Gregory Corso: versos que beiram a catarse, por Adelto Gonçalves

Tradução de livro traz os últimos poemas de um dos mais representativos poetas da geração beat

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Um dos membros mais destacados da chamada geração beat norte-americana, que reuniu também Jack Kerouac (1922-1969), Allen Ginsberg (1926-1997) e William Burroughs (1914-1997), Gregory Corso (1930-2001), poeta prolífico e marginalizado, autor de mais de duas dezenas de obras lançadas nos Estados Unidos, tem agora os seus derradeiros trabalhos publicados em português, em tradução de Márcio Simões, no livro Últimos poemas (Natal-RN, Sol Negro Edições, 2023). Em edição bilíngue, a obra traz introdução do escritor e editor norte-americano Raymond Foye, que conheceu pessoalmente o poeta em abril de 1973 num simpósio sobre Jack Kerouac, em Massachusetts, e com ele manteve amizade desde então.

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Se | Poema de Rudyard Kipling com narração de Mundo Dos Poemas

12/04/2021| Poesia e poema de autor anglo-indianio. Rudyard Kipling nasceu em Bombaim, então Índia britânica, a 30 de dezembro de 1865.

Iniciou a sua carreira literária em 1886 com a publicação do volume de poemas Departmental Ditties, afirmando-se rapidamente se como um dos escritores mais populares do Reino Unido, quer na poesia quer na prosa. Em 1894 lançou O Livro da Selva, que viria a consolidar-se como clássico juvenil por todo o mundo. O Segundo Livro da Selva foi publicado no ano seguinte e Kim, considerada a sua obra mais conseguida, saiu em 1901. Em 1907 tornou-se o primeiro autor de língua inglesa a receber o Prémio Nobel da Literatura e é, até hoje, o mais jovem escritor a quem foi atribuída a distinção (tinha 41 anos). Rudyard Kipling morreu em Londres, a 18 de janeiro de 1936.

O HOMEM NESTA FOTO NÃO É POBRE, MENDIGO OU SEM-ABRIGO

Este homem é Lev Tolstoi: um dos gigantes da literatura russa, todos sabem o seu nome, poucos sabem a extraordinária história por trás desta fotografia.

Tolstoi caiu em depressão quando tinha 50 anos. Dia após dia a tristeza dela aumentava, sem motivo. Tolstói era um conde, era um dos homens mais ricos do seu país, era famoso em todo o mundo. E mesmo assim ele estava infeliz. «O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Dava para ver muitos que tinham os dois e eram infelizes. Nem a saúde tinha peso pesado; havia pessoas doentes cheias de vontade de viver e havia pessoas saudáveis que estavam angustiadas por medo de sofrer. »

Um dia, ele viu um órfão ao longo do beco Afanas’evskij, e moveu-se com compaixão, levou-o para casa com ele. E pela primeira vez em muito tempo senti-me bem outra vez. Ele esqueceu-se de si mesmo, dos problemas, da tristeza. A partir daquele momento que Tolstoi desistiu dos vestidos de cavalheiros, do luxo, dos seus privilégios, começou a levar uma vida simples, doando o que possuía a quem precisava.

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O QUE O MITO DE SÍSIFO NOS ENSINA SOBRE O ABSURDO DA EXISTÊNCIA?

Descubra a reflexão de Albert Camus que desafia nossa percepção de vida.

No coração da filosofia existencialista encontra-se uma imagem poderosa e desanimadora: a do Rei Sísifo, condenado a empurrar uma imensa rocha acima, só para vê-la rolar de novo para baixo, repetindo esta tarefa inútil por toda a eternidade.

Este mito, extraído da mitologia grega e revitalizado pelo filósofo francês Albert Camus no seu ensaio “O Mito de Sísifo”, tornou-se um símbolo duradouro da luta humana contra a futilidade e o absurdo da existência.

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‘Rio do Sono’: em busca das memórias perdidas, de Flávio R. Kothe, por Adelto Gonçalves

Obra do professor Flávio R. Kothe traz 30 contos que procuram penetrar nos mistérios insondáveis da alma.                                                                       

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                Vítima de atos arbitrários tomados pelos militares e seus áulicos depois que assaltaram o poder em 1964, que o levaram a passar longos anos fora do Brasil, Flávio R. Kothe, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), volta a se inspirar em sua própria vida para escrever vários dos 30 contos que integram Rio do Sono (São Paulo, Editora Cajuína, 2023), a exemplo do que fez também em Crimes no campus: novela de detetive (São Paulo, Editora Cajuína, 2023).

Em ambos os livros, o autor procura recuperar memórias perdidas, nem todas ligadas à ditadura, como se a literatura fosse uma historiografia inconsciente, ou uma recuperação do ocultado na História. Como exemplo, basta lembrar que, em novembro de 1989, o autor estava em Berlim quando houve a queda do muro que separava as duas Alemanhas. E que, com as lembranças desse episódio, escreveu O Muro (São Paulo, Editora Scortecci, 2016), longo romance histórico sobre o processo de desintegração do socialismo na Alemanha Oriental.

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“Os Convencidos da Vida”, Alexandre O’Neill, em “Uma Coisa em Forma de Assim”

Retirado do Facebook | Mural de Maria Teresa Carrapato

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. 

Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força. 

Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. 

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Éluard, o poeta do amor e da liberdade, por Adelto Gonçalves

Tradução de livro de 1929 traz versos do mais lido e conhecido dos surrealistas franceses

                                          

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            Estabelecida em Natal, no Rio Grande do Norte, a Sol Negro Edições, uma das raras editoras brasileiras de fora do eixo Rio-São Paulo e que se tem tornado conhecida por editar livros artesanais em pequenas tiragens com boa qualidade literária e gráfica, acaba de lançar O amor a poesia (L´Amour la poésie), obra de 1929, do poeta francês Paul Éluard (1895-1952), em edição bilíngue, com tradução de Eclair Antônio Almeida Filho e Márcio Simões e ilustrações de Zoé Parisot.

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SPINOZA | Deleuze & Guattari e os devires, por Marcos Bazmandegan

Tenho lido Deleuze & Guattari a falar dos devires: devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível. E ao falarem dos indivíduos e da melhor maneira de os definir, trazem-nos Spinoza e a sua maneira de olhar para as coisas.

Um corpo não se define pela sua forma, nem por ser substância ou sujeito, nem pelos órgãos ou funções que o constituem, nem por categorias, géneros ou representações de qualquer espécie. Um corpo define-se, antes, pelo conjunto de elementos materiais que lhe pertence através das relações de movimento e repouso e pelo conjunto de afetos intensivos de que ele é capaz.

Resumindo: as coisas são o conjunto de relações que as constituem e aquilo de que são capazes (afetar e ser afetadas).

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“Morre lentamente…” | Pablo Neruda

“Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,

quem não ouve música,

quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,

quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,

repetindo todos os dias os mesmos trajetos,

quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor

ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

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Demarchi: relatos além da imaginação, por Adelto Gonçalves                                  

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                A tênue película que nos separa deste mundo (João Pessoa-PB, Ideia Editora, 2024), que obteve o primeiro lugar no Concurso Nacional de Literatura da União Brasileira de Escritores (UBE), da Paraíba, é o primeiro livro de ficção de Ademir Demarchi, poeta consagrado com mais de uma dezena de livros publicados no gênero, além daqueles que reúnem ensaios e crônicas. Obra de inspiração onírica, seu novo livro traz pequenos relatos escritos a partir de sonhos ou mesmo pesadelos que, muitas vezes, beiram o fantástico, fazendo o leitor penetrar num universo kafkiano em que as regras são dominadas ou violadas pela imaginação

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Chico Buarque define solidão

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo… Isto é carência!

