O homem é um ser perverso | Carlos Vale Ferraz

Texto- síntese da comunicação de Carlos Vale Ferraz para a Sessão “Palavra de Escritor” do Grupo 3 de Oeiras da Amnistia Internacional – Biblioteca Operária Oeirense, 30 Março 2017
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No dia 30 de Março falei na seção de Oeiras da Amnistia Internacional. Escolhi o tema da perversidade do homem, que estas dignas organizações tentam minimizar. Deixo aqui alguns tópicos, um pouco à laia de informação sobre o inimigo que enfrentam.
«O homem é um gorila lúbrico e feroz» escreveu Hipólito Taine, um positivista francês do século XIX, que tentava compreender o homem à luz de três fatores determinantes, o meio ambiente, raça e momento histórico. À luz destes factores não temos motivos para nos congratularmos com a evolução da nossa espécie. Utilizei esta citação no meu primeiro romance «Nó Cego». No romance que irá sair em Setembro/Outubro mantenho-me céptico quanto natureza do homem. Kant considerava os cépticos como nómadas, e como vigilantes da razão. Tenho sido nómada do espírito e procurado ser mais céptico que asséptico. Não ser asséptico é, para mim, não acreditar na bondade do homem, mas que o bem existe e que se opõe ao mal. Estou fora da moda que tudo relativiza. De que o mal é fruto do meio. Nos meus romances responsabilizo as minhas personagens. Não gosto de coitadinhos. Também recuso a leitura das grandes religiões sobre a bondade intrínseca do homem, por ele ter sido criado à semelhança de Deus e Deus não poder ser mau. Pode, como se verifica pelas suas criações. Não estou mal acompanhado. A má opinião sobre a humanidade é antiga. A natureza humana em Platão é degenerada, mas ele considerava que a degeneração podia ser travada através do uso da razão e pela contemplação do Sumo Bem pelo homem. Discordo desta parte. É a inteligência e a razão que tornam o homem um ser perverso.

Erasmo de Roterdão, no Elogio da Loucura; Tomás Moro, na Utopia, Baltasar Gracián em El Criticón assumem que o homem é mau por natureza, também no Leviatã, de Hobbes. Só Rosseau descobriu homens bons, mas nos bons selvagens das ilhas tropicais, indígenas nus de fácil trato e natureza pródiga que os descobridores trataram de matar ou corromper. Maquiavel também desenvolve a ideia pessimista do homem, em particular dos poderosos. Considera-os egoístas, cruéis e traiçoeiros. São os que se impõem com e pela violência. Quem quer vencer não deve hesitar em usar todos os meios para manter sua posição! Assim foi e assim será.
Kant fala de ética, afirmando que apenas as ações que podem ser universalizadas são moralmente boas. Enganou-se redondamente. Afirma que não podemos mentir, pois se todos mentissem, não saberíamos o que é a verdade e a própria mentira não existiria mais. Não podemos matar, pois se todos matassem seríamos extintos e o próprio assassinato deixaria de existir. A realidade prova que a mentira é uma pós-verdade e os morticínios são apenas danos colaterais. O que não pode ser universalizado é a boa vontade. Se a espécie humana vivesse de acordo com a natureza não seriam necessárias organizações humanitárias e de defesa dos direitos humanos, ou do ambiente como a Amnistia ou a Green Peace…Estas organizações reflectem o paradoxo da nossa espécie: alguns de nós têm de se esforçar para minimizar as taras da maioria.
O que caracteriza a natureza humana é a perversidade. A capacidade de fazer o mal apenas para provocar sofrimento no nosso semelhante, a capacidade para utilizar a inteligência para enganar, ferir, humilhar e, de seguida, classificamos os criminosos como heróis! De onde vem a perversidade do homem? Qual a sua origem? A perversidade é a degenerescência do instinto. Não existe outro animal, a não ser o homem, dotado de perversidade. A perversidade está tão interiorizada, tão embebida em nós, que os nossos grandes sistemas filosóficos, as grandes religiões que prometem a salvação eterna depois da morte e organizam a vida em comum através da moral e da ética, santificam as vítimas da perversidade, apresentam-nas como exemplos a seguir, denominando-os de mártires! Devíamos, se fôssemos seres de bem, condenar e execrar quem crucificou um homem por delito de opinião, por propor uma nova mora baseada na tolerância, mas não, em vez de condenarmos os crucificadores, deificamos o crucificado! É esta a natureza daquilo que designamos por inteligência e por fé!
Um ponto que tenho abordado nos meus romances é a relação do dever com a moral. O tema foi muito debatido após a II Guerra Mundial, no julgamento de Nuremberga, em particular. Cumprir o dever anula a perversidade do acto? Obedecer a ordens justifica a perversidade humana? O carrasco, o homem que roda a engrenagem do garrote, o agente da CIA, do KGB, ou da PIDE que afoga um prisoneiro para obter uma confissão, o homem que injecta a droga mortal ao condenado, o padre que confessa um supliciado pelo Santo Ofício, não são responsáveis? Não são perversos de per si? Pior, não fazem parte de nós e da nossa ordem? Os deputados, os presidentes, os juízes que assinam uma sentença de morte não são criminosos?
Terminei a conversa lendo um extracto do romance que irei publicar e que relata um julgamento de um antigo mercenário no Congo Belga que se sujeitou voluntariamente a julgamento num tribunal Belga, por um crime cometido na guerra da secessão do Catanga (passe a publicidade, mas nem sequer o romance tem um título definitivo):
“Esclareceu o juiz que se tratou de uma disputa entre dois homens em que um deles, um traidor, lhe queria tirar a vida, a mando de Mobutu, o maior títere que emergiu das independências da África colonial europeia! O magistrado leu o que constava do último parágrafo da denúncia, sobre o modo como o comerciante fora morto com um tiro de pistola disparado à queima-roupa e o destino do seu corpo, despedaçado pelo mercenário Rodrigues e atirado aos crocodilos do rio Lowa. Scrame encolheu os ombros: ‘O meritíssimo juiz tem uma ideia do número de mortos no Congo, a partir do momento em que o governo deste seu reino anunciou a independência daquela antiga propriedade do soberano dos belgas? Quantos brancos e negros foram comidos pelos crocodilos? Acredita que os crocodilos do Congo deram uma morte mais cruel a esse homem do que os torturadores que dilaceraram em vida, pouco a pouco, os corpos de milhares de seres humanos, tantas vezes com a colaboração de militares belgas, suecos, americanos, ao serviço dos seus países e das Nações Unidas? Assassinos que não vejo aqui! Sou criminoso e eles não, porquê?’ O juiz permaneceu um longo tempo a observá-lo, com uma expressão onde se cruzavam o horror e admiração. Como se os dois homens não pertencessem à mesma espécie.”
Carlos Vale Ferraz
Retirado do Facebook | Mural de Carlos Vale Ferraz

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