Poesia | Inês Salvador | José Luiz Sarmento Ferreira

Escrevem umas coisas que não entendem, sombreadas de palavreado arcaico e de aqui e ali, na tentativa falhada da vida em vernáculo, uma pífia imagem pornográfica e acham que estão a escrever poesia. As massas gostam. As lasanhas, as carbonaras, as pizzas e os raviolis, gostam. A gordura gosta do pífio. Os azeiteiros comem à mesma mesa. Alfabetizamos, a literacia não se cumpriu. Já os restaurantes italianos expandiram bem. Um alfabetismo obeso, sem educação do gosto. Por complexo, se não se entende é arte, se for estrangeiro é melhor.
Para as estrangeiras há um lote crescente de prestáveis moços a oferecer serviços. Um atropelo à circulação. Sou portuguesa e não estou de férias, não parecendo. Parecendo, estes moços são poesia pífia.
Os Miseráveis de Victor Hugo e os grotescos de Dickens, um scanner social.

Retirado do Facebook | Mural de Inês Salvador

Comentáro ao texto supra de José Luiz Sarmento Ferreira:

Há um mito nórdico sobre a origem da má poesia. A história pode ser encontrada na recolha feita por Neil Gaiman. Como dá muitas voltas, não a vou resumir aqui. Destaco apenas o final: Odin, tendo roubado o hidromel da poesia ao gigante que o tinha guardado e não o partilhava com ninguém, transforma-se em águia e voa para a residência dos deuses, onde Thor e os outros, que entretanto se tinham dedicado à construção de tonéis, estão à sua espera. O gigante espoliado persegue-o, também transformado em águia. Chegado a Aasgard, morada dos Aesir, Odin regurgita o hidromel para os tonéis; e é por isso que os homens têm hoje o dom da poesia. Mas a história tem uma coda: pouco antes de chegar a Aasgard, Odin solta pelo ânus uma bufa monumental e fétida que vai bater em cheio no bico e nos olhos do seu perseguidor. Este, desorientado, volta para trás e vai-se lavar no tonel que tanto se tinha esforçado por guardar mas está agora vazio. A água suja dessa lavagem ainda está no tonel do gigante. E é assim que sabemos ainda hoje, sempre que ouvimos um mau poema, com rimas forçadas, métrica coxa, léxico impreciso, ideias feitas ou metáforas despropositadas, de que tonel bebeu o poeta.

AÇORDAS, SOPAS DE PÃO E MIGAS (1) | António Galopim de Carvalho

Açorda é uma herança directa da presença muçulmana neste “Garb-Al-Andaluz, antre Tejo e Odiana”, durante os séculos VII a XIII, onde se confeccionava a “ath thurda”, um alimento constituído por pedaços de pão mergulhados num caldo, mas não esmigalhados e amassados. Segundo o mestre da gastronomia, Alfredo Saramago, este tipo de alimentos, à base de ervas aromáticas, alho, azeite, pão e água quente, veio de um tempo pré-romano, atravessou os cinco século de ocupação romana, tendo sido os árabes que, durante outros cinco séculos de presença, a fixaram e lhe deram a importância que teve entre eles e ainda tem entre nós constituindo um dos nossos pratos mais regionais.

Para os alentejanos, o termo migas designa um alimento igualmente à base de pão, mas embebido num caldo e, a seguir, esmigalhado e amassado. Este tipo de confecção, embora mais espapaçado, é aquilo que, em Lisboa e noutras regiões do país, impropriamente, se chama “açorda”. Cozinhadas a partir de múltiplas receitas, variando de lugar para lugar, as “açordas de marisco”, que percorrem o litoral, do Minho ao Algarve, são, na realidade, migas. Dando satisfação a numerosos apreciadores, temos, ainda a “açorda com ovas de sável”, que se faz no Ribatejo, confecção com lugar cimeiro na gastronomia portuguesa. Umas e outras estão mais de acordo com as nossas migas, inclusivé as de batata, também elas esmigalhadas e amassadas.
Assinale-se que o termo migas radica no étimo latino, “mica”, que significa migalha, partícula, o mesmo que deu nome aos minerais conhecidos por micas, a branca (moscovite) e a preta (biotite).
Consciente desta realidade cultural dos alentejanos, o poeta João de Vasconcelos e Sá, avô do nosso fadista Pinto Basto, cantou, na revista musical, “Palhas e Moinhas” levada à cena, em 1939, no teatro Garcia de Resende, em Évora, a diferença entre os usos destas duas palavras no Alentejo e fora dele.
«Terra de grandes barrigas
onde só há gente gorda.
Às sopas chamam açorda
à açorda chamam-lhe migas. »

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