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar… Isto é saudade!

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos… Isto é equilíbrio!

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente… Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado… Isto e circunstância!

Solidão é muito mais do que isto…

SOLIDÃO é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.

Francisco Buarque de Holanda (Poeta, compositor e cantor)

Léon Tolstoï | Anna Karenine

Anna Karenine, écrit par Léon Tolstoï en 1877, est l’un des romans les plus célèbres de la littérature russe. Considéré comme l’une des meilleures œuvres de Tolstoï, ce roman explore les thèmes de l’amour, de la société, de la morale et de la recherche de sens dans la vie.

Le roman suit les destins de deux familles de la haute société russe : les Oblonski et les Karenine. Le roman commence avec l’infidélité de Stépane Oblonski, qui est découverte par son épouse, Dolly. Cependant, c’est l’histoire d’Anna Karenine, la sœur de Stépane, qui prend le centre de la scène. Anna est une femme belle et séduisante, mariée à un homme plus âgé, Karenine, un haut fonctionnaire du gouvernement.

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Uma história de amor entre mestre e discípulo, de Mário Cláudio, por Adelto Gonçalves.

Obra polêmica do escritor português Mário Cláudio ganha tradução para o italiano.

Mário Cláudio, professor, jornalista e bibliotecário: autor de vasta obra que inclui mais de 60 títulos nos gêneros romance, conto, novela, crônica, teatro, literatura infanto-juvenil e ensaio.

Adelto Gonçalves (*)

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‘Crimes no campus’:  retrato dos anos de chumbo, do professor Flávio R. Kothe, por Adelto Gonçalves

LETRAS | Obra do professor Flávio R. Kothe desvenda em novela de detetive a estrutura anacrônica da universidade brasileira 

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Embora seja frágil a presença da literatura de mistério na tradição literária brasileira, ainda que muitos autores consagrados, como Jorge Amado (1912-2001), Antônio Callado (1917-1997), Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), Guimarães Rosa (1908-1967), Rachel de Queiroz (1910-2003), Orígenes Lessa (1903-1986) e, mais remotamente, Coelho Neto (1864-1934), tenham se aventurado na área, trata-se de gênero muito popular nos Estados Unidos e na Europa e que, muitas vezes, tem servido de pretexto para a análise da sociedade, atuando como instrumento de reflexão sobre as relações entre os donos do poder e os subalternos. 

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UMA PEQUENINA LUZ, Jorge de Sena (1919-1978), in ‘Fidelidade’, 2023 [1958]

Segundo Nuno Júdice, “um dos mais belos poemas da nossa poesia pós-pessoana”.

UMA PEQUENINA LUZ

Uma pequenina luz bruxuleante

não na distância brilhando no extremo da estrada

aqui no meio de nós e a multidão em volta

une toute petite lumière

just a little light

una piccola… em todas as línguas do mundo

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Victor Hugo a écrit trois cents lettres d’amour à Juliette Drouet, 21 mai 1844, Le Monde Littéraire

Que veux-tu que je t’écrive ? Que puis-je t’apprendre que tu ne saches ? N’es-tu pas au commencement et à la fin de toutes mes pensées ? O ma bien-aimée…

— Lis donc ce qui est en moi, et vois comme je t’aime.

Tu as été longtemps ma joie ; maintenant tu es ma consolation. Ton regard est si charmant, ton sourire est si ineffable et si doux, tu répands autour de toi un tel rayonnement de grâce, de dévouement et d’amour que j’oublie mon deuil et que je sors de ma nuit en te regardant ! Tout frappé et tout brisé que je suis, il me semble, quand je suis près de toi, qu’il peut encore entrer un peu de lumière dans mes yeux et un peu de bonheur dans mon âme ! — Je t’aime, mon pauvre ange ! Tu as tous les trésors qu’une femme peut avoir dans le cœur et dans l’esprit. Tu es riche, va ! Tu t’es élevée par le plus noble amour à la plus haute vertu. Toi qui m’as ôté tant de jours de deuil, toi qui m’as fait tant de jours de fête, aie un jour de fête aujourd’hui ! Sois heureuse comme tu es bénie ! sois heureuse comme tu es bonne ! Sois heureuse comme tu es aimée !

Écarte de ton beau front et de ton grand cœur les petits chagrins du moment, les ombres, les nuages qui passent ! Tu mérites le ciel. Je voudrais que Dieu te le donnât sans t’ôter à moi ! Qu’il te fît ange en te laissant femme ! 

— Je t’aime ! —

📚 Les 17 meilleurs livres du monde selon Ernest Hemingway, in Sylvain Tesson/facebook

– Anna Karenine de Léon Tolstoï

– Far Away and Long Ago – A History of My Early Life de William H. Hudson

– Les Buddenbrook, Le déclin d’une famille de Thomas Mann

– Les hauts de Hurlevent d’Emily Brontë

– Madame Bovary de Gustave Flaubert

– Guerre et Paix de Léon Tolstoï

– Mémoires d’un chasseur d’Ivan Tourgueniev

– Les Frères Karamazov de Fiodor Dostoïevski

– Hail and Farewell de George Moore

– Huckleberry Finn de Mark Twain

– Winesburg, Ohio de Sherwood Anderson

– La Reine Margot d’Alexandre Dumas

– La Maison Tellier de Guy de Maupassant

– Le Rouge et le Noir de Stendhal

– La Chartreuse de Parme de Stendhal

– Les Gens de Dublin de James Joyce

– Autobiographies de William Butler Yeats

“Lamento de uma América em Ruínas. Memórias de uma família e de uma sociedade em crise”, da D. Quixote, Autor J. D. VANCE, por José Manuel Correia Pinto

No Verão de 2017 encontrei este livro nas bancas do Continente da Guia. Folheei-o, li umas coisas e achei que poderia ter interesse. Nem sequer era caro. Custava 14€ e qualquer coisa. Li-o num fôlego. Era um retrato cru, implacável de uma classe média branca do Ohio, oriunda dos estados mais a sul (Kentucky), tradicionais fornecedores de trabalhadores destinados à indústria automóvel dos estados dos lagos, uma classe média que o neoliberalismo, com tudo o que lhe está associado, condenou à miséria moral e à pobreza.

Nunca tinha ouvido falar do Autor, nem ele era conhecido fora de certos círculos restritos. Não era de esquerda, nem ele nunca como tal se assumiu. Mas descreveu-me aquela miséria moral da sociedade americana, aquela desestruturação da família, e a pobreza de quem não tem emprego e se refugia no álcool, noutros vícios e até na violência com um realismo tão cruel e sem futuro que me fez lembrar outros romances americanos da grande depressão. Com a diferença de que este não é um romance. É um lamento ou um requiem por uma América em ruínas.

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O que Fizemos da Nossa Liberdade, 50 Anos de democracia em Portugal, de Joaquim Vieira

SINOPSE | As eleições de 10 de março de 2024, quase coincidindo com as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, têm sido vistas como o encerramento de um ciclo de meio século da recente história de Portugal. Vale, por isso, a pena olhar com atenção para este período em que os Portugueses viveram, pela primeira vez, em plena liberdade, e fazer um balanço necessário, se não urgente, para se perceber como chegámos até aqui.

Joaquim Vieira, jornalista de formação desde 1974 e autor de diversos livros dedicados à análise do país contemporâneo, enumera o que de mais significativo aconteceu em democracia até hoje nas diversas áreas da vida pública nacional, assim como os principais protagonistas e as tendências que se foram desenhando.

