A Última Viúva de África | Carlos Vale Ferraz

Ensinar o invisível. Frases que encontramos e levamos sem a princípio sabermos porquê. Estava a preparar os textos para a contracapa e as badanas do meu próximo romance que está nas artes finais. Como resumir numa folha A4 o que me levou dois anos de escrita e resultou em quase meio milhão de caracteres? Como preparar a resposta às perguntas dos jornalistas ou dos leitores: Então, caro Carlos Vale Ferraz, do que trata este seu livrinho com o título «A última viúva de África»? Quem é esta viúva? Que viuvez é esta? O que pretende transmitir aos leitores? Como se integra este romance no conjunto da sua obra?

Em resumo, preparava a resposta à interrogação: O que anda o Carlos Vale Ferraz a querer transmitir quando escreve, sejam romances sejam artigos avulso e encontrei no jornal El País a frase «Ensinar o invisível» associada a um artigo sobre um projecto de educação intitulado «Pedagogías Invisibles» do departamento de didática da faculdade de Belas Artes da Universidade Complutense, de Madrid.


Que ligação existe entre uma ideia de educação associada à arte, através de processos de aprendizagem não formais, ou informais, com uma pedagogia que os seus promotores classificam como disruptiva, crítica e sob uma perspectiva feminista, os meus romances e o que escrevo sobre o mundo? À primeira vista nada, ou muito pouco. Mas os dois conjuntos de palavras, «pedagogias invisíveis» e «ensinar o invisível» surgiram diante dos meus olhos e continuaram a brilhar como moedas escondidas na areia. Nos meus romances conto histórias. Cada romance conta várias histórias dentro de uma história geral, o enredo principal. Que história e que histórias conto neste romance? A resposta não me parecia muito difícil até esta frase do «ensinar o invisível». Conto a história de uma mulher portuguesa que viveu as independências do Congo Belga e de Angola, o fim do apartheid na África do Sul, que queria continuar em África, assim como o seu companheiro de aventura, um mercenário belga. Conto a história de um homem cujo passado era incompatível com a imagem que transmitiu ao longo da última parte da vida. Conto a história de duas jovens mulheres, uma que vive apenas o presente como ele se apresenta e outra que procura inventar um outro que cubra uma ascendência de que se envergonha.

Enfim, neste romance da Última Viúva de África, tal como nos anteriores, entreteço vidas. É isso que me parece e parecia que os leitores gostam e gostarão. Estava e estou muito satisfeito com o resultado, não faço rendilhados de palavras, não “perscruto os longínquos ecos do infinito universo das almas amarguradas e sempre em crise de existência às costas dos homens mulheres e crianças que povoam os romances nas doces nuvens de algodão de açúcar” da literatura mais celebrada na nossa comunidade da escrita, mas que não é a minha. Porquê, então, o choque com as pedagogias invisíveis, com o ensinar o invisível? Porque, pecador romancista me confesso, fazendo um exame de consciência, como o que era recomendado aos religiosos, descubro em cada romance a minha pretensão de ensinar alguma coisa invisível, de transmitir, se não uma ideia, pelo menos um ponto de vista resultante do que aprendi ou julgo saber. O saber invisível que penso ter transmitido até agora nos meus romances é o da experiência dos vencidos. A minha pedagogia do invisível assenta em processos informais de sobreviver às derrotas…

Não sei o que escreverei na contracapa e nas badanas deste último romance, mas direi que a última viúva de África teve direito a enterro num panteão particular, tal como o capitão de Nó Cego, as personagens milenares do Livro das Maravilhas, os quatro Imortais dos Lobos Não Usam Coleira, como a mulher do Legionário, ou velho reaccionário que pretendeu impedir a construção da Estrada dos Silêncios…
Eu passarei a estar mais atento aos saberes invisíveis que as personagens dos meus romances transmitem…

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Vale Ferraz

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