José Luís Peixoto | Em Teu Ventre

jlpeixoto 300Em iniciativa promovida pela Junta de Freguesia de Fátima

José Luís Peixoto apresenta em Fátima romance que retrata tempo das aparições 

“Para mim hoje é um dia muito feliz”. Foram estas das primeiras palavras que o escritor José Luís Peixoto proferiu em Fátima na apresentação do seu último livro, “Em teu ventre”, no dia em que a obra chegava às livrarias em Portugal, a 23 de outubro.

Isto porque aquando do convite para vir a Fátima apresentar um dos seus livros no Festival Literário que a autarquia local levará a efeito em novembro, José Luís Peixoto encontrava-se precisamente a escrever esta sua obra em que pretendeu retratar de um ponto de vista novo o tempo das aparições de Fátima, e ainda não tinha dado conhecimento público do que fazia. Esta coincidência, referiu, “teve um significado imenso para mim e fez-me um sentido que não consegui explicar completamente, mas nem tudo precisa de ser explicado”.

A apresentação em Fátima, numa organização da Junta de Freguesia, teve lugar na Escola de Hotelaria, com casa cheia, e antecedeu o lançamento do “Tabula Rasa – Festival Literário de Fátima”, agendado para 18 a 22 de novembro próximo.

“Em teu ventre” foi apresentado por Miguel Real, escritor, ensaísta e professor de Filosofia, que qualificou o livro como “um dos melhores romances de José Luís Peixoto”.

O romance, que o próprio autor designa de novela, embora ficcional, assenta em figuras e acontecimentos relacionados com as aparições de Maria em Fátima, em 1917. “As aparições não são narradas, os seus efeitos são”, disse Miguel Real.

Por seu lado, o autor sublinha que “o livro é constituído por duas grandes dimensões”: a coletiva, “que tem que ver com a memória histórica, com a dimensão que diz respeito a todos, à história de Portugal e à história deste episódio do catolicismo”, e a dimensão “da reflexão sobre as mães”.

José Luís Peixoto recordou que “desde que disse que tinha escrito um livro sobre a memória histórica de 1917”, a pergunta mais recorrente que lhe é colocada é “Como podes escrever sobre isso?”. Para o autor, Fátima, trata-se de “um tema muito relevante da história portuguesa do Século XX, da memória histórica de Portugal”.

Como fontes principais para “Em teu ventre”, o autor usou as “Memórias da Irmã Lúcia” e a obra “Era uma Senhora mais brilhante que o Sol”, do padre João M. de Marchi.

Narrado pela personagem Deus, a personagem principal do livro é Lúcia, um três videntes, escolhida precisamente porque “é a mais velha, a única que viu, ouviu e falou, e por ser aquela que nos deu conta dessa história”.

Para José Luís Peixoto, a obra “é um objeto literário, não é um documento histórico, mas era importante que tivesse algum rigor”, daí que, “não sendo realista, tem aspetos enganchados no realismo”. Até mesmo temporalmente a narração está marcada entre maio e outubro, meses das aparições.

Após a apresentação de “Em teu ventre” teve lugar o lançamento do “Tabula Rasa – Festival Literário de Fátima”. A noite terminou com uma sessão de autógrafos de José Luís Peixoto.

Em serviço de assessoria de imprensa para a Junta de Freguesia de Fátima :

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Vidas (e obras) de poetas | Adelto Gonçalves

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Desde que Caio Suetônio Tranquilo (70d.C.-122d.C.), no começo do século II, escreveu De grammaticis, coleção de resumos biográficos de gramáticos,  retóricos e poetas  romanos (Terêncio, Virgílio, Horácio e Lucano), que faz parte de uma obra mais ampla, De uiris illustribus, ficou claro que o tema sempre renderia textos excepcionais. Proclamações (Brasília, Editora Thesaurus, 2013), de Anderson Braga Horta (1936), livro que reúne dez ensaios e conferências sobre onze poetas brasileiros, segue essas pegadas e não foge à regra.

Até porque o seu autor não só é um fino e consagrado poeta como um crítico e ensaísta de alto quilate, que sabe que o seu ofício não se resume à inspiração – ainda que sem ela não exista poesia, como diria Lêdo Ivo (1924-2012) –, mas que é preciso também conhecer a técnica e saber como aplicá-la ou deter conhecimento para reconhecê-la e, ao mesmo tempo, detectar os defeitos que cometem os seus utilizadores.

Por isso, só mesmo quem domina à exaustão a técnica do fazer-poético poderia escrever o ensaio “Os erros de Castro Alves”, texto que deveria ser lido não só por candidatos ao ofício como por todos aqueles que se interessam por poesia e mesmo por alguns bardos com obra já conhecida. Munido de vasto conhecimento, o ensaísta rebate várias acusações que se apresentam infundadas e que pretendiam mostrar que o bardo baiano teria cometido deslizes de linguagem e tropeços métricos.

Para o ensaísta, não há em Castro Alves (1847-1871) nenhuma insuficiência de linguagem e muito menos erros métricos que possam tirá-lo do panteão da poesia brasileira. Muitas vezes, como diz, os pretensos erros não passam de licença poética ou palavras que seriam acentuadas de outra forma ao tempo do poeta. São os casos de blásfemo por blasfemo,  Niagara por Niágara ou nenufares por nenúfares, entre outros.

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