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‘Poesia, saudade da prosa’, por Guilherme d’Oliveira Martins, in DN, 23-07-2024

Luís Filipe Castro Mendes cita Manuel António Pina no início de Tentação da Prosa (Exclamação, 2024) – Poesia, saudade da prosa, e assim se compreende o ofício da escrita. E Francisco Seixas da Costa diz, na nota inicial: “Conhecia-lhe já a prosa, a sua limpidez, a riqueza vocabular, o fluir fácil e elegante no estilo, saído de alguém para quem a produção de textos constitui um óbvio ato de prazer.” E estas crónicas “espelham alguém (…), já sem algumas das ilusões geracionais, mas com notas permanentes de esperança e de otimismo”. E assim há “uma imensa e invejável felicidade” na busca dos acontecimentos e das leituras… “É das coisas miúdas que se fazem os grandes encontros”.

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‘Vale das ameixas’, um mergulho proustiano, por Adelto Gonçalves

Segundo romance do jornalista Hugo Almeida surpreende por sua engenhosa estrutura narrativa              

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                Um diálogo com a obra A rainha dos cárceres da Grécia (1976), de Osman Lins (1924-1978), é o que o leitor vai encontrar em Vale das ameixas (São Paulo, Editora Sinete, 2024), segundo romance para adultos do jornalista Hugo Almeida, que surpreende por sua engenhosa estrutura narrativa. Mas não só. A obra se parece um pouco na estrutura também com Avalovara (1973), outro livro do escritor pernambucano. A semelhança se dá ainda no enredo, pois, a exemplo do personagem Abel, de Avalovara, o protagonista Harley/Timo teria tido várias mulheres.

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Da Mãe Rússia | Fiódor Dostoiévski

“Quando olho para o passado e compreendo quanto tempo perdi em vão, quanto perdi com equívocos, com erros, na ociosidade, na inabilidade para viver, como deixei de apreciá-lo, quantas vezes pequei contra meu coração e minha alma, meu coração põe-se a sangrar. A vida é uma dádiva, a vida é uma felicidade, cada minuto poderia ser uma eternidade de felicidade.”

Fiódor Dostoiévski, em carta a seu irmão Mikhail M. Dostoiévski, no livro: Dostoiévski: Correspondência [1838-1880]

Agradeço a Natanael Lamispramis (M.T.C.)

Retirado do Facebook | Mural de Maria Teresa Carrapato 

E sim, aprecio imenso a Arte, a Cultura, o País e o Povo Russo – Vítor Coelho da Silva, proprietário e administrador do blog “DAS CULTURAS”

O CAMPO BALDIO LILÁS: PRIMEIRAS NOTAS SOBRE A LITERATURA DE LEILA TABOSA, por Sebastião Marques Cardoso (*)

Para Paula Bianchi

Ela nasceu lilás & outras mulheres, recentemente publicado pela Editora Podes – Mossoró, RN, em 2024, surge como suplemento à literatura escrita por mulheres sobretudo daquelas escritoras nascidas na década de 70 do século passado. A autora Leila Maria de Araujo Tabosa, doravante Leila Tabosa, nasceu em Fortaleza, capital do Ceará, no ano de 1978. Teve infância e adolescência marcadas pela vulnerabilidade na periferia de Fortaleza e pela ausência física da mãe, que, no ano de 1985, foi à capital de São Paulo em busca de melhores condições de vida, deixando a filha sob o cuidado de avó natural e da avó afetiva, bem como sob apoio de tias e madrinhas.

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A Espantosa Realidade das Cousas, Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”

A espantosa realidade das cousas 

É a minha descoberta de todos os dias. 

Cada cousa é o que é, 

E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, 

E quanto isso me basta. 

Basta existir para se ser completo. 

Tenho escrito bastantes poemas. 

Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. 

Cada poema meu diz isto, 

E todos os meus poemas são diferentes, 

Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto. 

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. 

Não me ponho a pensar se ela sente. 

Não me perco a chamar-lhe minha irmã. 

Mas gosto dela por ela ser uma pedra, 

Gosto dela porque ela não sente nada. 

Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. 

Outras vezes oiço passar o vento, 

E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. 

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; 

Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, 

Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; 

Porque o penso sem pensamentos 

Porque o digo como as minhas palavras o dizem. 

Uma vez chamaram-me poeta materialista, 

E eu admirei-me, porque não julgava 

Que se me pudesse chamar qualquer cousa. 

Eu nem sequer sou poeta: vejo. 

Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: 

O valor está ali, nos meus versos. 

Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. 

Retirado do Facebook | Mural de Maria Teresa Carrapato

Mia Couto distinguido, por unanimidade, com o Grande Prémio de Conto Branquinho da Fonseca da Associação Portuguesa de Escritores (APE)

EDITORIAL CAMINHO | 16 julho 2024 | Com o livro “Compêndio para desenterrar nuvens”

Mia Couto distinguido, por unanimidade, com o Grande Prémio de Conto Branquinho da Fonseca da Associação Portuguesa de Escritores (APE).

Acaba de ser anunciada a atribuição, por unanimidade, do GRANDE PRÉMIO DE CONTO BRANQUINHO DA FONSECA, da Associação Portuguesa de Escritores (APE) ao livro “Compêndio para desenterrar nuvens”, de Mia Couto, editado o ano passado pela Caminho.

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Quando lhe pediram para revelar o segredo de sua beleza, a atriz Audrey Hepburn escreveu este poema, que foi lido no seu funeral.

“Para ter lábios bonitos, pronuncie palavras de bondade.

Para ter olhos bonitos, veja o que as pessoas têm de bonito nelas.

Para ficar magra, compartilhe suas refeições com aqueles que têm fome.

Para ter um cabelo bonito, deixe uma criança passar a mão nele todos os dias.

Para ter um belo porte, ande sabendo que você nunca está só, porque aqueles que te amam e te amaram te acompanham sempre.

As pessoas, mais ainda do que os objetos, precisam ser reparadas, mimadas, animadas, chamadas e salvas: nunca rejeite ninguém.

Pense nisso: se um dia você precisar de uma mão amiga, você encontrará uma no final de cada um de seus braços.

Quando envelhecer, você vai perceber que tem duas mãos, uma para ajudar a si mesmo, a outra para ajudar aqueles que precisam.

A beleza de uma mulher não está nas roupas que ela usa, no rosto ou no jeito de arrumar o cabelo. A beleza de uma mulher se vê em seus olhos, porque é a porta aberta do seu coração, a fonte de seu amor.

A beleza de uma mulher não está na sua maquiagem, mas na verdadeira beleza da sua alma. É o carinho que ela dá, o amor, a paixão que ela exprime.

A beleza de uma mulher cresce com os anos.”

     Audrey Hepburn

A União entre o Espírito e a Beleza, Thomas Mann, in ‘As Cabeças Trocadas’

Há uma beleza espiritual e há outra beleza que fala aos sentidos. Certas pessoas pretendem que o belo pertence exclusivamente ao campo dos sentidos, separando dele por completo o espiritual, de modo que o nosso mundo apresente uma cisão entre os dois.

Nisso também se baseia o ensinamento verídico: «Apenas por dois modos a felicidade é cognoscível em todo o Universo: a que nos vem das alegrias do corpo e a que nos vem da paz redentora do espírito». Desta doutrina, no entanto, segue-se que o espiritual não se acha, para o belo, na mesma relação em que o belo se encontra para com o feio e que, só em certas condições, se confunde com este. 

