupo de forcados associados torrou 10 mil milhões, o BPN do pobre Oliveira e Costa e família de amigos de Cavaco Silva, de 6 a 8 mil milhões, o BANIF de oque e amigos, um pouco menos, a Caixa um 3 ou 4 mil milhões de imparidades, o Montepio, o BCP, o BPI … Do que oiço e ouvi, todos os conselhos de administração, conselhos fiscais, mesas de assembleias gerais destas e doutras desnatadeiras receberam chorudos prémios de gestão… O Ministério Público não se interessa em saber se foi incompetência ou corrupção, a doutora Cristas, toda bem disposta diz que era de confiar e assinava de cruz, com os pés dentro de água e a pele a luzir de bronzeador. O público, como nas touradas grita Bravo e Olé!

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes