A actriz e o medo | Carlos Vale Ferraz

A propósito da distinção de Lisboa enquanto Capital Ibero-Americana da Cultura em 2017, o Centro Cultural de Belém apresentou de 7 a 9 de Junho as peças A Atriz e O Medo, da dramaturga argentina Griselda Gambaro, encenadas por São José Lapa.
A Actriz é uma peça curta. Um monólogo que não o é, um diálogo com o vídeo. Um exercício de atriz expõe-nos àquilo por que tantos cidadãos no Portugal de hoje passaram. Uma dívida ao banco, um prazo ultrapassado, onde a emoção primária do medo implode.
Em O Medo três homens esperam ansiosamente ser chamados por alguém, algures nos anos 1970. O humor corrosivo de Griselda Gambaro, cruel e violento, por vezes obriga-nos a enfrentar a memória da mais sangrenta ditadura da história da Argentina e da América do Sul., visitamos o universo de realismo fantástico de Gambaro, onde a emoção do corpo e o sentimento da mente e do medo coexistem através do humor.
A São José Lapa pediu-me um texto sobre o medo para o programa do espetáculo. Nunca escrevi tão livre e tão condicionadamente. Não queria escrever sobre o que a autora escrevera, nem contra. Principalmente não queria escrever fora do tom das peças. Mas eu não as vira, nem conhecia a leitura da encenadora, nem o ambiente que os actores criariam! Senti-me um funambulista. Um escritor em cima da corda bamba, sem medo, mas a falar do medo.
A peça é uma teia de palavras e gestos com várias interpretações. O meu texto sobre o medo é este que aqui deixo, um mês após a apresentação:

Medo

É o medo que faz os ditadores. Dos ditadores direi, antes de tudo, que são cobardes. Têm medo de si antes do medo dos outros. É o medo de revelarem a sua fraqueza, a sua cobardia, a sua ignorância que faz os ditadores violentos e perigosos.


Quando imagino um ditador nunca consigo ver-lhe os olhos. O ditador, como o carrasco, não nos olha, não nos enfrenta, não nos responde. O ditador é um monstro de costas. Por isso os ditadores amedrontam. Não os percebemos, sejam eles grandes ditadores, ou meros funcionários atrás de um balcão de atendimento a torturar-nos porque falta um documento, um atestado, uma autorização, até para ir urinar, ou lavar as mãos. Os ditadores não se vêem como alguém entre iguais. Eu vejo-os como uma deformidade. E exalam mau hálito.
Maquiavel justificava os ditadores com cinismo. Considerava-os egoístas, cruéis e traiçoeiros. Ensinou-os a não hesitarem em usar todos os meios para manter sua posição! É a perversidade que distingue os ditadores. São cegos e surdos. Por isso tantos deles usam óculos escuros e gostam de tambores, de explosões, de berros e gritos.
Na ditadura só os loucos são livres. Os ditadores temem os loucos. Os loucos vêem mesmo de olhos vazados e falam mesmo depois de lhes arrancarem a língua. Sonham, mesmo violados.
Na ditadura todos somos vencidos, mas derrubá-la não significa vencê-la. Nós, os portugueses, aprendemos – será que aprendemos? – que derrubar uma ditadura não nos abre as portas do paraíso, nem mesmo sobre a forma felizmente imperfeita da democracia com liberdade de expressão e de acreditar em milagres. O absurdo é democrático. Por vezes consideramos as ditadoras absurdas, mas não, o absurdo das ditaduras é estupidez. E devemos ter medo dos estúpidos.
Nas ditaduras tudo serve para aviltar e para matar. Uma gota de água pode ser instrumento de tortura. Uma injecção pode ser fatal. As ditaduras são, como disse, regimes de cobardia. Os tribunais das ditaduras atribuem a responsabilidade pela morte aos mortos que as ditaduras assassinaram. Os fuzilados da ditadura espanhola de Franco já levavam no bolso a certidão de óbito com a causa preenchida: muerto de disfución! As ditaduras são uma disfunção!
À dignidade da democracia, às suas felizes imperfeições, tanto podemos responder com sentido de responsabilidade, como com a nossa insensatez. Podemos manter-nos de pé ou sentarmo-nos. Ajoelharmo-nos, ou ficar de cócoras!
A democracia abre portas, deixa-nos andar, mas temos de aprender à nossa custa a defender-nos das armadilhas e das traições. Convém colocar olhos na nuca, como escreveu Nietzsche em “Assim falava Zaratustra”.
A democracia é o direito ao erro, à tentativa falhada, ao defeito. Há ditaduras perfeitas – são quase sempre perfeitas, porque totalitárias -, mas não existe uma democracia perfeita. É uma diferença essencial, que nos obriga a esforçarmo-nos todos os dias para a ir construindo. Na democracia temos o direito à preguiça a par do direito ao trabalho!
A democracia não é uma obra acabada, é uma possibilidade de escolha em cada momento. E não é grátis. Na democracia pagamos – nós sabemos bem que pagamos – os erros das más escolhas que fazemos ou fizemos. Mas, porque pagamos, temos o direito a saber, a ser informados. Por isso é tão importante a liberdade de informação. Porque pagamos, temos o direito a uma justiça que nos defenda, que estabeleça a diferença entre o erro e o crime.
Na democracia temos direito a gritar sem medo: Não!

Carlos Vale Ferraz
Escritor

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Vale Ferraz

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