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Uma viagem ao tempo do Império de Eliezer Moreira, por Adelto Gonçalves

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            Um romance que recupera o que teria sido a visita do aventureiro inglês Richard Francis Burton (1821-1890), cônsul de seu país de 1865 a 1869 no porto de Santos-SP, à Januária, cidade situada às margens do rio São Francisco, nos limites com o Nordeste, em setembro de 1867, é o que o leitor vai encontrar no novo livro do jornalista Eliezer Moreira, Crônica da passagem do inglês (Recife, Companhia Editora de Pernambuco – Cepe, 2024). O foco central do romance é um triângulo amoroso entre Quirina, negra, escravizada e defensora da causa abolicionista, Arcanjo, negro, escravo e alfabetizado, e Ballard, um aventureiro irlandês que se radicou naquele Brasil selvagem e inóspito do século XIX, atraído pelas cores, pela paisagem e pelas perspectivas de enriquecimento fácil.

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Raquel Naveira: uma viagem ao mundo guarani, por Adelto Gonçalves

Em novo livro, a autora recupera suas vivências com a herança indígena no Mato Grosso do Sul e no Paraguai.  
             I

Depois de lançar em 2021 Manacá, livro de crônicas em que mescla tradição e modernidade, a professora sul-matogrossense Raquel Naveira volta ao mercado com Mundo Guarani  Fragmento de uma alma da fronteira (São Paulo, Minotauro/Editora Almedina Brasil, 2023), obra de memória que está entre a crônica, a novela e o romance e obteve o Prêmio João do Rio, da União Brasileira de Escritores (UBE), do Rio de Janeiro.

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As sem-razões do amor, Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo

bastante ou de mais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

“As Pérolas de Afrodite “ de Herbert James Draper em 1907

Retirado do Facebook | Mural de ALTA CULTURA

Mulher ao espelho | Cecília Meireles, Foto de Christian Coigny

Hoje, que seja esta ou aquela,

pouco me importa.

Quero apenas parecer bela,

pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,

já fui Margarida e Beatriz.

Já fui Maria e Madalena.

Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida

do meu cabelo, e do meu rosto,

se tudo é tinta: o mundo, a vida,

o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira

a moda, que me vai matando.

Que me levem pele e caveira

ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,

olhos, braços e sonhos seus

e morreu pelos seus pecados,

falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,

do alto penteado ao rubro artelho.

Porque uns expiram sobre cruzes,

outros buscando-se no espelho.

Retirado do Facebook | Mural de Maria Helena Manaia

Braga Horta: a infância revivida em versos, por Adelto Gonçalves

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            Nascido em Carangola, o poeta Anderson Braga Horta, filho de poetas, ainda criança, acompanhando a família, trocou o interior de Minas Gerais pelo interior de Goiás, mais especificamente pela tradicional Vila Boa de Goiás, ou Goiás Velho, onde fez o curso primário em duas “escolinhas domésticas”. Depois, transferiu-se para Goiânia, jovem capital àquela época, onde fez o curso de admissão ao ginásio para ingressar no Ateneu Salesiano Dom Bosco. Mas, aos 12 anos, retornou para Minas, onde ficou na casa dos avós, em Manhumirim, e concluiu o ginásio. Depois, foi para Leopoldina, ainda em Mina s Gerais, e fez o curso clássico.
            Tempos depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde, em 1959, formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil. Advogado, mudou-se para Brasília, onde desempenhou o cargo de diretor legislativo da Câmara dos Deputados. Ao mesmo tempo, cumpriu uma vitoriosa carreira nas letras, publicando extensa obra que inclui títulos de poesia, crítica literária e ensaística.

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‘Malditos sejam’ revela o cotidiano dos excluídos. Novo livro de Marcos Barrero explora os dramas dos invisíveis da sociedade. Por Adelto Gonçalves    

   I
            Os personagens de Malditos sejam, livro de microcontos de Marcos Barrero, são pessoas anônimas e esquecidas pela sociedade de consumo. Ou seja, os excluídos, que vão de vendedores de doces a malabaristas de semáforos e chapeiros de padaria. Em sua maioria, nordestinos, bolivianos, venezuelanos e nigerianos. Enfim, homens e mulheres invisíveis, que tentam sobreviver a qualquer custo na grande metrópole.
            Frequentam clubes sociais de bairros paulistanos ricos apenas para fazer entrega de comida ou encomenda.  Avistam baladas, restaurantes e outros recintos finos das janelas dos ônibus, que passam longe e lotados. Vivem atormentados pela sobra de salário no fim do mês. Acumulam carnês, contas de água e luz.  Manter o aluguel em dia é uma epopeia – afinal, o despejo de um quarto de muquifo e a volta para as ruas constituem uma tragédia banalizada e cotidiana.

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Escritores brasileiros em Cuba e Colômbia, por Valdeck Almeida de Jesus

Caminhos de Palavras: poetas do Brasil em caravana por Colômbia e Cuba

Dez artistas da palavra do Recôncavo baiano em uma experiência internacional de aquilombamento, compartilhando com artistas do caribe colombiano e cubano o intuito de envolver e desenvolver intercâmbios lítero culturais emancipatórios e sustentáveis.

O Quilombo Amefricano de Literaturas acontecerá em três edições, três cidades portos; três dias em cada uma delas: a primeira edição em La Havana (Cuba), a segunda em Cartagena de Índias (Colômbia) e a terceira em Cachoeira, no Recôncavo da Bahia.

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14.º aniversário da morte de José Saramago, por Carlos Esperança

Há catorze anos faleceu o Nobel do nosso contentamento, em Tias, nas Ilhas Canárias, onde o levou o azedume a Cavaco Silva, dando relevo a quem não o merecia, e aos 87 anos o aguardou a morte, com o desvelo de Pilar del Rio, o seu último e intenso amor.

Foi o início da viagem às origens, o regresso a Azinhaga, onde o esperavam os avós que sempre estremeceu e a oliveira onde lhe depositaram as cinzas. 2010 foi o Ano da Morte de José Saramago, o escritor que deu à língua Portuguesa o Nobel da Literatura e deixou   obra ímpar e multifacetada.

De Camões e Gil Vicente, passando por Vieira e Aquilino, Saramago destacou-se na plêiade de escritores portugueses e mostrou que a liberdade conquistada com o 25 de Abril trouxe consigo o espírito criativo e a genialidade que conservou até à morte.

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A Castidade com que Abria as Coxas, by Carlos Drummond de Andrade (relembrando)

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estrita, como se alargava

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Carlos Drummond de Andrade, in “O Amor Natural”

PABLO NERUDA | poème

Incliné sur les soirs je jette un filet triste
sur tes yeux d’océan.

Là, brûle écartelée sur le plus haut bûcher,
ma solitude aux bras battants comme un noyé.

Tes yeux absents, j’y fais des marques rouges
et ils ondoient comme la mer au pied d’un phare.

Ma femelle distante, agrippée aux ténèbres,
de ton regard surgit la côte de l’effroi.

Incliné sur les soirs je jette un filet triste
sur la mer qui secoue tes grands yeux d’océan.

Les oiseaux de la nuit picorent les étoiles
qui scintillent comme mon âme quand je t’aime.

