Era uma noite fria. Esticando as mãozitas para a lareira a criança aquecia-se | João Gomes

Era uma noite fria. Esticando as mãozitas para a lareira a criança aquecia-se. A sopa e os doces haviam-lhe aconchegado a fome e a mãe cirandava pela cozinha, arrumando a loiça. Sentia o encosto do gato, aninhado ao seu lado. No conforto do fogo, nem percebia a ausência do pai, ausente no trabalho. Era a noite de Natal e o pai tinha a missão de conduzir comboios, transportando as pessoas para todo o lado. Já era hábito ser assim. No Natal anterior tinha ficado com o pai, enquanto a mãe não chegava do hospital, onde era enfermeira. O gato, esse estava sempre presente. E que sorte ela tinha por o ter sempre aninhado, junto de si e à lareira. Cresceria percebendo que os Natais eram com a mãe ou o pai, enquanto não tivesse a sua própria família. Ainda não sabia que profissão queria ter. Mas certamente não seria enfermeira ou maquinista. Desejaria trabalhar em algo que lhe permitisse estar com os filhos, nas noites de Natal. E casaria, certamente, com alguém que assumisse um trabalho qualquer, desde que ficasse com ela e os filhos, um gato e um cão, numa lareira quente. Era essa a prenda que mais desejava para o futuro. As outras prendas tinham-se tornado uma consolação para as noites de uma certa solidão.

João Gomes

Até amanhã!

Arte de Paul Delvaux, Solitude, 1955

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