A Última Viúva de África | Carlos Vale Ferraz

Ensinar o invisível. Frases que encontramos e levamos sem a princípio sabermos porquê. Estava a preparar os textos para a contracapa e as badanas do meu próximo romance que está nas artes finais. Como resumir numa folha A4 o que me levou dois anos de escrita e resultou em quase meio milhão de caracteres? Como preparar a resposta às perguntas dos jornalistas ou dos leitores: Então, caro Carlos Vale Ferraz, do que trata este seu livrinho com o título «A última viúva de África»? Quem é esta viúva? Que viuvez é esta? O que pretende transmitir aos leitores? Como se integra este romance no conjunto da sua obra?

Em resumo, preparava a resposta à interrogação: O que anda o Carlos Vale Ferraz a querer transmitir quando escreve, sejam romances sejam artigos avulso e encontrei no jornal El País a frase «Ensinar o invisível» associada a um artigo sobre um projecto de educação intitulado «Pedagogías Invisibles» do departamento de didática da faculdade de Belas Artes da Universidade Complutense, de Madrid.

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A actriz e o medo | Carlos Vale Ferraz

A propósito da distinção de Lisboa enquanto Capital Ibero-Americana da Cultura em 2017, o Centro Cultural de Belém apresentou de 7 a 9 de Junho as peças A Atriz e O Medo, da dramaturga argentina Griselda Gambaro, encenadas por São José Lapa.
A Actriz é uma peça curta. Um monólogo que não o é, um diálogo com o vídeo. Um exercício de atriz expõe-nos àquilo por que tantos cidadãos no Portugal de hoje passaram. Uma dívida ao banco, um prazo ultrapassado, onde a emoção primária do medo implode.
Em O Medo três homens esperam ansiosamente ser chamados por alguém, algures nos anos 1970. O humor corrosivo de Griselda Gambaro, cruel e violento, por vezes obriga-nos a enfrentar a memória da mais sangrenta ditadura da história da Argentina e da América do Sul., visitamos o universo de realismo fantástico de Gambaro, onde a emoção do corpo e o sentimento da mente e do medo coexistem através do humor.
A São José Lapa pediu-me um texto sobre o medo para o programa do espetáculo. Nunca escrevi tão livre e tão condicionadamente. Não queria escrever sobre o que a autora escrevera, nem contra. Principalmente não queria escrever fora do tom das peças. Mas eu não as vira, nem conhecia a leitura da encenadora, nem o ambiente que os actores criariam! Senti-me um funambulista. Um escritor em cima da corda bamba, sem medo, mas a falar do medo.
A peça é uma teia de palavras e gestos com várias interpretações. O meu texto sobre o medo é este que aqui deixo, um mês após a apresentação:

Medo

É o medo que faz os ditadores. Dos ditadores direi, antes de tudo, que são cobardes. Têm medo de si antes do medo dos outros. É o medo de revelarem a sua fraqueza, a sua cobardia, a sua ignorância que faz os ditadores violentos e perigosos.

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O homem é um ser perverso | Carlos Vale Ferraz

Texto- síntese da comunicação de Carlos Vale Ferraz para a Sessão “Palavra de Escritor” do Grupo 3 de Oeiras da Amnistia Internacional – Biblioteca Operária Oeirense, 30 Março 2017
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No dia 30 de Março falei na seção de Oeiras da Amnistia Internacional. Escolhi o tema da perversidade do homem, que estas dignas organizações tentam minimizar. Deixo aqui alguns tópicos, um pouco à laia de informação sobre o inimigo que enfrentam.
«O homem é um gorila lúbrico e feroz» escreveu Hipólito Taine, um positivista francês do século XIX, que tentava compreender o homem à luz de três fatores determinantes, o meio ambiente, raça e momento histórico. À luz destes factores não temos motivos para nos congratularmos com a evolução da nossa espécie. Utilizei esta citação no meu primeiro romance «Nó Cego». No romance que irá sair em Setembro/Outubro mantenho-me céptico quanto natureza do homem. Kant considerava os cépticos como nómadas, e como vigilantes da razão. Tenho sido nómada do espírito e procurado ser mais céptico que asséptico. Não ser asséptico é, para mim, não acreditar na bondade do homem, mas que o bem existe e que se opõe ao mal. Estou fora da moda que tudo relativiza. De que o mal é fruto do meio. Nos meus romances responsabilizo as minhas personagens. Não gosto de coitadinhos. Também recuso a leitura das grandes religiões sobre a bondade intrínseca do homem, por ele ter sido criado à semelhança de Deus e Deus não poder ser mau. Pode, como se verifica pelas suas criações. Não estou mal acompanhado. A má opinião sobre a humanidade é antiga. A natureza humana em Platão é degenerada, mas ele considerava que a degeneração podia ser travada através do uso da razão e pela contemplação do Sumo Bem pelo homem. Discordo desta parte. É a inteligência e a razão que tornam o homem um ser perverso.

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A Estrada dos Silêncios, de Carlos Vale Ferraz

A Estrada dos SilênciosA jovem juíza Joana Secalha fora colocada na pacata comarca de Abrantes para se redimir de um passado pouco recomendável. Não podia cometer erros e deslocou-se, ao Monte Cimeiro, para ouvir as razões pelas quais o velho Francisco Afonso não aceitara a ordem de expropriação dos terrenos, por onde passaria a moderna estrada europeia e os benefícios do progresso. Francisco Afonso respondeu-lhe com a sabedoria dos velhos: «A ideia de que o progresso é bom assenta no mesmo erro de que Deus nos salva com milagres. Milagre e progresso seriam evitar o mal!» Ela falou do futuro. Ele do passado: «O futuro é para a senhora doutora, para os engenheiros, para os generais à frente das tropas, para os missionários, para os inconscientes que se lançaram ao mar! Eu sou aquele que ficou nas praias, resmungando.»

Francisco Afonso contou à juíza o segredo do passado das suas famílias, há duzentos anos debaixo das terras por onde passaria a estrada que o exporia e cujo avanço ela teria de decidir…

Nó Cego | Carlos Vale Ferraz in “Babélia” do “El Pais”

Nó Cego, Carlos Vale Ferraz (Casa das Letras, 2008). “Puta compañía… maricones, chulos, seminaristas, niños de papá, vagabundos…”, así describe el Capitán a su grupo de comandos destinado en Mozambique. La novela relata con extrema crudeza las operaciones del grupo e indaga en las vidas de sus miembros. La historia de un joven campesino alentejano que se fue a buscar la vida a Lisboa, pero que en la capital solo encontró dolor y miseria, y que acabó enrolado en el Ejército, es el ejemplo de muchas vidas de jóvenes portugueses que acabaron implicados en las guerras africanas. Carlos Vale Ferraz, cuyo nombre es Carlos Matos Gomes, fue oficial del Ejército portugués y participó en operaciones especiales en Angola, Mozambique y Guinea Bisáu.

in “Babélia” do “El Pais”

Nó Cego