Et la nuit galopant sur sa sombre jument
éparpille au hasard l’épi bleu sur les champs

MAR | Sophia de Mello Breyner Andresen

De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e mais profundo

Aquela praia extasiada e nua,

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Cheiro a terra as árvores e o vento

Que a Primavera enche de perfumes

Mas neles só quero e só procuro

A selvagem exaltação das ondas

Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen In “Poesia”

O Sequestro do Sonho, de Silas Corrêa Leite

Romance Social O SEQUESTRO DO SONHO de Silas Corrêa Leite destrincha a farsa de um político sósia no poder, no lugar do verdadeiro Presidente

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes/

Morrer e matar de fome, de raiva e de sede/

São tantas vezes gestos naturais…/

(Podres poderes – Caetano Veloso”)

O que um brasilianista estrangeiro e pensador já com conhecimento e prática de jornalismo policial e investigativo, um crítico  que adora Lisarb espera na historicidade do país LISARB (Brasil ao contrário) com sua terrível dívida social enorme desde os primórdios da história e da colonização, império, libertação de escravos, república,  passando pelo golpe da chamada canalha de 64 (o medo do comunismo criou monstros), até eleger um socialista ateu e intelectual cult que deveria resgatar essa dívida, realizar esse sonho ético-humanitário, pagar essa dívida, mas que, ao apear no poder, não faz o que dele se esperava nos bastidores da redemocratização do país. Um romance meio policial, meio investigativo, tecendo ramas subterrâneas nos meandros dos chamados podres poderes, como cantou Caetano Veloso.

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O beijo e a lágrima | Mia Couto

“Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo

abalou o peito dele.

E devotou o calor

de lava dos seus lábios,

entontecida água na cascata.

Quando terminou

ela tinha os olhos rasos de água.

Entusiasmado,

ele se preparou para, de novo,

duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.

Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.

E a sua alma se convertia

em areia do deserto.

Encantada,

ela no dedo recolheu a lágrima.

E se repetiu o gesto

com que Deus criou o Oceano.”

Mia Couto

Fernando Pessoa | Poesias Inéditas (1919-1930)

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa | Poesias Inéditas (1919-1930)

 Floriano Martins: a prosa poética à flor da pele, por Adelto Gonçalves

Em seu novo livro, ‘Sombras no Jardim’, o poeta reafirma sua busca pela experimentação linguística.

I
Se a prosa poética se dá a partir da fusão do enredo e da poesia, com “a narratividade desenvolvida em ambiência lírica ou épica”, como observou o professor Massaud Moisés (1928-2018) em A Criação Literária – Prosa II (São Paulo-SP, Editora Cultrix, 2015, p. 29), é, certamente, essa a definição mais apropriada para Sombras no Jardim (Natal-RN, Arc Edições/Sol Negro Edições, 2023), de Floriano Martins (1957), poeta, dramaturgo, ensaísta, crítico literário, artista plá ;stico e tradutor, dono de vasta obra que inclui mais de uma centena de livros publicados no Brasil, em Portugal e em outros países.

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Alexandre O’Neill | O AMOR É O AMOR

O amor é o amor – e depois?!

Vamos ficar os dois

a imaginar, a imaginar?…

O meu peito contra o teu peito,

cortando o mar, cortando o ar.

Num leito

há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos

sem destino, sem medo, sem pudor

e trocamos – somos um? somos dois? –

espírito e calor!

O amor é o amor – e depois?!

Retirado do Facebook | Mural de Maria José Diegues

QUERO APENAS CINCO COISAS by Pablo Neruda

Primeiro é o amor sem fim

A segunda é ver o outono

A terceira é o grave inverno

Em quarto lugar o verão

A quinta coisa são teus olhos

Não quero dormir sem teus olhos

Não quero ser… sem que me olhes

Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda | Escultura: “Paul and Virginia” por Alessandro Puttinati 1844.

Gilles Deleuze | EN MEDIO DE SPINOZA, por Marcos Bazmandegan

Gilles Deleuze, para além dos dois livros que dedicou a Spinoza, lecionou na Universidade de Vincennes – Paris VIII, entre 1978 e 1981, um curso dedicado a este filósofo. As aulas são magistrais, coloquiais e didáticas. Deleuze conduz-nos pelos principais temas e conceitos da filosofia de Spinoza numa interseção contínua e original com a história da Filosofia. 

Sem dúvida que estas aulas constituem uma grande introdução ao pensamento de Spinoza, uma das melhores, através de uma das mentes mais preparadas no século XX para o atualizar e explicar. Estas aulas foram em grande parte gravadas e registadas.

Contudo, foram ainda poucas as editoras que se deram ao trabalho de publicar a sua transcrição. A editora Cactus (Argentina) apresenta uma bela edição em língua espanhola. Esta editora publicou também os outros cursos lecionados por Deleuze, bem como grande parte da sua obra.

Já vai na 3ª edição. Tem 542 pp. E reproduz as lições de 1980-81. 

Para os interessados no pensamento de Spinoza e de Deleuze ou do Deleuze-Spinoza, como é o meu caso, este é um livro que tanto complementa os outros dois, como tão bem os introduz.

Crónicas e Discursos do historiador António Borges Coelho já nas livrarias

“… A Esperança de que falo vê e inventa mulheres e homens que anonimamente acendem a alegria nos gestos quotidianos mais simples, na voz humana, nas mãos jovens ou nodosas, brancas, negras ou amarelas que se apertam. As segregações explodem, mas somos cada vez mais mestiços, mais humanos. A Esperança de que falo desemboca em multidões na rua larga em defesa da dignidade, e das liberdades conquistadas em séculos de invenção, de luta e de sangue. A Esperança de que falo amanhece com um sorriso nos lábios. 

Excerto retirado da nota do autor do livro Crónicas e Discursos, de António Borges Coelho

António Borges Coelho nasceu em Murça, Trás-os-Montes, em 1928. Professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, dedica-se à investigação no campo da História desde 1957. Tem em curso a edição de «Uma História de Portugal». A sua bibliografia inclui poesia, ficção, ensaio e teatro.

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Maria do Rosário Pedreira vence Prémio de Poesia de Oeiras

O Meu Corpo Humano, de Maria do Rosário Pedreira, uma das grandes vozes da poesia portuguesa, foi anunciado pelo Município de Oeiras como vencedor da 2.ª edição do Prémio de Poesia de Oeiras – Homenagem a Alda Lara, na categoria de Consagração. Esta é mais uma distinção para a obra que marcou o regresso de Maria do Rosário Pedreira à poesia, depois de alguns anos de silêncio. Em fevereiro de 2023, O Meu Corpo Humano conquistou também o Prémio Literário Casino da Póvoa, conhecido como Prémio das Correntes d’Escritas.

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A MÃE DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS, por Fernando Couto e Santos, in Facebook 19-05-24

O sucesso de alguns livros faz não raro eclipsar o conhecimento de livros mais antigos que os inspiraram. Assim, muitos talvez desconheçam que o famoso romance 1984 de George Orwell foi inspirado por Nós do escritor russo Evgueni Zamiatine. Ou, se recuarmos mais no tempo, verificamos que o mesmo sucedeu com Os Cadernos de Malte Laurids Brigge de Rainer Maria Rilke que muito devem à admiração do autor pelo romance Niels Lyhne do dinamarquês Jens Peter Jacobsen. Em Portugal, também se estabeleceu em certos círculos a ideia de que O Crime do Padre Amaro de Eça de Queiroz seria tributário do romance La faute de l´Abbé Mouret de Émile Zola, sendo que o nosso Eça refutou essa alegação, afirmando que o seu livro até era anterior ao livro de Zola. Parece que, a bem da verdade, serão do mesmo ano (1875). Porém, infelizmente para nós e malgrado a indiscutível qualidade literária do nosso grande escritor, Eça de Queiroz nunca foi tão conhecido extra-muros como o conceituado escritor francês.  

