Conto da moral de Alfama | Carlos Vale Ferraz (pseudónimo de Carlos Matos Gomes)

Vivo entre evangélicos e Portugal é um país de cristãos desde a fundação.
Não percebo porque existem bancos em Portugal.
De vez em quando batiam-me à porta, aqui em Alfama, transparentes e de olhos revirados, aos pares, quase sempre, a darem-me indicações para alcançar o Céu, entre os fumos das sardinhas.
Sempre preferi oferecer-lhes um copo de vinho. O gato chegava-se à minhas pernas e miava enquanto eles me catequizavam.
Há dias que só me falam de usura. Retorqui, espantado – vivo por cima de uma casa de penhores, de prego, vá lá. Perguntei: A agiotagem não tem a aprovação do vosso Deus? Responderam – e eram americanos:
– Não há coisa mais desprezível para um ser humano (especialmente para um cristão), do que aproveitar do necessitado para ganhar um dinheirinho (jurinhos).
– É revoltante essa situação! – adiantou o coadjuvante do primeiro catequista. – E pensar que muitos cristãos vivem disto, aqueles que se esperam expressar o amor de Jesus Cristo! Antes era só judeus. Mas foram todos para Israel aviar palestinianos…
– Pois é, o engenheiro Jardim Gonçalves, com uma pensão de 2 milhões por ano é capaz de ser agiotagem e ele é cristão. E os Espirito Santo, que até tinham capela em casa?
– Um assunto de suma importância para a vida do cristão, é o controle financeiro. Eles são especialistas. Ou foram…
– Claro, afinal, a nossa vida deve ser de culto, louvor e adoração a Deus em todos os sentidos.
– Tudo o que fazemos deve refletir Cristo em nós.


– Assim sendo, não devemos ser malvistos para não causar escândalos, mas, ao contrário, ser exemplo a ser seguido.
– Disse Jesus: “Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?”
– Até já ouvi falar num spread…
– A Bíblia é que nos leva ao céu! – disse eu. Um pobre sem fé nem no céu nem em quem me leve até lá.
– E há um céu para tesos? – interessava-me. – Agora que assisto ao auto de fé após o julgamento da inquisição a um hereje que comprou um prédio em Alfama.
– É o mesmo dos tansos!
– Há quem passe a vida inteira devendo. Mal saem do aperto de uma dívida entram em outra. É o que leva aos melhores altos céus.
– Melhores ainda são aqueles que acumulam dívidas sobre dívidas e, depois, não têm como pagá-las. A esses ninguém atira a primeira pedra!
– O apóstolo Paulo adverte: “A ninguém fiqueis pagando coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros”.
– Está escrito isso na Bíblia? Então deve ser observado. Devemos dar amor. É mesmo o único bem que devemos dar…
– Sim, dívidas e prédios trazem problemas aos cristãos tanto em casa quanto na rua! Os tesos são os abençoados!
– Casos temos ouvido de pessoas que se recusam a ser tesos e querem ser cristãos!
– Malandros! Não pode ser!
– Além de não estarem cumprindo com seus deveres, também ensinam os filhos a usar uma arma maléfica: a mentira, que tem como pai o próprio diabo.
– Se você é cristão, e fez um negócio, coloque-se perante Deus e ore para que ele lhe dê forças para que enfrentar os zeladores da moral. Venda. Dê. Desfaça-se dos logradouros.
– E quanto à moral?
– Quanto à moral, use-a como os restos da comida, ou do papel higiénico. Assim dentro das suas possibilidades e das suas necessidades. De modo a evitar que os donos da moral lhe batam à porta… A moral tem dono e os donos da moral têm, habitualmente cães do piorio…
– Vá dando desculpas, alegando que amanhã irá acertar as suas dívidas, o que nem sempre é verdade, mas é uma forma de ganhar tempo.
– Evite pagar a pronto. Procure acusar os outros de comprarem tudo o que vêem. Contraia dívidas, recorra a agiotas e aos dos bancos, principalmente, e não pense em pagar. Transforme a sua dívida numa verdadeira bola de neve, ou seja, impagável.
– Vá você mesmo aos seus credores, seja agressivo, explique-lhes sua situação e negocie uma forma de pagamento em várias prestações, com juros baixos.
– Ou então, o que costuma ser mais aconselhável, recorra a uma instituição bancária para um empréstimo em longo prazo, pesquisando, primeiro, qual a que está mais perto de falir, para não pagar juros…
– Mas, se alertamos sobre dívidas, também devemos chamar a atenção de cristãos que se dedicam a emprestar dinheiro com o fim de ganhar juros, de ter uma renda a mais à custa da dificuldade alheia. No Deuteronômio está escrito: “A teu irmão não emprestarás com juros, seja dinheiro, seja comida ou qualquer coisa que é costume se emprestar com juros.”
– Há quem alegue que o errado é apenas emprestar com juros altos, extorsivos, pois existe a condenação de se emprestar com usura (e receber juros).
– Depende. Nuns locais é errado emprestar a juro altos e noutros a juros baixos. Não compres é casas, bens que se vejam. Empresta e pede emprestado.
– Acontece que o cristão deve seguir, além das leis de Deus, também as leis de seu País. O uso e o costume. Em Roma sê romano e em Alfama sê turista, ou carteirista.
– Se és cristão em Alfama, só tens uma solução: “No suor do rosto comerás o teu pão” disse Deus, ou guiarás um tuk-tuk.

Carlos Vale Ferraz

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Vale Ferraz

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