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“SEM MEDO NÃO PODE HAVER FÉ!”, in O Nome da Rosa de Umberto Eco

“SEM MEDO NÃO PODE HAVER FÉ!”

Quando o abade cego pergunta ao investigador William de Baskerville: ′′Que almejam verdadeiramente?”

Baskerville responde: ′′ Eu quero o livro grego, aquele que, segundo vocês, nunca foi escrito. Um livro que só trata de comédia, que odeiam tanto quanto risos. 

Provavelmente é o único exemplar conservado de um livro de poesia de Aristóteles. Existem muitos livros que tratam de comédia. Por que esse livro é precisamente tão perigoso?”

O abade responde: ′′ Porque é de Aristóteles e vai fazer rir “.

Baskerville replica: ′′ O que há de perturbador no fato de os homens poderem rir?”

O abade: ′′O riso mata o medo, e SEM MEDO NÃO PODE HAVER FÉ. Aquele que não teme o demónio não precisa de Deus”.

Um incrível trecho de “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco!

EDUARDO LOURENÇO | A literatura não tem uma função. É um efeito do que somos de mais misterioso.

“A literatura não tem uma função. É um efeito do que somos de mais misterioso, de mais enigmático e ao mesmo tempo de mais ambicioso. Penso que, de todas as artes, a que revela o que a Humanidade é de mais profundo e absoluto é a música. A literatura é uma música um tom abaixo. Não se explica, não é da ordem do conceito como a filosofia. É natural que os homens reservem à literatura a sua maior atenção. A literatura é o nosso discurso fantasmático, absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura.”

— EDUARDO LOURENÇO (São Pedro de Rio Seco, Almeida, 23 de Maio de 1923 – Lisboa, 1 de Dezembro de 2020), pensador, professor e ensaísta, em entrevista ao Público, de 31 de Julho de 2017, na íntegra em bit.ly/2SoqVKY, se for assinante.

Biografia de Luís de Camões: 500 anos depois, a mais completa e rigorosa abordagem à vida do poeta

É um dos livros mais aguardados do ano. A Contraponto publica a 20 de junho, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de Camões, de Isabel Rio Novo, uma das mais reconhecidas romancistas portuguesas da atualidade e autora da muito elogiada biografia de Agustina Bessa-Luís (Contraponto, 2019).

500 anos depois do nascimento de Camões, Isabel Rio Novo aventura-se a navegar pela vida do poeta e dá a conhecer o homem por detrás do mito. 

Fruto de um trabalho de cinco anos, que obrigou a autora a mergulhar a fundo em todas as biografias antigas e recentes, na pesquisa de fontes conhecidas e na reunião de informação que estava dispersa, bem como a fazer viagens a Goa e a Moçambique, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte é um avanço decisivo no conhecimento do homem e do poeta. Reconstitui a época para reerguer o indivíduo, revelar aspetos escondidos durante séculos e restituir a história de uma personalidade extraordinária.

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Ler Camões no seu V Centenário, com Frederico Lourenço | A sessão de lançamento de Camões. Uma Antologia decorre a 10 de junho, às 17h00, na Feira do Livro de Lisboa.

Quinhentos anos depois, a musicalidade do nosso maior poeta, cuja data de nascimento se supõe ter sido em 1524, continua a ecoar nos nossos ouvidos. É de Luís Vaz de Camões o verso «Amor é fogo que arde sem se ver» ou o não menos conhecido «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», e isto apenas para citar alguns dos inúmeros exemplos com que o autor de Os Lusíadas, o texto mais célebre da literatura portuguesa, se confunde com a identidade nacional.

«O que impressiona acima de tudo na poesia de Camões é a profundidade da sua cultura, das suas leituras: daquilo a que os romanos chamariam a sua doctrina. Se há poeta doctus na história da literatura que possa ser posto ao lado de Vergílio e de Horácio, esse poeta é Camões», escreve Fre derico Lourenço na introdução de Camões. Uma Antologia, uma coletânea de alguns dos melhores textos do maior autor da língua portuguesa, que a Quetzal faz chegar às livrarias a 29 de maio. «Para as pessoas que gostariam de ler Camões, mas não sabem por onde começar, propõe-se aqui um ponto de partida.»

Na sua produção épica e lírica, Camões criou um universo único, cujos encantos e mistérios despertam há séculos a paixão de leitores e estudiosos. Esta antologia dá a ler as passagens mais brilhantes de Os Lusíadas e das Rimas, com um comen tário ao mesmo tempo acessível, erudito e ousado de um dos maiores conhece dores da sua obra. Frederico Lourenço dedica-se aqui a explorar, com elementos novos, a velha questão da presença clássica na obra camoniana, não deixando de enfrentar o problema de como lê-la à luz das mentalidades contemporâneas.

A sessão de lançamento de Camões. Uma Antologia decorre a 10 de junho, às 17h00, na Feira do Livro de Lisboa.

Nota de imprensa disponível aqui. Capa do livro nesta ligação.

Poema “Amigo” | Alexandre O’Neil

Mal nos conhecemos

Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso

De boca em boca,

Um olhar bem limpo

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.

Um coração pronto a pulsar

Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)

Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado.

É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neil

Retirado do Facebook | Mural de Maria Jose Diegues

Nunca Mais Amarei … | Poema de Sophia de Mello Breyner com narração de Mundo Dos Poemas

20/11/2023 | Poesia e poema de autor  português.  Nome Original  do poema ” Meditação do Duque de Gandía sobre a morte de Isabel de Portugal”.

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de novembro 1919 no Porto, onde passou a infância. Em 1939-1940 estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa. Publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Na sequência do seu casamento com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares, em 1946, passou a viver em Lisboa.

Foi mãe de cinco filhos, para quem começou a escrever contos infantis. Além da literatura infantil, Sophia escreveu também contos, artigos, ensaios e teatro. Traduziu Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses. Em termos cívicos, a escritora caracterizou-se por uma atitude interventiva, tendo denunciado ativamente o regime salazarista e os seus seguidores.

Apoiou a candidatura do general Humberto Delgado e fez parte dos movimentos católicos contra o antigo regime, tendo sido um dos subscritores da “Carta dos 101 Católicos” contra a guerra colonial e o apoio da Igreja Católica à política de Salazar. Foi ainda fundadora e membro da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos. Após o 25 de Abril, foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto, numa lista do Partido Socialista. Foi também público o seu apoio à independência de Timor-Leste, consagrada em 2002.

A sua obra está traduzida em várias línguas e foi várias vezes premiada, tendo recebido, entre outros, o Prémio Camões 1999, o Prémio Poesia Max Jacob 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana – a primeira vez que um português venceu este prestigiado galardão. Com uma linguagem poética quase transparente e íntima, ao mesmo tempo ancorada nos antigos mitos clássicos, Sophia evoca nos seus versos os objetos, as coisas, os seres, os tempos, os mares, os dias.

Faleceu a 2 de julho de 2004, em Lisboa. Dez anos depois, em 2014, foram-lhe concedidas honras de Estado e os seus restos mortais foram trasladados para o Panteão Nacional. Na data em que se celebrou o seu centenário, 6 de novembro de 2019, é-lhe concedido o grau de Grande-Colar da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

Devia morrer-se de outra maneira | José Gomes Ferreira, in Poeta Militante

Devia morrer-se de outra maneira.

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.

Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol

a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos

os amigos mais íntimos com um cartão de convite

para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica

a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje

às 9 horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos

escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir

a despedida.

Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.

“Adeus! Adeus!”

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,

numa lassidão de arrancar raízes…

(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )

a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se

em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…

como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono

ainda tocada por um vento de lábios azuis…

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Sozinho Com Todo O Mundo | Poema de Charles Bukowski com narração de Mundo Dos Poemas

Poesia e poema de autor americano. Charles Bukowski (1920-1994). Poeta, contista, romancista e novelista foi considerado o último “escritor maldito” da literatura norte-americana. Henry Charles Bukowski Jr. (1920-1994) nasceu em Andernach, Com 15 anos de idade começou a escrever suas primeiras poesias. Em 1939 ingressou o curso de Literatura na Los Angeles City College, onde permaneceu durante dois anos. Com 24 anos Charles Bukowski escreveu seu primeiro conto “Aftermath of a Length of a Rejectio Slip”, que foi publicado na Story Magazine. Dois anos mais tarde publica “20 Tanks From Kasseidown”. Depois de escrever durante uma década desilude-se com o processo de publicação de seu trabalho e resolve viajar pelos Estados Unidos fazendo trabalhos temporários e morando em pensões baratas. Em 1952 emprega-se como carteiro no Correio Postal de Los Angeles, onde permanece durante 3 anos. Entrega-se à bebida e em 1955 se hospitalizasse com uma úlcera hemorrágica muito grave. Quando deixou o hospital começou a escrever poesias. No início dos anos 60 voltou a trabalhar nos correios. Mais tarde viveu em Tucson, onde fez amizade com Jon Webb e Gypsy Lon, que o incentivaram a publicar e viver de sua literatura. Começou a publicar alguns poemas em revistas de literatura. Loujon Press publicou “It Catches My Heart in Its Hands” (1963) e “Crucifix in a Deathhand” (1965).Em 1969, foi convidado pelo editor John Martin da Black Sparrow Press, por uma boa remuneração, para se dedicar integralmente a escrever seus livros. A maioria de seus livros foi publicada nessa época. Em 1971 publicou “Cartas na Rua”, em que o protagonista, seu alter ego, o acompanhou em quase todos os seus romances. Em 1976 conhece Linda Lee Beighle e se mudou para São Pedro, no sul da cidade de Los Angeles, onde permaneceram juntos até 1985. Bukowski fala dela em suas novelas “Mulheres” (1978) e “Hollywood” (1989), através do personagem Sara. Charles Bukowski deixou uma vasta obra marcada por seu humor ferino e seu estilo obsceno, sendo comparado com Henry Miller, Louis-Ferdinand e Ernest Hemingway. A sua forma descuidada com a escrita, onde predominam personagens marginais, como prostitutas, corrida de cavalos, pessoas miseráveis etc. Foi visto como um ícone da decadência norte-americana e da representação niilista característica presente após a Segunda Guerra Mundial. Publicou: “Notas de Um Velho Safado”, “Crônicas de Um Amor Louco”, “Ao Sul de Lugar Nenhum” e “O Amor é Um Cão dos Diabos”, entre outros. Charles Bukouwski faleceu em São Pedro, Califórnia, Estados Unidos, no dia 9 de março de 1994.

C. R. Boxer, um historiador como poucos, por Adelto Gonçalves

Obra de Kenneth Maxwell reconstitui a saga do estudioso inglês que desvendou  a vida colonial no Brasil e foi acusado de traidor em seu país 

O livro Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world (Kenneth Maxwell sobre tendências globais: um historiador do século 18 olha para o mundo contemporâneo), publicado em 2023, em  Londres, por Robbin Laird, editor (Second Line of Defense), acaba de ganhar edição em capa dura (hardcover) acrescida de prefácio deste articulista, de um artigo de dezembro de 2023 (“The new historical era seen from space: the case of the Middle East”) e de mais dois instigantes ensaios de 2001 (“Trap and blank check: a cautionary note about Bush and Afghanistan” e “The C. R. Boxer affair: heroes, traitors, and the Manchester Guardian”. 

Dentro do limitado espaço que oferece uma resenha e por sua inegável importância para os estudos da História do Brasil, vai-se destacar aqui apenas o ensaio dedicado ao historiador britânico Charles Ralph Boxer (1904-2000), grande conhecedor da história colonial de Portugal e Holanda. Em linhas gerais, o que se pode adiantar é que Boxer foi educado no Wellington College e no Royal Military College, em Sandhurst, tendo sido tenente no regimento do Lincolnshire de 1923 a 1947.  

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Duanne Ribeiro: a poesia em busca da infância perdida, por Adelto Gonçalves   

I
        O jornalista Duanne Ribeiro, depois de incursionar pelos gêneros romance e novela e publicar outras produções em antologias e periódicos, chega ao público-leitor com uma obra de poesia que surpreende por seu experimentalismo. Trata-se de *ker– (Goiânia, Editora Mondru, 2023), que surpreende até mesmo pelo título pouco usual, em que reúne peças que passam longe do que se entende por uma poesia lírica e bem comportada, mas que, acima de tudo, procuram reconstituir o mundo perdido de uma infância passada nos anos 90, a última década em que as crianças ainda foram bem crianças, em meio a jogos, minigames e desenhos animados malucos e divertidos, antes da chegada dos tablets, celulares, videogames de última geração e redes sociais, como facebookinstagram e outras.

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AUGUSTO CURY EXPLICA COMO SOBREVIVER À INTOXICAÇÃO DIGITAL, O MAL DO MILÉNIO

No seu mais recente livro, o psiquiatra mais lido da atualidade sugere soluções para uma vida mais tranquila, plena e presente, evitando a intoxicação digital provocada pelos aparelhos eletrónicos e pelas redes sociais.

Mais de quatro mil milhões de humanos, ou seja, metade da população mundial, têm ou vão ter um transtorno psiquiátrico, como a síndrome do pensamento acelerado ou a síndrome da intoxicação digital, que resultam de fenómenos contemporâneos como a massificação dos telemóveis e das redes sociais. Destes, provavelmente nem 1% se tratará, seja porque o tratamento é caro, porque faltam profissionais de psicologia e psiquiatria ou porque as pessoas não têm noção de estar doentes.

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Sessão de lançamento de «Piero Solidão», de Leonor Baldaque

Quinta-feira, 9 de maio, decorre a sessão de lançamento do livro Piero Solidão, de Leonor Baldaque, às 18h30, na Casa do Comum, em Lisboa.  Com apresentação de Raquel Marinho, de o poema ensina a cair.

Piero Solidão, um romance terno, melancólico, em busca da beleza pura, marca a estreia de Leonor Baldaque como romancista em Portugal, com tradução de Antonio Sabler.

Eunice Lourenço, Editora de Política do Expresso, “O que ando a ler”: “O século XX esquecido” de Tony Judt

Não ando a ler, vou lendo, umas vezes ao sabor da atualidade, outras em função do que me apetece ou de algum tema que me interessa de forma particular. “O século XX esquecido” de Tony Judt, professor de História em Cambridge, Oxford, Berkeley e Nova Iorque, vencedor de vários prémios, é todo um exercício de memória contra o que o autor considerava a “era do esquecimento” que estamos a viver. É uma coletânea de ensaios organizado em quatro partes: O Coração das Trevas, A Política do Compromisso Intelectual, Perdido na Transição e O (meio) Século Americano.

Pelas suas mais de 400 páginas podemos ‘reler’ Primo Levi; repensar a modernidade (ou não) de João Paulo II, perceber a importância da Bélgica ou tentar perceber Israel “o país que não queria crescer”. E, sobretudo, podemos recuperar alguma noção da história que tanto precisamos para que a memória coletiva possa evitar a repetição dos erros do século passado.

Livros dos 500 Anos Camões-Sena | Manuel S. Fonseca, Abril 23, 2024

Os governos de Portugal lá saberão de si. E saberão, porventura, porque esqueceram ou temem vir recitar em público o «Alma minha gentil» ou esse outro verso «Que eu canto o peito ilustre Lusitano / A quem Neptuno e Marte obedeceram»!  

E, no entanto, diz-nos Jorge de Sena, explicando-nos tudo com uma arrebatadora erudição e com uma devastadora sedução, Camões é um poeta do futuro. Não o poeta do passado, anacrónico, imperial, colonial (e despejem-se aqui os ismos que se queiram), mas um poeta que transcende hagiografias nacionais e que, n’Os Lusíadas e sobretudo n’Os Lusíadas, apela a toda a humanidade. Camões é um expoente de universalidade, diz, quase nos fazendo o desenho, Jorge de Sena. 

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De tarde, naquele «pic-nic» de burguesas, Cesário Verde

Naquele «pic-nic» de burguesas,

Houve uma coisa simplesmente bela,

E, que sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão de bico

Um ramalhete rubro de papoilas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, inda o Sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas.

Cesário Verde, 1887

Notas

granzoal (v. 7): campo semeado de grão-de-bico.

malvasia (v. 12): vinho licoroso. 

Retirado do Facebook | Mural de Maria Teresa Carrapato, completado com https://folhadepoesia.blogspot.com/

Em Todos Os Jardins Hei-de Florir | Poema de Sophia De Mello Breyner, com Narração

Em Todos Os Jardins Hei-de Florir | Poema de Sophia De Mello Breyner, com Narração. Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de novembro 1919 no Porto, onde passou a infância. Em 1939-1940 estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa. Publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Foi mãe de cinco filhos, para quem começou a escrever contos infantis. Além da literatura infantil, Sophia escreveu também contos, artigos, ensaios e teatro. Traduziu Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses. Aqui vos deixamos um dos seus poemas mais marcantes de uma autora que tinha com o mar uma relação muito especial. O poema tem narração em português.

A Inconfidência revisitada de Kenneth Maxwell, por Adelto Gonçalves

Nova obra do historiador britânico Kenneth Maxwell analisa a trajetória do Brasil no século XXI e reconstitui a história da conjuração mineira de 1789.

                                                             I
               Uma revisão, praticamente, completa da chamada Inconfidência Mineira – até porque, em História, nunca se pode definir um estudo como completo porque sempre haverá a possibilidade de se localizar documentos esquecidos ou perdidos – é o que o leitor vai encontrar no longo ensaio “Imagined Republics: the United States of America, France, and Brazil (1776-1792)”, que constitui a segunda parte de Brazil in a Changing World Order – Essays by Kenneth Maxwell (Robbin Laird, editor, Second Line of Defense, 2024), obra que acaba de sair à luz na Inglaterra e que, por sua importância capital, está a exigir a sua publicação o mais rápido possível por uma editora brasileira.

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50 anos do 25 de abril | Manuel Alegre

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro

vi o Abril que foi e o Abril de agora

eu vi Abril em festa e Abril lamento

Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir

vi o Abril de sim e Abril de não

Abril que já não é Abril por vir

e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde

Abril que foi Abril e o que não foi

eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)

Abril de Abril despido (Abril que dói)

Abril já feito. E ainda por fazer.

Manuel Alegre

(Nascimento Águeda, 12 de maio de 1936) é um escritor e político português

Luís de Camões, Vergílio e Horácio . por Frederico Lourenço

Apesar das suas muitas afinidades com os dois maiores poetas da Roma antiga, Camões foi mais longe do que Vergílio e Horácio. Mais longe na poesia e mais longe na vida. Vergílio nunca escreveu poesia lírica; Horácio nunca escreveu poesia épica: mas Camões triunfou nos dois géneros. Na vida, Vergílio e Horácio viajaram de Itália para a Grécia e voltaram depois a Itália. Mas Camões foi o primeiro génio da literatura ocidental a passar a linha do Equador: foi o primeiro a conhecer o hemisfério sul. Viu gentes e paisagens novas; sentiu climas diferentes; e experimentou costumes com que nenhum Grego ou Romano alguma vez sonhara. Além disso, Camões foi o primeiro autor europeu a escrever um poema de amor dedicado a uma mulher não-europeia. 

PS: Na imagem: «Olympia» do genial pintor francês Édouard Manet

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Edição comemorativa da Ética de Aristóteles

António de Castro Caeiro assina a tradução, o prefácio, as notas e o glossário

Lisboa, 16 de abril de 2024 – Vinte anos depois da primeira edição, a Quetzal
volta a publicar a tradução integral de Ética a Nicómaco, um dos textos fundamentais de Aristóteles e da cultura ocidental, pela mão de António de Castro Caeiro, responsável também pelo prefácio, pelas notas e pelo glossário. Esta é uma edição especial, de capa dura e com uma reprodução integral do fresco Escola de Antenas, de Rafael, dos Museus do Vaticano.
Ética a Nicómaco trata da felicidade como projeto essencial do ser humano. Das virtudes, da sensatez, do que se pode e do que se deve fazer. Trata da possibilidade de se existir de acordo com as escolhas que fazemos. De se ser autónomo, de viver com gosto. Trata da procura do prazer pelo prazer – e do prazer pela honra. Da justiça. Das formas de vida que levam à felicidade. Da procura do amor. Temas dominantes no pensamento universal.
«Cabe a cada um contribuir para que os seus próprios filhos e amigos obtenham uma orientação em direção à excelência, ou pelo menos para se decidirem nessa direção», defende Aristóteles, ciente dos desafios de uma vida plenamente feliz: «É difícil responder a todas as situações no dia a dia com gentileza, suavidade, serenidade, tranquilidade.»
A nova edição de Ética a Nicómaco fica disponível a 18 de abril.

Sonata de Abril | Maria Isabel Fidalgo

Trago a poesia das searas

num anseio suspirado

pela luz de Maio 

do primeiro dia

e de um Abril cantado

folar de cravo

sol em folia. 

Emerge de novo a noite 

dos passos senhoriais

e gemem as doces brisas

nos pinheirais.

Mas a voz será de canto

se alguém quiser

na arma a mão da criança

se cravo houver.

«Antes de Mim um Verso», Poética Edições

“O Labirinto dos Perdidos” | Amin Maalouf

SINOPSE

Amin Maalouf é um jornalista e romancista libanês. Venceu o Prix des Maisons de la Presse, o prémio Goncourt e o prémio Príncipe das Astúrias.
É membro da Academia Francesa desde 2011. Foi chefe de redação, e mais tarde editor, do Jeune Afrique.
Durante 12 anos foi repórter, tendo realizado missões em mais de 60 países.

CRÍTICAS DE IMPRENSA

«Uma meditação poderosa e angustiante sobre o futuro do mundo e, ao mesmo tempo, uma magistral lição de História.»
Le Figaro

“Ancoradouro” | Carlos Barroso Esperança

O «Ancoradouro», que começou a chegar esta semana às livrarias, já está na FNAC e Bertrand das grandes cidades e em várias cidades de média dimensão.

Está também disponível na âncora Editora e nas livrarias online. Em Coimbra já está em livrarias da Baixa e em Lápis de Memória, no Bairro Norton de Matos.